Os esgotos são habitados por crocodilos, as sanduíches do McDonald’s são feitas com carne de minhoca, Elvis Presley é raptado por extraterrestres, Paul McCartney morre em 1996 e é substituído por um sósia, Jim Morrison ainda anda por aí, alive’n’kicking, a Coca-Cola corrói os dentes, Messi nunca vai ser jogador da bola.

As lendas urbanas são histórias ou contos extravagantes, que, embora tenham elementos inverossímeis, se apresentam como verdadeiros. Uma mesma lenda urbana pode chegar a ter dezenas de versões face aos relatos de carácter sensacionalista, divulgados de boca em boca pela imprensa ou através de emails. Muitas destas histórias já são bastante antigas, com pequenas alterações ao longo dos anos e baseadas em factos reais (ou preocupações legítimas) geralmente distorcidas pelo tempo. Acontece com os anúncios da marca francesa de iogurtes Danone com figuras ligadas ao desporto espanhol.

A paródia começa em 1997, com José Luis Pérez Caminero, protagonista do último título de campeão espanhol do Atlético Madrid (95/96), e Sergi Brugera, tenista bicampeão do Roland Garros (1993 e 1994). O primeiro nunca mais levanta a cabeça, é transferido para o Valladolid e ainda se vê envolvido em acusações de ligação ao tráfico de droga. O segundo regista uma queda abrupta no ranking ATP nesse ano, sem qualquer torneio ganho e quatro finais perdidas (Milão, Miami, US Open e Umag).

Segue-se 1998. A Danone convida Alex Crivillé e Alfonso. O motociclista, campeão mundial de 125cc em 1989, está à frente de Michael Doohan e Max Biaggi na classificação geral antes do anúncio. Depois é que são elas. No GP Catalunha, a jogar em casa portanto, Crivillé arranca da pole position e tem uma aparatosa queda logo na primeira volta. Nunca mais apanha Doohan. O futebolista, campeão olímpico em 1992, desaparece do mapa com opções erráticas pelo Barcelona e pelo Marselha.

Em 1999, as vítimas chamam-se Gerard e Morientes. Um é do Valencia e só volta a exibir-se com a classe que se lhe reconhece na varanda da sua casa; o outro é avançado do Real Madrid sem lugar no onze graças a seis golos no seu pior ano de sempre.

Fernando Morientes, mais um “amaldiçoado” dos anúncios quando estava no Real Madrid, aqui em ação num particular entre Espanha e Brasil

O fim do milénio proporciona o convite a Pep Guardiola, uma figura incontornável do barcelonismo como capitão de equipa e senhorio do balneário à custa de correcção e boas maneiras. Acontece que o seu ciclo no Barça expira de validade (para o presidente Joan Gaspart) e sai para o Brescia, onde acusa positivo de nandrolona num controlo antidoping. Reclama justiça e demora nove meses a reconquistar a inocência perante os juízes italianos. Corpos Danone é o que dá.

Next. Dois mil e um, Iker Casillas. O melhor guarda-redes do mundo, quiçá de Espanha, é titular. Faz as filmagens e, bang, vai para o banco de suplentes, ultrapassado pelo alemão Bodo Illgner. Em 2002, o histérico/carismático Luis Enrique dá a cara pela Danone e, tumba, é lesões e mais lesões até à retirada oficial. Pausa para comer uns iogurtes e lá vamos nós outra vez, agora em 2006.

Com Ronaldinho, o melhor do mundo. O anúncio é o mais fraterno possível, com o 10 do Barça a trocar bolas impossíveis com o irmão Assis, ex-Sporting e Estrela no seu apartamento em Sitges. Toma lá, dá cá, tau-tau, tau-tau, sem deixar a bola cair. Quem cai é Ronaldinho, que entra num processo de autodestruição, ganha barriga e olheiras, perde ritmo e futebol. Quando a cabeça não tem juízo, a Danone é que paga.

De um lado Messi, craque da Argentina; do outro Robinho, craque do Brasil. Ou ex-craque. Mas nem tudo foi culpa daquele anúncio

Chegamos a 2008. Robinho (brasileiro do Madrid) e Messi (argentino do Barcelona) personificam o clássico espanhol e também sul-americano. A Danone estende o convite às mães dos jogadores. Robinho entra em declínio (Manchester City, Milan, Brasil, enfim…), Messi passa do número 19 para o 10 no Barça com a saída de Ronaldinho – aquele, pá, o amaldiçoado em 2006. A Danone não admite o sucesso imediato de Messi e convoca-o novamente no ano seguinte.

Na sua inocência, Messi comparece no estúdio e até leva consigo David Villa, imagine-se! Messi é campeão europeu e começa a sua epopeia das três Bolas de Ouro consecutivas, Villa é campeão do Mundo pela selecção espanhola com golos decisivos vs Portugal (oitavos) e Paraguai (quartos). A Danone muda de táctica e abdica dos anúncios com desportistas. Que falem mas é de outras lendas urbanas. Sim, sim, claro que sim, o KGB está envolvido no assassinato de JFK. Sim, sim, óbvio, o minuto 92 é o do azar para o Benfica de Jesus em 2013.