1Vinte-vinte está a terminar e todos respiramos de alívio. Talvez nem todos, porque há quem tenha tido bons encontros e boas surpresas neste ano e também conhecemos gente que foi capaz de grandes conquistas pessoais e profissionais em plena pandemia, mas uma esmagadora percentagem de pessoas quer muito que o ano acabe e eu incluo-me nesta maioria.

Felizmente, vinte-vinte não fecha sem haver vacinas e culmina com muitos milhares de homens e mulheres vacinados em diferentes geografias. Esta é, porventura, a maior de todas as conquistas: investigadores do mundo inteiro uniram-se para descobrir a vacina mais eficaz, mais segura e mais rápida. Conseguiram trabalhar, testar e documentar tudo em tempo recorde e isso fica para sempre registado como um feito épico.

Espero pacientemente que chegue a minha vez para me poder vacinar, mas não escondo a alegria que sinto por já ter o meu lugar na fila. Tal como muitos outros, que se interrogam sobre o grau de eficácia e os eventuais efeitos secundários desta vacina, também eu tenho as minhas inquietações e já tive grandes hesitações, mas ainda que algumas perguntas permaneçam sem resposta, confio nos médicos e especialistas que consultei e quero vacinar-me.

Há quem prefira esperar para ver o que acontece e compreendo a prudência, mas estou claramente ao lado dos que avançam porque confiam nos que estudaram, investigaram e chegaram a um cocktail químico que faz com que a Covid não se desenvolva em nós. A vacina não impede o contágio, mas impede a doença. No estado a que o mundo chegou, com a economia profundamente debilitada e incontáveis realidades sociais já doentíssimas, quero manter-me o mais sã possível para poder dar o meu melhor na necessária retoma.

2 O foco atual é a pandemia, mas há outras epidemias que alastram e se tornam potencialmente letais, apesar de passarem completamente despercebidas às autoridades e não serem (ainda) notícia. Uma delas cresce a olhos vistos sem que ninguém pareça preocupar-se: a insegurança rodoviária.

Da noite para o dia passamos a ter em plena estrada, e até nas vias rápidas, miúdos montados em skates, sem capacete, sem refletores, sem observar regras de trânsito e sem absolutamente nada que os proteja a eles e a nós. Falo de jovens de todas as idades que, melhor ou pior, se equilibram nas suas tábuas e avançam com ar imperial pelas ruas e avenidas da cidade.

Já tivemos que lidar com o desgoverno das trotinetas e agora temos que aturar os maduros dos skates. Tanto podem ter 13 ou 14 anos, como podem ser homens feitos, mas todos apresentam um traço comum: a majestade com que se apoderam da estrada desafiando os automobilistas e ignorando as regras de trânsito. Sentem-se os reis do mundo e na verdade são.

Impantes, impedem o fluxo do tráfego, provocam uma lentidão extrema em avenidas e artérias principais, são fonte de múltiplos perigos porque se arriscam a serem atropelados, a morrer ou ficar em cadeira de rodas, mas também nos podem matar a nós, ou deixar-nos com sequelas graves para a vida, e não há uma única figura com poder que mexa um dedo para os impedir de circular na estrada com um brinquedo.

Será que os polícias de trânsito, os agentes de segurança pública e as autoridades camarárias ficaram todos cegos? Se não cegaram, porque é que fecham os olhos?

Desde quando é que o código da estrada se aplica apenas a condutores de ligeiros, pesados e motociclistas? Quem é que declarou que todo e qualquer simplório que tenha uma tábua com quatro rodinhas pode ir andar com ela para a estrada, para o meio dos carros e autocarros? Quem é que inventou esta nova forma de inimputabilidade?

Sim, porque a avaliar pelo gozo de uns, a arrogância de outros e a displicência de muitos skaters que ocupam a estrada, todos sabem que ninguém os trava. Dão-se ao luxo de transgredir porque ninguém os multa, ninguém os para para pedir documentos de identidade e carta, ninguém se preocupa com a idade que têm nem com a precariedade em que viajam e a insegurança que provocam. Ninguém os leva a sério e, por isso, presumo que em caso de acidente também ninguém os considere imputáveis. Quer-me parecer que em situação dramática ou acidente fatal ainda vão ser considerados vítimas.

Hoje escrevo depois de ter observado mais uma cena patética: um radicalzinho a achar-se muito livre e todo-poderoso no seu skate, por rodar gloriosa e lentamente numa paralela à Avenida da República, obrigando todos os carros andar à sua velocidade. Imediatamente atrás dele seguia um carro piquete com letras azuis a dizer “médico de emergência”. Não sei até que ponto a emergência do médico era urgente, só sei que o vi muito impaciente até ao momento em que foi salvo pelo semáforo de uma esquina, onde finalmente pôde virar no sentido contrário ao do desafiador moleque. (claro que o skater não parou, pois porque é que havia de parar num semáforo se a estrada é toda dele e além disso ele não é carro, nem mota, nem autocarro ou camião. Estão a brincar ou quê?)

Será que a ANSR-Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária, que assume ter por missão contribuir para a definição das políticas no domínio do trânsito e da segurança rodoviária, bem como promover o estudo “das causas e fatores intervenientes nos acidentes de trânsito” optou por pôr todos os seus efetivos em teletrabalho, a vigiarem as estradas, as coisas e as causas a partir de casa?

Gostava de perguntar ao Professor Doutor Rui Ribeiro, presidente da ANSR e antigo diretor da Escola Superior de Saúde do Alcoitão, o que é que ele pensa sobre estes potenciais homicidas que atacam nas estradas com brinquedos. Estes que se agacham na sua tábua para ganharem velocidade, desaparecendo da vista e dos retrovisores de quem vai ao volante, para emergirem sem sinais ou aviso prévio, circulando à direita e à esquerda a seu belo prazer, assumindo que a estrada é toda deles e as vias rápidas também.

Sinceramente, e depois de consultar o site da ANSR, gostava de saber como é que o senhor presidente e as suas equipas pensam promover uma “cultura de segurança rodoviária e de boas práticas de condução”, assim como “propor a adoção de medidas que visem o ordenamento e disciplina do trânsito” quando esta fauna das tábuas com rodinhas se multiplica à velocidade da luz por se sentirem reis da estrada. De todas as estradas.

Quanto a “fiscalizar o cumprimento das disposições legais sobre trânsito e segurança rodoviária, assegurando o processamento e a gestão dos autos levantados por infrações ao Código da Estrada e legislação complementar” também pergunto em que categoria fiscalizam miúdos de 13, 14 e 15 anos, que nunca estudaram o Código da Estrada e, por isso, não fazem a menor ideia das infrações que cometem.

Estranho o comportamento das autoridades rodoviárias e camarárias, estranho o seu silêncio, a sua complacência e a sua ausência. A sua paralisia e o seu desinteresse. Mesmo sem quererem, estão a ser cúmplices de comportamentos de elevado risco e nós, cidadãos automobilistas encartados, que fomos obrigados a estudar o Código da Estrada e a provar que conhecemos as regras, que fomos examinados e tivemos que ser aprovados, que esperámos até ter idade, condições físicas e mentais para conduzir na estrada, exigimos que assumam a responsabilidade pelos atos destes inconscientes.

Ou tiram estes miúdos da estrada, ou são cúmplices de todos os acidentes que eles provocarem. Eu não quero morrer por causa de skaters imprudentes e muito menos quero provocar a sua morte. Não quero morrer nem matar e também não quero atirar com um deles para o Alcoitão ou acabar por ir lá parar e fazer-lhe companhia na enfermaria do lado.