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Antes de iniciar a minha crítica, gostaria de deixar claro que não tenho aversão ao moderno ou que não se devam fazer intervenções onde o antigo já não se enquadre. Dito isto, faz-me confusão a forma como o nosso património é rebaixado a um preço de descarte. Irei focar-me no exemplo do meu concelho, Cascais, pois conheço melhor o seu contexto, mas esta crítica não se deve entender restrita a uma só região ou freguesia, pois, infelizmente, encaro-a como um fenómeno nacional.

Quem é apreciador do cariz histórico e cultural do património do seu país (como acontece com a maioria), não fica indiferente à destruição ou ao abandono do mesmo. A beleza de Cascais não se prende somente na paisagem, mas também – e principalmente – na diversidade e riqueza arquitetónica que tão bem caracterizam a vila. Desde Guilherme Gomes a Francisco Vilaça, não esquecendo o incontornável Raul Lino, que tão sabiamente afirmava que não basta não prejudicar a paisagem, há que saber acrescentar ao já existente, máxima muito esquecida nos dias de hoje, a meu ver.

É uma constante: todos os meses, os Cascalenses receberem a notícia de um novo empreendimento de luxo. Neste processo de tornar a vila mais exclusiva, elitista ou premium, existe um fechar de olhos e um esquecimento atroz do parecer dos que aqui vivem. Os habitantes de Cascais têm perdido a voz e o dinheiro é que fala mais alto. A despreocupação com a demolição de antigas casas, quintas, palacetes, zonas verdes, é revoltante. Trata-se de património que é de todos e, uma vez destruído, é irrecuperável. Perde-se história, perdem-se memórias e perde-se identidade.

Importa também falar da qualidade de vida: com o aumento da construção, principalmente em lotes desocupados, vamos ter um aumento da população em zonas históricas e movimentadas. Nesta aceleração do betão, novas vias de circulação não são contempladas. Assim, logicamente, provocar-se-á um aumento do congestionamento. No fim, tanta exclusividade só trará menor qualidade de vida!

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Atualmente, precisaria de mais dedos nas mãos para contar o número de projetos de grande escala a serem desenvolvidos no concelho. A ilusão de progresso deixa-nos a braços com um problema: imaginemos uma torneira que em vez de estar a pingar, está completamente aberta. Esta pressão torna muito difícil os moradores “controlarem” e criticarem devidamente os projetos, dando, assim, maior margem de manobra para os construtores transgredirem com o acordado.

É importante não ter memória curta e relembrar projetos modernistas que foram um autêntico fracasso, como é o conhecido caso do CascaisVilla, ou, por outro lado, monstruosidades que não avançaram graças à voz dos Cascalenses. No meio de tanta construção não deixa de ser curioso como outro imobiliário é esquecido: o antigo e menos lucrativo, que vai apodrecendo com o tempo, é relegado para segundo plano.

Está a ser traçada uma nova vila de Cascais, focada no estrangeiro endinheirado e não nos seus. A antiga vila de pescadores, mas também de reis e príncipes, já não é uma coisa nem outra, o Estoril dos anos 50 e a Cascais das primeiras décadas do século passado já não voltam. Está então nas nossas mãos, Cascalenses, preservar e cuidar do que fez da vila de Cascais uma referência internacional. Colher sem semear trará esterilidade!

Com tudo isto não pretendo atacar este ou aquele. Muito menos ser ingrato com o já realizado trabalho da Câmara na matéria. No entanto, como diz o velho ditado, “quem não sente, não é filho de boa gente”. Por isso apelo a todos os órgãos que têm poder de decisão: sintam mais e não queiram pôr um preço naquilo que não o tem. Cascais é de todos os Cascalenses e todos têm de ter uma voz.