Rádio Observador

Associação Mutualista

Montepio, temos o direito de saber

Autor
163

Com esta administração, seja ela liderada por Tomás Correia ou outro dos seus, o elo de confiança entre as pessoas e a instituição está definitivamente quebrado.

Todos podemos perceber que o negócio bancário exige algumas regras de sigilo, que nem toda a informação pode ser pública e transparente para todos. Mas em função do que se tem vindo a saber da banca portuguesa nos últimos dez anos exige-se muito maior rigor de escrutínio público e democrático.

Estas linhas inicias aplicam-se a todas as instituições e a todos os casos que temos na praça pública, mas cinjamo-nos ao caso do Montepio.

O Montepio é uma instituição sem paralelo em Portugal. É um banco detido por uma Associação Mutualista, originariamente de perfil de investimento conservador e de baixo rendimento (mas certo!), com mais de 600 mil associados. Tanto o banco como a associação mutualista prestam serviços de aforro. O primeiro é regulado pelo Banco de Portugal a segunda está num hiato de regulação – como o Observador noticiou.

Ora aqui temos o primeiro problema para os associados do Montepio. Ao longo dos últimos anos da gestão mutualista de Tomás Correia, os associados foram sendo estimulados a retirar as suas poupanças do Montepio (banco) passando-as para a Associação Mutualista. A sedução fazia-se por um ideal de princípios mutualistas a que acresciam taxas de juro sedutoras. O que os associados mais desatentos não percebiam é que estavam a retirar as suas poupanças da protecção da garantia bancária do BCE/Estado, criando um grupo de potenciais futuros lesados do Montepio.

“Os portugueses podem confiar no Banco Espírito Santo” garantia o Presidente da República Aníbal Cavaco Silva poucos meses antes daquele banco ruir. Se é verdade que já não há governante ou regulador que arrisque pronunciar-se desta forma sobre uma instituição financeira, os seus silêncios têm peso equivalente.

Em plena campanha eleitoral para a Associação Mutualista, Tomás Correia afirmou ter a “certeza absoluta” que as investigações em curso não o impediriam de continuar a desenvolver a sua actividade na associação mutualista. Desde ontem há vários órgãos de comunicação social a noticiar a sua renúncia iminente.

Passados três meses das eleições saiu o resultado da primeira das investigações sobre actos de gestão praticados no Montepio (banco) entre 2008 e 2015. O Banco de Portugal condenou Tomás Correia a pagar 1,25 milhões de euros, aplicou coimas a oito administradores e condenou o Montepio a pagar 3,5 milhões de euros na sequência de um processo de investigação por “irregularidades graves” na administração daquele banco.

As contas do Montepio tremem e noticia-se uma perda acelerada de associados. É óbvio para todos que, em Novembro, os poderes públicos já estariam na posse destas e doutras informações que se elas fossem do conhecimento público inviabilizariam a candidatura da lista comandada por Tomás Correia. Com o seu silêncio permitiram que Tomás Correia fosse construindo a sua reeleição a partir da tese que as investigações resultariam em absolvições e de que era um ataque de instituições concorrentes ao único banco 100% português e (ainda) não intervencionando pelo Estado.

Apesar de, como referi no início, ser compreensível que existam regras apertadas de sigilo para o sector financeiro, exige-se que as entidades reguladoras e o Estado disponibilizem informação relevante, sobretudo, em instituições como esta Associação Mutualista.

Note-se que entendo como vital para a nossa economia e para o equilíbrio das relações financeiras o papel de instituições mutualistas como o Montepio. Não sendo uma solução de cariz pública, ela é uma alternativa essencial ao sistema bancário privado convencional, num país em que não existe banca ética ou em que a banca cooperativa tem pouca expressão na maioria dos sectores económicos. As gestões do Montepio (banco e associação) têm vindo a desvirtuar os princípios mutualistas colocando as duas instituições a competirem ao lado da banca comercial e, tantas vezes, promovendo negócios tão ou mais arriscados.

Hoje não restam grandes dúvidas que se exige uma investigação séria e estruturada ao que se passou no Montepio nos últimos anos e que nenhum dos actuais administradores faz parte de uma solução com futuro. Se se compreende que tudo façam para se agarrar aos lugares garantindo que todos os associados contribuem para o pagamento das multas milionárias e, provavelmente, de todas as despesas judiciais a que estão sujeitos pelos actos de gestão praticados, cada dia em que se atrasa a sua saída representa uma machadada financeira e na credibilidade desta importante instituição.

O principal activo de uma associação mutualista como o Montepio é a confiança. A confiança entre a instituição e as pessoas (associados e potenciais associados). Com esta administração, seja ela liderada por Tomás Correia ou outro dos seus, este elo de confiança está definitivamente quebrado, pelo que urge recuperar a associação com um exigente programa de acção de interesse público e restabelecendo a confiança em torno dos princípios do mutualismo.

Tiago Mota Saraiva é arquitecto e urbanista de profissão. Associado e dirigente de entidades do terceiro sector a actuar em diversas áreas. Associado da Associação Mutualista Montepio

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros de órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)