Não obstante serem cada vez mais os que consideram que a multipolaridade é uma necessidade premente nas relações internacionais, o caos parece ainda estar para durar, pois as ambições políticas dos líderes dos grandes países estão acima dos interesses da humanidade.

Num momento em que os Estados Unidos estão mais e mais mergulhados nos seus assuntos internos, em que o seu Presidente Donald Trump dá provas de não ter uma política externa consistente e de desprezar os seus compromissos com a Europa e outros aliados seus, alguns consideram ser um bom momento para, por exemplo, tentar lembrar as bases da formação de um pólo eurasiático: União Europeia e Rússia, para responder aos desafios lançados por essa política, bem como para fazer frente à concorrência de outros pólos em formação.

Mas não obstante existirem numerosas premissas para isso, além das já mencionadas, a criação de semelhante polo não passa de um sonho por várias razões.

A primeira e principal das razões reside no facto de o Kremlin não aceitar o papel de parceiro igual nesse polo, continuando com pretensões globais na sua política externa. Um dos objectivos centrais da diplomacia soviética e russa no séc. XX e XXI consiste no afastamento dos países europeus em relação aos Estados Unidos, mas, em troca, propõe-lhes uma cooperação onde Moscovo quer desempenhar o papel principal, nomeadamente na determinação das suas zonas de influência no Velho Continente.

Este instinto hegemónico do Kremlin está na base dos erros e crimes cometidos pelo Presidente Vladimir Putin, sendo a anexação da Crimeia e a ocupação de parte do Leste da Ucrânia os momentos mais visíveis dessa política externa.

Por muito que Putin repita que está disponível a contribuir para a solução da situação em torno do Leste da Ucrânia, não dá um passo crucial para isso: a instalação de tropas da ONU em todo o perímetro do conflito, incluindo a fronteira russo-ucraniana na zona em disputa. Ou seja, pretende manter o corredor vital para a sua presença militar e política na região.

Faço aqui um parêntesis para chamar a atenção para uma notícia deveras curiosa. A esposa de Alexandre Zakhartchenko, líder da região separatista pró-russa de Donbass recentemente assassinado à bomba, decidiu pôr-se a salvo nos Estados Unidos. Não será isto mais um indício de que Zakhartchenko não foi vítima dos serviços secretos ucranianos, como se apressou a acusar Moscovo, mas sim de ajuste de contas entre bandos mafiosos ou de uma ordem do Kremlin para se livrar de um dirigente que passou a ser incómodo?

Outro dos obstáculos que dificultam as relações entre a Rússia e a restante Europa reside no facto de Putin considerar que pode fazer o que lhe apetece dentro e fora do seu país. Não obstante a mantra repetida até à exaustão: “nós nada temos a ver com a tentativa de envenenamento de Skrypal”, as investigações realizadas pelas autoridades inglesas e jornalistas, bem como a reacção atabalhoada face aos seus resultados, o triste espectáculo dado pelos alegados criminosos, entre os quais se encontra um “Herói da Rússia”, deixam cada vez menos margem para dúvidas da autoria do crime. Vladimir Putin chamou “traidor” e “canalha” ao antigo espião russo, e está tudo dito.

Ele deve apenas estar furioso com o fracasso dos agentes da GRU, espionagem militar russa, que, mesmo depois de passarem por operações complicadas na Chechénia e na Crimeia, estragaram a “folha de serviços” na Grã-Bretanha.

O apoio do Kremlin às forças políticas extremistas, tanto da extrema esquerda como da extrema-direita – neste sentido, Putin não tem preconceitos políticos e ideológicos -, visa precisamente minar a existência de uma União Europeia forte. O aumento do preço do petróleo nos mercados internacionais irá permitir novos e maiores investimentos russos nesta área.

No entanto, seria absurdo afirmar que Vladimir Putin e a sua corte são os únicos culpados nesta situação. Os dirigentes da União Europeia e dos países membros têm sérias culpas neste processo.

Eles não souberam reagir adequadamente aos processos ocorridos após a queda da União Soviética, desprezando e humilhando a Rússia, colocando-se entre os vencedores absolutos na “guerra fria”.

Os líderes de Bruxelas não souberam atempadamente puxar Moscovo para o seu lado, nem reagir clara e firmemente à política iniciada por Boris Ieltsin e continuada por Vladimir Putin de defender, nomeadamente à força, a sua “zona de influência” no antigo espaço pós-soviético. Os interesses económicos e financeiros da UE foram sempre prioritários em relação a princípios básicos fundamentais como, por exemplo, a inviolabilidade das fonteiras ou a defesa dos direitos humanos.

A actual elite política russa considera, e com razão, que o “dinheiro fala mais alto”. Veja-se, por exemplo, o caso de Gerhard Schröder, antigo chanceler alemão que hoje é funcionário da Gazprom russa. E certamente não é caso único.

Além do mais, e isto é talvez o mais importante, as forças políticas tradicionais na UE não conseguem dar respostas aos anseios dos cidadãos europeus e aos problemas que se apresentam perante a Europa, abrindo caminho a populismos e extremismos de várias cores políticas.  Este perigoso processo vai ao encontro dos planos do Kremlin. Neste sentido, o “Brexit” britânico foi uma prenda para Vladimir Putin feita pelos dirigentes do Reino Unido.

Pelas razões citadas, é difícil que possamos assistir, a curto ou médio prazo, a uma aproximação da Rússia e da UE, mesmo se admitirmos que na direcção russa possam ocorrer sérias mudanças. Se Vladimir Putin sair, e isso é inevitável, não significa que o seu sucessor seja mais aberto ou maleável na relação com a Europa. Bem pelo contrário.

Por outro lado, o Kremlin precisa de sair do isolamento político em que se encontra no campo internacional. Além disso, o reforço dos laços eurasiáticos permitiria à Rússia um reforço de posições nas suas relações com grandes países da Ásia como a China. A aliança estratégica sino-russa, tão apregoada pelos propagandistas russos, continua a não ser um acordo de iguais.