Vá lá, pais! As crianças reconhecem ter uma pitada de mau génio. Mas, também, não há necessidade de se criar alarme social só por elas ficarem fechadas, em casa, ao vosso cuidado. Nem vale a pena que haja tutoriais para se sobreviver à quarentena, na sua companhia. Nem grupos de WhatsApp com muitos pais preocupados a construírem listagens com um sem-número de actividades para as entreter durante t-o-d—o-s os minutos em que elas estão em casa. Nem mails às tantas da noite para as suas professoras pedindo-lhes (muitos) mais trabalhos de casa. Nem esta súbita paixão pelo tele-trabalho que todos lhes querem atribuir como se, de repente, os tablets fossem sempre os seus melhores amigos; mas para estudar o tempo todo, claro.

Vá lá, pais! Não dêem ouvidos aqueles senhores que recomendam que os pais têm de explicar às crianças que não estão em férias! E não aceitem, sob pena do respeito que elas têm por vós ficar adoentado, que eles vos digam que os pais têm de ter regras, rotinas e horários. E têm, ainda, de dividir o tempo dos filhos entre os estudos e o lazer. E têm de ter disciplina, muita disciplina, para com eles! Como se os pais estivessem de “quarentena” o tempo todo. Ou sem “tutoriais” não fossem pais. Ou só estivessem preparados para “part-time de pais”, entre as seis da tarde e as nove da noite. Por mais que esses senhores imaginem que as crianças não distinguem as férias das quarentenas. Ou não entendam que, nas férias, o brilho do olhar dos pais nunca está, também ele, assim, como agora, de “quarentena”.

Vá lá, pais! Não recordem aos vossos filhos que eles têm de trabalhar todos os dias enquanto os pais, mesmo com um computador à sua frente, estão de pijama, o tempo todo. O mais importante para elas não é isso! Do que as crianças precisam, mesmo, de perceber não é tanto se os pais são capazes de as entreter; mas se são capazes de as surpreender! E de lhes mostrar que, em vez das 14 horas por dia em que eles estão a correr para todos os lados, sem ser muito claro se fazem um caminho ou se correm em direcção a sítio nenhum; se em vez de não terem nem sábados nem domingos e de, nas horas vagas, o telemóvel acabar por ter mais espaço na sua atenção do que todas as coisas que os filhos são capazes de fazer; ou se em vez de andarem zangados com os vizinhos, zangados com os colegas, zangados com os avós ou zangados com os filhos; se as crianças e os pais, depois da quarentena, serão capazes de se conhecerem melhor e de se  tornarem (ainda) mais preciosos uns para os outros.

Vá lá, pais! As crianças já perceberam que nem elas nem os pais podem ficar doentes. Porque todos podemos morrer! E reconhecem que não estão preparadas — é verdade! — para nada disto que estamos a viver. E, por mais que adorem os pais, viverem o tempo todo, debaixo do mesmo tecto, onde o melhor do recreio será ir à varanda, assusta-as; a elas, também. Até porque não sabem como irão resistir aos ralhetes dos pais para arrumarem os brinquedos e outras coisas assim, de manhã até à noite. Por mais que não deixem de reconhecer que os pais só as consigam “ver” a rezingar, à bulha ou a virar a sua paciência do avesso. E admitem que, à medida que os dias passem, elas e os pais tão depressa andarão zangados uns com os outros, como tristonhos, enfadados ou com raiva, por exemplo. Por tudo ou por nada, como acontece com todos nós. E estão até, preparadas — é bom que saibam! — para ver os pais a discutir por coisas sem importância. E, ao mesmo tempo, a dizerem-lhes para não estarem preocupadas, “porque não se passa nada”. Mas — vá lá, pais! — dêem às rotinas das crianças só mesmo a importância que elas merecem. E reconheçam que as crianças estão é, sobretudo, muito assustadas. Mesmo muito assustadas! E é por isso que precisam dos pais, com todos os erros de que só eles são capazes. Para as sossegarem! E, acima de tudo, para que elas se sintam seguras. Porque as crianças reconhecem que, apesar dos vírus com que ninguém se entende e das maiores injustiças de que a Natureza é capaz, se os pais não são as criaturas mais perfeitas da Criação eles andam lá muito perto! E isso, sim, só vale a pena!