Depois do choque, por onde começar? Não é fácil. Talvez pela primeira página do Daily Telegraph de hoje. Ilustra bem o que se passou. Um jornal conservador celebrou o triunfo do Brexit com uma fotografia de eleitores trabalhistas a festejarem a vitória do Leave em Sunderland. Estes dois mundos que raramente se encontram, para não dizer que se odeiam, estiveram por um dia lado a lado. Mas a imagem mostra um enorme problema para o futuro do Reino Unido. Esta aliança negativa não será capaz de construir uma agenda positiva. O eleitorado trabalhista votou contra os emigrantes, a globalização e a Europa “neoliberal”. Querem uma Inglaterra mais protecionista e mais socialista. Os conservadores antieuropeus votaram, entre outras coisas, contra o “socialismo de Bruxelas”. Querem o Reino Unido mais aberto à globalização. Nenhum governo será capaz de satisfazer estes dois campos opostos. Depois da vitória de ontem, alguém vai fatalmente perder e sair muito desiludido disto tudo.

Nos próximos três meses, até se concretizar a demissão de Cameron, o Reino Unido estará paralisado politicamente. Cameron já disse que não vai invocar o artigo 50 (para pedir a saída da União Europeia). Deixará essa tarefa para o seu successor. A escolha de um novo líder conservador, num partido completamente dividido, será brutal e deixará marcas negativas. Boris Johnson, o favorito, reforçará as divisões entre os conservadores. O que, dado o seu oportunismo e demagogia durante a campanha, não deverá espantar ninguém. Aliás, foi espantoso assistir a um antigo aluno de Eton e de Oxford fazer campanha contra o “establishment”. O novo líder dos conservadores poderá convocar eleições antecipadas, para evitar a morte lenta que foi fatal para Gordon Brown, um primeiro-ministro não eleito.

A liderança dos trabalhistas também não sai bem do referendo. Grande parte do seu eleitorado votou a favor do Brexit, contra a posição do partido. A contestação contra Corbyn vai certamente aumentar. Além das divisões dos principais partidos, será muito difícil preservar a unidade do Reino Unido. A Escócia irá organizar um novo referendo e ninguém sabe o que irá acontecer com a Irlanda do Norte. Voltar a dividi-la da República da Irlanda será quase como construir uma espécie de “Muro de Berlim” no território irlandês. Há muita incerteza em relação ao futuro do Reino Unido.

Em relação ao futuro da Europa, as dúvidas não serão menores. Entendo o esforço para desdramatizar as consequências do Brexit, mas o que se passou ontem no Reino Unido foi dramático. A União Europeia enfrenta a maior crise da sua história. Não vale a pena ter qualquer ilusão sobre isso. O referendo britânico mostrou que é possível imaginar o futuro de um país europeu fora da União Europeia. Simultaneamente, a União tornou-se mortal. Deixou de ser inevitável. A “bicicleta” de Jacques Delors afinal pode parar e até cair.

Constitui um erro enorme olhar para o Reino Unido como um país diferente de todos os outros países europeus. Os debates políticos, os argumentos contra a “Europa”, a emigração, a globalização, no Reino Unido, são feitos em termos absolutamente europeus. Qualquer europeu de um dos outros 27 países da UE sentia-se familiar com as discussões que marcaram a campanha britânica. Paradoxalmente, o Reino Unido nunca terá sido tão europeu como agora. Simultaneamente, o eurocepticismo, tradicionalmente britânico, emigrou para os outros países europeus.

Será assim possível assistir a outros referendos e a mais saídas da União. Os dois países mais críticos serão a França e a Holanda. Desconfio que muitas coisas vão acontecer nestes dois países nos próximos meses. A fragmentação da União e da zona Euro passou a ser uma ameaça real. Além disso, Nigel Farage, o maior vencedor do referendo, será a partir de agora uma inspiração para muitos políticos noutros países europeus. Quantos Farages irão surgir nos próximos tempos?

Esperemos que os líderes europeus sigam o realismo de Donald Tusk e não tenham tentações para apresentar propostas federalistas para mais integração. Seria a pior das respostas. O federalismo europeu morreu com o Brexit. Se os líderes europeus não entenderem isto, arriscam-se a acabar com a UE. A reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros dos seis países fundadores não me deixa nada sossegado.

Por fim, a próxima semana será decisiva para ver como vão reagir os mercados financeiros à incerteza decorrente do Brexit. Os mercados detestam e ficam muito nervosos com incertezas. Se os mercados reagirem mal, transferindo capital do sul para o norte da Europa, o risco de uma nova crise financeira na zona Euro é real. Além disso, não é seguro que o BCE seja suficiente para impedir o agravamento das finanças dos países mais vulneráveis da zona Euro. Com um sistema bancário no fio da navalha, e com uma economia em crise, Portugal estará na linha da frente de uma nova crise financeira. Se isso acontecer, depois do Brexit, será a manutenção no Euro que estará em causa.