Muito recentemente, Liah Greenfeld publicou um livro breve mas muito interessante: Nationalism: a Short History. A autora, que muito (e muito originalmente) tem escrito sobre o assunto, faz uma viagem pelo nascimento e características de cada nacionalismo e demonstra que há caminhos diversos para a materialização desta ideologia que é particularista de origem, mas não necessariamente exclusivista, como tem sido veiculado desde o ressurgimento deste fenómeno na Europa e nos Estados Unidos.

Há, no entanto, dois elementos comuns a todos os nacionalismos. Estão intimamente relacionados. São a dignidade da nação (sendo a nação o conjunto de indivíduos com identidade comum e sentido de pertença a um determinado território) e o facto de a dignidade da nação se medir em termos comparativos com outras nações – o grau de prestígio internacional. Assim, o nacionalismo não é só matéria ideológica interna. Diz também, e de forma direta, respeito às relações entre os estados. Assim, por um lado, o nacionalismo é um motor de desenvolvimento interno e afirmação internacional; por outro, também é fonte de competição, portanto, um tendencial gerador de conflitos – especialmente quando o estado nacionalista está em fase de emergência no sistema mundial.

O que torna os nacionalismos diferentes uns dos outros é a tipologia. Para Greenfeld há três: o individualista e cívico, que nasceu na Inglaterra e se desenvolveu nos Estados Unidos; o coletivista e cívico, filho da Revolução Francesa; e o coletivista e étnico, oriundo da Rússia dos Czares. Quatro elementos caracterizam este último: (1) É implementado de cima para baixo, ou seja, fabricado pelas elites e disseminando pela população; (2) a nação é una e indivisível, não se pode adquirir nacionalidade, porque esta é conferida por nascimento, mas também não se pode abdicar da mesma; (3) a comunidade é o centro do nacionalismo, sendo que o indivíduo só existe porque é parte do todo comunitário; (4) é um nacionalismo que se alimenta do ressentimento em relação às outras nações e, como consequência, é profundamente competitivo, e mesmo revisionista internacionalmente, quer em termos políticos, quer em termos normativos.

Isto a propósito da comemoração dos 70 anos da Revolução Comunista, que deu origem à República Popular da China. Foi a maior parada militar de sempre – com armamento de muitíssimo respeito pela tecnologia e pelo longo alcance – com as ruas de Pequim cheias de chineses orquestrados em expressão de orgulho por essa mesma dignidade nacional. Se dúvidas houvesse, revisite-se o discurso que Xi Jinping escolheu proferir pela ocasião – tendo em conta audiência interna e externa. Destacam-se três pontos.

Em primeiro lugar, o secretário-geral do Partido Comunista Chinês reforçou a narrativa já inculcada no imaginário da população: um grande povo, uma grande nação, uma grande civilização, que fez um “progresso épico” contra tudo e contra todos. A revolução Maoista foi o primeiro dia do fim de “mais de cem anos de humilhação” a que a China foi sujeita por países estrangeiros. Setenta anos depois, Pequim é uma nação profundamente orgulhosa do seu crescimento e do incremento notável do bem-estar da população. Está estabelecida a dignidade chinesa, que conseguiu irromper – na visão de Xi – independente da vontade de outras nações. E, escusado será dizer, o ressentimento contra aqueles (leia-se o Ocidente e o vizinhos asiáticos aliados) que impediram Pequim de se estabelecer, durante muito tempo, no lugar que é seu por direito.

Em segundo lugar, Xi Jinping discursou sobre o “sonho chinês” – uma espécie de slogan que tem sido veiculado pelas autoridades como qualquer coisa de positivo, ainda que impreciso, e que parece ter grande aceitação entre a população. Visa garantir o bem-estar e aspirações dos chineses “de todas as etnias” e das regiões que gozam de “autonomia” (a China não abdica da união e da política “um estado dois sistemas”), num “caminho socialista” que promete levar a cabo “novos empreendimentos históricos” que encherão o país de orgulho. Aqui estão presentes de forma marcada várias das características do nacionalismo coletivista e étnico: a preponderância da comunidade sobre o indivíduo – é no triunfo de Pequim que reside a felicidade dos chineses; a indivisibilidade da nação, não se escolhe nascer chinês, é uma questão étnica indiscutível; e o planeamento identitário de cima para baixo. Cabe aos líderes orientar a comunidade no sentido da grandeza.

Finalmente, o secretário-geral do PCC promete “dar as mãos a todos os povos do mundo para construir uma comunidade de futuro partilhado com a humanidade”. Aqui, o discurso é para fora. É a proclamação ao mundo que a China vai assumir o seu lugar na liderança do sistema internacional, que está ressentida, por isso está claro contra que estados essa liderança vai ser desenvolvida, e que tenderá a promover uma ordem que se coadune quer com a sua competitividade nacionalista (que não pode contradizer a narrativa criada e disseminada), quer a sua normatividade “socialista com características chinesas”. É difícil antever o resultado final, mas é certo que não será confortável para quem defende as atuais regras de convivência internacional.

Há não muitos anos, fazíamos distinções entre o comportamento das democracias e das autocracias na política internacional. A entrada de rompante do nacionalismo menos cívico e individualista nas sociedades democráticas levou-nos a rever esta díade e a substituí-la por uma análise mais complexa. E uma análise mais fina só pode reforçar a ideia de que as potências e os seus nacionalismos não são todos iguais em comportamentos e objetivos. O que tem consequências para as decisões – e os destinos – de todos os estados do mundo.