Uma ideia ocupa por inteiro a cabeça do jornalismo português, televisivo ou escrito, de uma forma que entra largo dentro do patológico: as eleições presidenciais. Não há propriamente paixões opostas que se combatam umas às outras, como costuma mais ou menos acontecer, nem análises que procurem, com o mínimo de equidistância, ver os dois lados da questão. O que há é uma emoção única, feroz e intransigente, unânime e impositiva, quase sem desalinhamento algum, que se alimenta perpetuamente de si mesma e que não cessa por um instante de projectar na disputa todo o arsenal disponível de razões – se é que o domínio do racional ainda encontra aqui algum espaço para se manifestar – na pessoa dos candidatos, investindo toda a energia psíquica na detestação de um e na atribuição ao outro de virtudes salvíficas. Coisa assim nunca foi vista em tempos da minha vida, apesar de algumas semelhanças com situações passadas, e por mim, se me é permitido, não gostaria de a voltar a ver.

Curiosamente, ou não, as eleições em questão não são as portuguesas, mas as americanas. As presidenciais portuguesas não interessam a ninguém e não suscitam a mais ténue emoção. As personagens que as disputam, ou ameaçam, mais ou menos veladamente, disputá-las, são pálidas figuras de uma peça teatral de que o público se cansou há muito e que só se perpetua porque há que continuar a vida, no meio das desgraças que nos acontecem e que se agravam a cada dia que passa, fingindo alguma normalidade e apreciação pela democracia. As personagens são comediantes tristes e mal pagos, que cedo esgotaram os truques do seu escasso repertório e que já não têm força para sequer um arremedo de graça ou surpresa. O argumento da peça também não brilha pela originalidade ou pelas interrogações que suscita em nós. Isto para não falar dos diálogos, que nem os mais delirantes aficionados conseguem ouvir sem um bocejo cósmico. Já os ouvimos tantas vezes, e tantas vezes repetidos naquele tom de autómatos sem alma ou espírito, mais se assemelhando a sonâmbulos  do que a verdadeiros seres humanos conscientes, que não nos preocupamos com eles, sabendo, de resto, que quem os recita, monocordicamente ou com histrionismo fácil e revisteiro, também em nada se preocupa connosco. Não há réstia de esperança ou de verdadeiro temor neste espectáculo lusitano. Há apenas tédio, um tédio acentuado pelo facto de a distância que separa o espectáculo dos problemas da nossa vida colectiva se ter alargado muito para lá do que, segundo quaisquer critérios, é admissível.

Perante isto, não surpreende que o jornalismo, que precisa da emoção e da novidade, tenha decidido projectar o seu olhar, sem intermitência alguma, para o outro lado do Atlântico. Digo bem: o jornalismo. Porque o comum das pessoas não o acompanha nessa viagem do olhar, que mantém, pela força das circunstâncias, bem preso aos seus problemas quotidianos: os riscos da saúde, a falta de dinheiro, o desemprego, o sentimento de abandono, desamparo e exclusão, a derrelição que se apodera de nós quando nos apercebemos que o soberano já não nos pode garantir qualquer segurança e que se ocupa unicamente a tentar preservar o seu poder, um poder que, a cada dia que passa, mais ilegítimo e espúrio se torna. Como não perceber que, aqui e ali, a populaça abandonada comece a gritar, apesar dos mansos costumes que lhe são tradicionalmente atribuídos? E que, se tivesse o hábito de usar a palavra, chamaria alienação, que é a palavra que convém, àquilo que a chamada comunicação social, que cada vez comunica menos e de social verdadeiramente tem pouco, lhe serve num tom de superioridade moral próprio a pobres diabos empertigados e incapazes de pesar o ridículo valor do seu mobiliário mental? Há um limite de elasticidade para tudo – e para a preservação do corpo social também o há.

Isto, como disse, não tem entretido muito o jornalismo. O que mais o ocupa são interrogações como aquelas que deram o título a um recente artigo de Teresa de Sousa no Público: “Pode a América voltar a ser a América aos olhos do mundo?”. É uma interrogação muito curiosa, que tem pelo menos o mérito de explicitar o fundo a partir do qual é escrito um sem-número de artigos que invariavelmente se repetem uns aos outros, numa sucessão ininterrupta de oposições maniqueístas que se apresentam como irrefutáveis e dispensando esse exercício básico que é o de nos colocarmos no lugar do outro, um exercício que se torna impossível, ou, pelo menos, extraordinariamente improvável, quando o outro se encontra, desde o princípio, na sua pessoa e na dos seus apoiantes, demonizado como agente do Mal. Hillary Clinton não fez outra coisa quando, no passado, se referiu aos “deploráveis”. Há gente que, mais ainda que os Bourbon, na frase célebre de Talleyrand, não aprende nada nem esquece nada. E o Mal é tão mais insidioso quando oposto a uma América largamente idealizada, que até não foi assim tão apaixonadamente amada no passado. Já piso esta terra há sessenta anos e já li uns livros sobre o assunto e se me atrevesse a falar pelos ”olhos do mundo” (coisa que obviamente não me atrevo) chegaria talvez a conclusões diferentes dos idílicos propósitos de Teresa de Sousa.

De qualquer maneira, esta incapacidade de nos colocarmos no lugar do outro – nos sapatos do outro, como se diz em inglês – é, além de pouco cristã, já que se trata de um mandamento dos Evangelhos, terrivelmente ineficaz de um ponto de vista puramente estratégico. Em situações de incerteza e indeterminação, o jogador de xadrez, o diplomata, o general, e, nessa outra guerra que é o amor, os amantes das Ligações perigosas de Choderlos de Laclos, calculam os riscos das suas acções colocando-se no lugar do outro, obedecendo àquilo que Leibniz chamava, num texto magistralmente analisado pelo imensamente saudoso Fernando Gil, o “princípio do pior”: devemos colocar-nos no lugar do outro, nos sapatos do outro, partindo do princípio que as suas acções serão as mais eficazes para nos derrotar. Caso contrário, fatalmente cometeremos erros de apreciação que nos podem custar muito caro.

Dito de outra maneira, o maniqueísmo hoje em dia prevalecente através da diabolização do adversário contém, para além de tudo, um perigo para a defesa da própria posição de quem o sustenta. Mas isso, francamente, é para mim um mal despiciendo. O verdadeiro mal reside na auto-menorização que o sustenta. Colocarmo-nos no lugar do outro é também uma das regras, segundo Kant, para chegarmos a um pensamento adulto e livre. É bom de ver que a impossibilidade de executar essa operação do espírito – condicionada, repito, pela diabolização do adversário e pela consequente e avassaladora paixão da sua detestação – funciona como um obstáculo ao desenvolvimento de um pensamento adulto e autónomo.

O que dói mais, no entanto, é o desprezo a que é votada, à superfície e à profundidade, a nossa própria sociedade, vista como um lugar que não merece qualquer paixão e consideração. A indiferença para com aquilo que acontece no lugar que, para o bem e para o mal, nos calhou como nosso, é exactamente isso: desprezo pelo vasto sofrimento que grassa por aí. Só assim se explica a notória irrelevância, para o comum dos mortais, que sentem na pele tal desprezo, das próximas eleições presidenciais portuguesas. Quem espera alguma coisa? Quem acredita num progresso para o melhor? Quem ousa suspeitar que algo, no nosso elo social, se pode tornar mais sólido e eficaz?

Ninguém. É a única desculpa que encontro para o delirante maniqueísmo do jornalismo dos dias de hoje no que diz respeito às eleições americanas: as nossas exigências passionais têm que encontrar, de uma maneira ou de outra, um objecto de desejo. Se aqui é impossível, ruma-se para longe, para uma América presente que se aspira fazer coincidir com uma América imaginária, fabricada com todas as peças dos nossos sonhos, que, a bem dizer, costumavam ter outros objectos de diferente natureza. De facto, não se aprende nada nem se esquece nada.