PSD

Não é a direita que está em crise, é o regime /premium

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Sem uma direita democrática forte, o reformismo não terá promotores e o regime está condenado a afundar-se com um crescimento económico medíocre e um Estado social sem dinheiro.

Pedro Santana Lopes sai, Pedro Duarte desafia, o presidente da república preocupa-se. É altura de falar desse velho lugar-comum do jornalismo, a “crise do PSD”? Acontece que o problema não é apenas do PSD: é do regime.

É um mito que a direita democrática tenha tido desde sempre grandes dificuldades neste regime. Em 1974, nos primeiros meses da revolução, predominou na presidência da república e no governo. Só a relutância em entregar as populações africanas à ditadura dos partidos armados pela União Soviética – única maneira de acabar a guerra rapidamente – a fez perder o pé. Mas a base popular da direita provou logo a sua força no levantamento anti-comunista do Verão de 1975. Depois de 1976, um novo ambiente intelectual no Ocidente, definido pela rejeição do marxismo e pelo renascimento liberal, ajudou a direita democrática a prevalecer nos debates. Em 1979, a AD foi a primeira força de oposição na história de Portugal a ganhar umas eleições. As esquerdas tiveram de se encostar a um presidente da república, o general Eanes, que não era de todo um homem de esquerda. A direita protagonizou então o projecto de fazer de Portugal um país como os outros países da Europa ocidental. Era o que a maioria dos portugueses desejava, o que explica cinco vitórias nas primeiras sete eleições legislativas, quatro maiorias absolutas (1979, 1980, 1987 e 1991), e a presença ininterrupta do PSD no governo durante 15 anos (1980-1995). Um país de esquerda? Nem por isso.

A história foi diferente a partir do fim do século XX, mas não foi só para o PSD e o CDS. As famílias e os grupos de amigos que ainda hoje dirigem o PS iniciaram então uma política de ocupação do Estado, e de clientelização de todo o tipo de grupos de interesse, fazendo a democracia evoluir para uma espécie de neo-corporativismo. O endividamento permitido pelo euro compensou a insuficiência de uma economia espartilhada por impostos, rendas e burocracias. PSD e CDS viram-se incumbidos dos convenientes intervalos de austeridade deste regime de défice e de dívida. Problema do PSD e do CDS? Sim, mas acima de tudo problema do regime. Não poderá porém o PS reformar? Foi a ilusão que houve com a maioria absoluta de Sócrates. Mas há muito que, por oportunismo, os líderes do PS subscreveram a demagogia comunista de tratar quaisquer reformas como a “destruição do Estado social”. Em 2015, a nova fase do socratismo sem Sócrates chamada “geringonça” agravou a tendência. Talvez o PS possa voltar a fazer parte de uma maioria reformista – como nas revisões constitucionais de 1982 ou 1989. Mas só o fará se a direita for forte, e não se for fraca. Sem uma direita democrática forte, o reformismo não terá promotores e o regime está condenado a afundar-se com um crescimento económico medíocre e um Estado social sem dinheiro.

O que aconteceu no PSD entre 2015 e 2017 é que a maioria dos seus militantes parece ter-se convencido de que precisam urgentemente de voltar ao poder, e que isso só será possível à boleia dos antigos ministros de Sócrates. Foi uma tentação que sempre existiu nos aparelhos partidários da direita: em 1978, levou à ASDI; em 1983, ao Bloco Central. Mas o que está em causa não é apenas a existência de uma alternativa ao PS: é a existência de uma força de pressão reformista no regime. Sem essa pressão, anulada através da submissão do PSD ao PS, resta ao regime, endividado e em divergência da Europa, confiar no BCE e na conjuntura mundial. Mas talvez baste os juros subirem ou a massa dos turistas regressar à Tunísia para, como acontece a cada incêndio florestal com a Protecção Civil, redescobrirmos que as coisas não estão bem. Não esperem uma crise do PSD: esperem uma crise do regime.

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