PSD

Não é a direita que está em crise, é o regime /premium

Autor
487

Sem uma direita democrática forte, o reformismo não terá promotores e o regime está condenado a afundar-se com um crescimento económico medíocre e um Estado social sem dinheiro.

Pedro Santana Lopes sai, Pedro Duarte desafia, o presidente da república preocupa-se. É altura de falar desse velho lugar-comum do jornalismo, a “crise do PSD”? Acontece que o problema não é apenas do PSD: é do regime.

É um mito que a direita democrática tenha tido desde sempre grandes dificuldades neste regime. Em 1974, nos primeiros meses da revolução, predominou na presidência da república e no governo. Só a relutância em entregar as populações africanas à ditadura dos partidos armados pela União Soviética – única maneira de acabar a guerra rapidamente – a fez perder o pé. Mas a base popular da direita provou logo a sua força no levantamento anti-comunista do Verão de 1975. Depois de 1976, um novo ambiente intelectual no Ocidente, definido pela rejeição do marxismo e pelo renascimento liberal, ajudou a direita democrática a prevalecer nos debates. Em 1979, a AD foi a primeira força de oposição na história de Portugal a ganhar umas eleições. As esquerdas tiveram de se encostar a um presidente da república, o general Eanes, que não era de todo um homem de esquerda. A direita protagonizou então o projecto de fazer de Portugal um país como os outros países da Europa ocidental. Era o que a maioria dos portugueses desejava, o que explica cinco vitórias nas primeiras sete eleições legislativas, quatro maiorias absolutas (1979, 1980, 1987 e 1991), e a presença ininterrupta do PSD no governo durante 15 anos (1980-1995). Um país de esquerda? Nem por isso.

A história foi diferente a partir do fim do século XX, mas não foi só para o PSD e o CDS. As famílias e os grupos de amigos que ainda hoje dirigem o PS iniciaram então uma política de ocupação do Estado, e de clientelização de todo o tipo de grupos de interesse, fazendo a democracia evoluir para uma espécie de neo-corporativismo. O endividamento permitido pelo euro compensou a insuficiência de uma economia espartilhada por impostos, rendas e burocracias. PSD e CDS viram-se incumbidos dos convenientes intervalos de austeridade deste regime de défice e de dívida. Problema do PSD e do CDS? Sim, mas acima de tudo problema do regime. Não poderá porém o PS reformar? Foi a ilusão que houve com a maioria absoluta de Sócrates. Mas há muito que, por oportunismo, os líderes do PS subscreveram a demagogia comunista de tratar quaisquer reformas como a “destruição do Estado social”. Em 2015, a nova fase do socratismo sem Sócrates chamada “geringonça” agravou a tendência. Talvez o PS possa voltar a fazer parte de uma maioria reformista – como nas revisões constitucionais de 1982 ou 1989. Mas só o fará se a direita for forte, e não se for fraca. Sem uma direita democrática forte, o reformismo não terá promotores e o regime está condenado a afundar-se com um crescimento económico medíocre e um Estado social sem dinheiro.

O que aconteceu no PSD entre 2015 e 2017 é que a maioria dos seus militantes parece ter-se convencido de que precisam urgentemente de voltar ao poder, e que isso só será possível à boleia dos antigos ministros de Sócrates. Foi uma tentação que sempre existiu nos aparelhos partidários da direita: em 1978, levou à ASDI; em 1983, ao Bloco Central. Mas o que está em causa não é apenas a existência de uma alternativa ao PS: é a existência de uma força de pressão reformista no regime. Sem essa pressão, anulada através da submissão do PSD ao PS, resta ao regime, endividado e em divergência da Europa, confiar no BCE e na conjuntura mundial. Mas talvez baste os juros subirem ou a massa dos turistas regressar à Tunísia para, como acontece a cada incêndio florestal com a Protecção Civil, redescobrirmos que as coisas não estão bem. Não esperem uma crise do PSD: esperem uma crise do regime.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
PSD/CDS

A Direita não é o bem o que se lhe chama

Fernando Leal da Costa

A direita nacional tem falta da extrema-direita, pois assim não tem um comparador extremo, à sua direita, que lhe permita conquistar o centro. A extrema-direita, se existisse, recentraria a direita.

António Costa

Nem 1% de verdade /premium

Alexandre Homem Cristo

O governo tem uma relação de indiferença para com a verdade, dizendo o que em cada momento convém dizer e atrevendo-se até a lançar números falsos se isso, na ocasião, lhe valer elogios e manchetes.

Política Externa

O Imperador vai nu /premium

Diana Soller

A situação geográfica de Portugal coloca-o numa posição estratégica privilegiada para os interesses das grandes potências. Pelo que o Estado terá que tomar decisões muito sérias quanto ao nosso futuro

Educação

Mais vale acabar

João Pires da Cruz

Damos atenção aos direitos de todos menos aos daqueles que são mais preciosos, os nossos filhos. Gastamos dinheiro em tudo, menos no que é impossível substituir, o tempo das nossas crianças aprenderem

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)