Democracia

Não é cool ser contra o 25

Autor
450

Na música parece ser impossível ser de Direita e gostar de Sérgio Godinho. Pois eu gosto. Parece impossível gostar da “Vida de Bryan” e ser católico. Pois eu sou e esse filme é um dos da minha vida.

Uma das consequências, da estratégia da esquerda de colar a Direita ao Estado Novo, foi a de reclamar para si a exclusividade da satisfação pelo 25 de Abril. Nada há, de mais errado.

Obviamente que, como conservador, teria preferido uma mudança suave e evolutiva do regime, em vez de algo radical. No entanto sempre atribuí ao Governo de Marcello Caetano a responsabilidade primeira de não ter conseguido efectuar essa mudança.

Durante o meu serviço militar – 1986-87 – em Cavalaria, tive a honra de estar às ordens do Governador Militar de Lisboa, à época um General de Cavalaria. Esse General foi um herói na nossa Guerra Colonial, tendo feito parte da elite militar que Spínola chamou para junto de si, na Guiné.

Este General foi preso na sequência do 11 de Março de 1975. Não obstante este facto, quando eu lhe disse qualquer coisa relacionada com o 25 de Abril, ele trovejou na sua voz de cabo de guerra: Ferreira! Eu também sou um Homem de Abril! O que não sou é do 26 do 27 e por aí a fora, até ao 25 de Novembro. Lembro que este General era, à época do 25 de Abril, Tenente-Coronel e, portanto, não foi daqueles que se juntaram ao movimento por questões de rancho.

Percebi aí a armadilha que a esquerda nos tinha colocado. Ser de Direita era ser a favor do Estado Novo, da censura, da resolução da guerra por meios militares, dos presos políticos, da tortura. Ora, não somos. Sei que é errado olhar para o passado com os preconceitos de hoje, mas a verdade é que existiam situações antes de Abril que são erradas em qualquer época ou lugar.

Mas já é tempo para que a esquerda comece a usar os termos correctos do ponto de vista científico. Portugal não era um Estado fascista. A formulação de “Deus, Pátria e Família” é o contrário de qualquer estado fascista. Salazar, aliás, correu com fascistas, monárquicos, republicanos, socialistas e comunistas (os últimos com mais violência, é certo) e com todos aqueles que atrapalhassem a sua visão de homem providencial (que se esquecem sempre do pequeno pormenor da lei da vida…).

Também convém corrigir que a 25 de Abril não existiu nem uma Revolução, nem um Golpe de Estado. Existiu a deposição de um Governo, por forças militares.

Mas esta armadilha estendeu-se a outros níveis. Na música parece ser impossível ser de Direita e gostar de Sérgio Godinho. Pois eu gosto. Parece impossível gostar da “Vida de Bryan” e ser católico. Pois eu sou e esse filme é um dos da minha vida. Parece ser proibido ser conservador e gostar do Gato Fedorento ou de Ricardo Araújo Pereira. Pois farto-me de rir e acho o seu humor inteligente.

Está, pois, na altura, da Direita dizer a uns quantos – que nem eram nascidos em 1974 – que já não é cool dizer-se que se é contra o 25 de Abril. Que os males que aconteceram ao nosso País, decorrentes principalmente do 11 de Março — perpetrado por traidores do 25 de Abril –, já tiveram mais do que tempo para serem corrigidos. Que atacar o passado é apenas uma forma de desculpabilizar o presente e de desistir de lutar por um futuro melhor.

Deixemo-nos, pois, de partes, e vamos todos ao que interessa. E o que interessa passa por tirar do Governo da Nação partidos que não gostaram de Abril no seu estado puro, que o quiseram controlar e alterar, e que, com a maior falta de vergonha, reclamam-no como sendo seu.

Conselheiro Nacional do CDS-PP

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Política

O Povo é sempre o mesmo

Pedro Barros Ferreira
228

Trump e Bolsonaro não apareceram de gestação expontânea, antes pela sementeira criada pelos partidos e políticos que nada fazem, mas que dizem que tudo deve mudar para que, afinal, tudo fique na mesma

Política

Ser de Direita

Pedro Barros Ferreira
134

A pergunta que se pode fazer é quem é que não tem lugar nesta direita. Quem não tem são os reaccionários que querem voltar atrás no tempo, por exemplo, que acham que o sexo só serve para reprodução.

PAN

Viva o Dragão-de-Komodo!

Pedro Barros Ferreira
203

Partidos como o PAN e, também, o Bloco, vão inventando variações cada vez mais disparatadas sobre as microcausas que os fizeram nascer e ganhar votos. Esse é o problema: até onde irá a falta de senso?

Democracia

O custo da não-participação

Vicente Ferreira da Silva
140

Manter a liberdade e/ou a democracia é mais difícil do que a conquistar. Fará diferença, para quem não participa, viver em democracia ou em ditadura?

Democracia

Votos para 2019: Conversação civilizada /premium

João Carlos Espada

Os meus votos para 2019 são de re-descoberta das boas tradições demo-liberais fundadas na perpétua conversação civilizada entre perspectivas rivais, a “corrente de ouro” de que falava Churchill.

Crónica

Falsas notícias e nobres mentiras /premium

Paulo Tunhas

Mentir é necessário para preservar a identidade cívica, a mentira é uma droga que deve sempre ser administrada aos governados para o seu próprio benefício – uma droga útil, porque conducente à virtude

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)