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Crónica

Não estamos aqui para nos divertir

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‘Não estamos aqui para nos divertir", disse o rei. Saberia ele que a noção de que tudo depende das nossas escolhas é uma fantasia de gente que espera de si própria o que não pode razoavelmente fazer?

‘Não estamos,’ terá observado o monarca na noite de núpcias, ‘aqui para nos divertir.’ A frase indica várias teorias. Entre estas estão a teoria segundo a qual o propósito do nosso trânsito sublunar não é principalmente de entretenimento; e a teoria de que a vida não consiste em proporcionar alívio para o aborrecimento de nos acontecer estar vivos; ou de nos proporcionar uma relação correcta com as nossas vidas.

As teorias do rei são todavia muito minoritárias. A opinião generalizada é a de que a finalidade principal do bulício das nossas células é tornar suportável o bulício das nossas células. As palavras do poeta romano segundo as quais o que é preciso é colher o dia parecem uma boa ideia a quase todos. A expressão naturalmente poética convida a aproveitar as oportunidades antes que passem. É usada para recomendar formas de acção política e estratégias de investimento; e ainda mais para justificar que se exerça franqueza, se cultive inocência, e se saia à noite. Desde a Roma antiga que a maior alegria de quem colhe o dia são os saldos.

Aos saldos chamam porém os espanhóis rebaixas; e o verbo que o poeta romano tinha usado para fazer a sua recomendação é o antepassado arreliador do verbo português ‘carpir.’ Estará quem aconselha a que se colha o dia, com a sua sugestão de peras e cerejas, também a lamentar o declínio daquilo que é colhido? Andará a expressão moral da alegria secretamente de braço dado com actividade da carpideira? Isso explicaria o hábito que os poetas portugueses têm de rimar ‘dia’ com ‘melancolia;’ e que estejam sempre ansiosos por nos lembrar que as peras e as cerejas começam a apodrecer no momento em que chegam à fruteira; e que a fruta velha seja tão barata. No meio dos seus afazeres não lhes passou desapercebida uma certa tristeza cómica nas recomendações compulsivas de alegria. Como alternativa recomendam em geral a tristeza.

Quanto ao rei propriamente dito, não é nem poeta romano, nem consumidor espanhol, nem poeta português. Não sente necessidade de se entreter nem de se divertir. A sua noite de núpcias será comprovadamente monótona; mas pelo menos não faz recomendações. A sabedoria profissional convenceu-o de que a ideia de colher o dia não é como a ideia de apanhar fruta. É mais como a situação de uma tartaruga que considerasse a possibilidade de várias carapaças. Saberá o rei também que a noção de que tudo depende das nossas escolhas é uma fantasia de gente que espera de si própria o que não pode razoavelmente fazer? Talvez nem precise. A sua sabedoria profissional é muito mais simples: visto que já estamos vivos, não podemos escolher ter uma relação com a vida. Não precisamos de entretenimento; não estamos aqui para nos divertir.

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