1 O actual estado das coisas no mundo mostrou, uma vez mais, que não existem democracias definitivas, por muito sólidas que possam parecer, e que políticos com tiques ditatoriais, narcisistas e paranóicos podem deitar tudo a perder em poucos dias ou, até, horas.

Quando assistia às cenas violentas de assalto ao Capitólio de Washington, vieram-me à cabeça cenas semelhantes às da tomada do Palácio de Inverno de São Petersburgo, em 1917, pelos bolcheviques (comunistas), brilhantemente recriadas, embora fugindo à verdade, pelo realizador russo Serguei Eisenstein.

Vieram-me também à cabeça cenas de filmes de Hollywood baseados nalgumas teorias da conspiração. Todavia, rapidamente compreendi que não se tratavam de imagens encenadas, mas bem reais, com vândalos a sério e com polícias incapazes, ou talvez com pouca vontade, de travar o passo aos manifestantes num dos mais bem guardados edifícios do mundo, com mortos e feridos.

Cabe às autoridades competentes apurar responsabilidades, mas já é mais do que evidente que foi Donald Trump, presidente cessante dos Estados Unidos, que, não querendo sair da Casa Branca, acendeu o rastilho da violência. As suas declarações histéricas pouco diferem das de dirigentes como Maduro.

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Estamos a falar do ainda dirigente do mais poderoso país do mundo, do detentor do “botão vermelho” de armas nucleares capazes de destruir completamente o nosso planeta. Até parece que já nos esquecemos dos calafrios e receios provocados pela queda da União Soviética e pelo destino dos seus armamentos estratégicos. Podem dizer-nos que são situações diferentes, mas o facto é que as armas nucleares têm efeito igual se forem utilizadas e o que na terça-feira parecia ser impossível tornou-se realidade no dia seguinte.

Não deixa de ser igualmente preocupante, o facto de Trump ter um forte apoio no seio da sociedade americana. Joe Biden venceu de forma clara as presidenciais, mas tem gigantescas tarefas pela frente. Não falo só da pandemia e da crise económica, mas da previsível resistência e luta que Trump e os seus apoiantes irão dar para reconquistarem a Casa Branca dentro de quatro anos.

Neste sentido, os últimos acontecimentos nos Estados Unidos são um enorme presente a dirigentes como Vladimir Putin e Xi Jinping, respectivamente, presidentes da Rússia e da China.  Tanto um, como o outro podem continuar e até reforçar as suas políticas internas repressivas e as suas diplomacias expansionistas.

E, claro, não se pode ignorar a necessidade de, numa situação destas, a União Europeia reforçar a sua coesão e prestar redobrada atenção à sua política militar e de segurança. A instabilidade política nos Estados Unidos não irá poupar a Aliança Atlântica.

2 Tudo isto coincide com a presidência europeia de Portugal, país cada vez mais desgovernado e desorientado por políticos incompetentes, alguns dos quais agarrados ao poder como as lapas coladas aos rochedos.

Por exemplo, o populismo criminoso na luta contra a Covid-19 e a situação nos lares de idosos. Todos os especialistas na matéria defendiam que o alívio das medidas de luta contra a Covid-19 na época de Natal e Ano Novo iria provocar um autêntico disparo do número de infectados, o que está a provocar o colapso do Serviço Nacional de Saúde. Os dirigentes socialistas e o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa não quiseram fazer figura de maus e os resultados desta política estão à vista. Quem irá responder pelo aumento de mortes de Covid-19 e pela falta de assistência médica no caso de outras patologias?

A situação nos lares de idosos é gritante e confirmou-se uma situação que já não era segredo para ninguém: muitos dos nossos idosos vivem em centenas ou até milhares de lares ilegais. Será que as autarquias, os serviços sociais, os bombeiros e a polícia não tinham conhecimento disso? Não se trata de esconder uma agulha num palheiro, mas de dezenas de pessoas numa casa.

Espero não ter razão, mas tudo isto tresanda a compadrio e corrupção. Alguém irá responder pela morte dos idosos?

Há outros exemplos de incompetência e falta de transparência, de todos conhecidos. Num país democrático normal, ministros como o da Administração Interna ou da Justiça já teriam sido demitidos, mas, em Portugal, estão de pedra e cal nos seus cargos. Mente-se, falsificam-se currículos como se isso fossem apenas “pequenos descuidos”.

Depois não fiquem surpreendidos se André Ventura aumentar significativamente a sua base eleitoral nas próximas presidenciais. O aparecimento de políticos extremistas, seja de direita ou de esquerda, é como a febre, que indica que o organismo humano está com problemas. Se ela aumenta, é sinal que o doente ou não está a ser tratado, ou está a ser tratado de forma errada. E o delírio febril, leia-se o desespero, é o terreno mais fértil para políticos como Ventura, Trump ou Bolsonaro.

Será que os nossos governantes ainda não compreenderam isso? Será que os políticos fizeram gazeta às aulas de História na escola e na universidade e não estudaram, por exemplo, o que se passou no mundo entre as duas grandes guerras mundiais?

Devem ter estudado, mas a sede de poder parece fazer esquecer tudo e perder sentidos como o olfato, a visão ou a audição. Não sentem o cheiro nauseabundo da corrupção, não veem o que se passa à sua volta e não ouvem os cidadãos.

Portugal não teve já, também, o edifício do Parlamento cercado?