Quanto a Portugal não sei, mas eu assisti incrédulo ao modo como Costa expulsou Sócrates do PS. Numa viragem de 180 graus, o líder do PS, e os seus adjuntos mais próximos, condenaram o antigo PM socialista, antes do início do julgamento. O PS disse de Sócrates o que nenhum outro partido tinha dito até hoje. Raramente, na política nacional, se tinha assistido a um tal exercício de poder implacável e cínico.

Como é óbvio ninguém acredita que depois de tantos anos sem mostrarem um pingo de pudor, César e Galamba tivessem, de repente, descoberto o sentimento da vergonha. Irá César também mostrar vergonha pelo modo como manipula os regulamentos da Assembleia da República para esticar ao máximo o seu ordenado mensal? E será necessário recordar a um socialista, mesmo que seja um desenvergonhado, que a ética republicana não é o mesmo que a legalidade? Irá Galamba mostrar vergonha e arrependimento pelos seus almoços grátis, pagos por Sócrates, com dinheiro ganho através de comportamentos que pelos vistos “envergonham” o jovem socialista? O modo como estes antigos amigos de Sócrates descobriram, subitamente, a vergonha depois de tantos anos sem sentir qualquer incómodo com a herança do governo de Sócrates mostra que são uns grandes desenvergonhados. E que não sentem um pingo de vergonha por brincarem com os portugueses.

O que se assistiu nos últimos dias foi à consolidação do poder de Costa no PS, contra o seu grande rival, Sócrates. Vale a pena recordar rapidamente a história das rivalidades e alianças socialistas. Quando Guterres abandonou a liderança do PS, em 2001, deixou três possíveis sucessores: Sócrates, Seguro e Costa. Com o apoio de Costa, e afastando Seguro, Sócrates chegou à liderança do PS em 2004. Mas, na primeira oportunidade que teve, em 2007, Costa afastou-se para conquistar o seu espaço político, com a candidatura à Câmara de Lisboa. Depois da derrota de Sócrates, em 2011, chegou a vez de Seguro ocupar a liderança do PS. Mas, em 2014, quando Costa derrotou Seguro, reconstruiu-se a aliança entre o actual PM e Sócrates. O antigo PM socialista apoiou Costa na disputa interna contra Seguro. No essencial, a aliança entre Sócrates e Costa durou cerca de uma década.

O modo como Costa de distanciou rapidamente de Sócrates quando este foi preso mostrou, primeiro, que o PM desconfiava do comportamento de Sócrates e, depois, que deveria afastar o PS da herança socrática. Começou a fazê-lo no dia em Sócrates viajou para Évora. Entretanto formou a geringonça, tornou-se PM, lidera as sondagens e foi consolidando o seu poder no interior do PS. Chegou agora o momento em que Costa considerou que já teria o poder suficiente para matar politicamente Sócrates. Assim o fez. O próximo Congresso será o da consagração do seu poder absoluto no PS.

A investigação ao antigo ministro Manuel Pinho terá acelerado a estratégia de Costa. Como escrevi aqui no Observador há duas semanas, os indícios contra Pinho transformaram o ‘problema Sócrates’ no ‘problema do governo socialista de Sócrates‘. Para Costa, há uma grande diferença. No Congresso, Costa terá que dizer aos portugueses que o seu PS não é o PS de Sócrates. Só assim poderá aspirar à maioria absoluta em 2019. O assassinato político de Sócrates por parte de Costa é um sinal muito forte de que o PS acredita que pode chegar à maioria absoluta.

No meio desta história, há um ponto importante. Costa precisou de quase quatro anos para afastar Sócrates, mesmo com este a enfrentar problemas judiciais graves. Este longo período, quatro anos, é a medida do poder que Sócrates tinha no PS. O “animal feroz” está muito enfraquecido, mas terá o seu poder desaparecido? Sócrates não morre sem lutar e vai certamente para o combate. Se Costa tudo fará, como se viu, para chegar à maioria absoluta, Sócrates tudo fará para o evitar. A única maioria absoluta da história do PS é o capital político que resta a Sócrates. Terá ainda poder para prejudicar Costa? Esta questão será muito importante para o próximo ano da vida política portuguesa.

Além da guerra com Sócrates, há outro risco para Costa. Com o ataque ao antigo PM socialista, Costa terá começado um novo capítulo na história do seu partido, mas é impossível saber como tudo isto irá acabar. Conseguirá Costa convencer os portugueses que o seu PS é mesmo diferente do “PS de Sócrates”? Há demasiados elementos em comum entre os “dois partidos socialistas”. Costa foi o número dois de Sócrates. Alguns dos principais ministros de Costa foram igualmente elementos centrais nos governos de Sócrates. Não será fácil demonstrar que o PS é um novo partido.

Por mim, acho que é necessário ser imune à vergonha para convencer os portugueses que o PS mudou radicalmente. Mas também reconheço que é a melhor estratégia para Costa conquistar a maioria absoluta. A ousadia de Costa será um teste aos portugueses. Sentem vergonha por terem dado uma maioria absoluta ao PS em 2005?