Política

Não há nenhum trauma com a direita

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Façam lá o que entenderem com o PSD, mas saibam que não só há direita por cá como há um magote de gente pouco ideológica que vota sem nenhum problema num partido de direita se o líder for convincente

Já pensei várias vezes escrever esta crónica. Mas já escrevi estes argumentos, ou partes deles, tantas vezes em tantos fóruns, incluindo blogues, e já azucrinei os ouvidos de tantas boas almas com a mesma lista, que quase parecia batota estar quase a fazer um copy paste aqui para o jornal. Mas hoje tem de ser.

Um cidadão distraído (ou, vá, picuinhas nas matérias de Ciência Política) nos últimos tempos foi informado que o PSD se tornou um partido retinto e infame de direita. Ah, e neoliberal, muito neoliberal. O mesmo cidadão, depois de se engasgar por haver ignaros que consideram que ‘enormes aumentos de impostos’ e cortes de subsídios de Natal e sobretaxas do IRS são medidas de cariz liberal (só uma pista bem intencionada: são medidas estatistas e anti liberais), fica a saber também que é um crime de lesa pátria haver um PSD de direita. Afinal se isto continuar para onde vão os socialistas todos do PSD que por azar dos Távoras (e nosso) se enganaram e não se filiaram no PS?

Claro que o cidadão na posse de dois neurónios se recorda que a acusação de Manuela Ferreira Leite ter acantonado o PSD demasiado à direita esteve muito em voga em 2009, incluindo por destacados passistas. Qualquer pessoa não distraída sabe que um dos insultos preferidos dos militantes do PSD é ‘és de direita’. Dizer a alguém ‘seu neoliberal’ vem mesmo antes de lhe atirar a luva à cara e combinar armas e padrinhos para o dia seguinte.

Se o leitor, habituado a países com clivagens ideológicas normais, não me acompanha, eu explico: o PSD não pode ser de direita porque não há pessoas de direita em Portugal. Dizem os tais militantes socialistas do PSD e as redações dos órgãos de comunicação social, e comentadores derivados, que julgam que o BE salvará a Via Láctea. Com audiências e receitas decrescentes, refira-se, porque também mingua o público que com eles concorda.

Bom, façam lá o que entenderem com o PSD, mas convém esclarecer que não só há direita por cá como há um magote de gente pouco ideológica que vota sem qualquer problema num partido de direita se o líder (que é o que tem faltado) for estruturado, convincente e não deixar de lado a preocupação com os mais pobres. Apresento alguns factos abonatórios da minha tese.

Sempre que a esquerda usou a carta do fascista ou do ‘neoliberal’ ou até do direitista em eleições, perdeu. Em 2001 com Vasco Lourenço, que supôs que insultar de fascista o opositor convencia alguém a votar em João Soares – ganhou Santana Lopes. Nas eleições presidenciais de 2006, em que Soares julgava insultar Cavaco garantindo que na Europa ninguém via Cavaco como sendo de esquerda ou centro-esquerda – Soares foi humilhado. Em 2011, o insulto de ‘neoliberal’ foi repetido vezes sem conta para atacar tanto PSD como CDS – juntos, tiveram mais de 50% dos votos, muito além de uma mera maioria absoluta parlamentar. Em 2015, depois de todos os sacrifícios do período de ajustamento, e também dos muitos erros da coligação, debaixo novamente de chuvas intensas de supostos insultos de neoliberalismo, a coligação ganhou as eleições e o PSD elegeu mais deputados que o PS.

Donde: o eleitorado português está-se marimbando para acusações de direitismo e neoliberalismo. É certo que não somos um povo que ama excessivamente a liberdade (como, de resto, se vê pela complacência com a geringonça) e aceitamos-lhe de bom grado atropelos. Mas, por outro lado, não há nenhum trauma em votar à direita, e menos ainda nas populações que, como eu, sempre viveram em democracia. Em boa verdade, a minha geração, que viu na adolescência a queda do muro de Berlim e a derrocada do inferno soviético, e se recorda da exposição dos esplendores económicos comunistas, é muito mais avessa a derivas esquerdistas radicais que a qualquer direita soft europeia.

De resto a votação das últimas autárquicas em Lisboa devia fazer soar umas campainhas a quem ainda tiver capacidade auditiva para ouvir os tlim-tlim. No eleitorado lisboeta, mais rico, exigente e educado que a média nacional, não houve qualquer pejo em trocar uma candidata do PSD, que quase não saiu dos bairros sociais, pela candidata mais à direita do CDS (que também foi a bairros sociais e tinha discurso social mas cujo programa foi muito além destes enclaves). Não é a primeira vez que tal acontece. Em 2011, a boa votação do CDS em Lisboa deveu-se ao crescimento nas secções de votos dos eleitores mais novos.

Como Carlos Guimarães Pinto escrevia há tempos no twitter, a receita de maior rendimento disponível conjugada com menos serviços públicos (as tais cativações e as trinta e cinco horas semanais, com a consequente poupança nos equipamentos e nos tempos de serviço às populações), que tem tido aprovação popular, é uma medida de cariz liberal. Basta explicar isto mesmo, digo eu.

Quanto ao PSD: partido socialista por partido socialista, os eleitores escolhem sempre o original. As pessoas preferem os produtos que percebem o que são.

Nota final. Ontem na estação de barcos da Soflusa no Barreiro, perante a falta de travessias do Tejo, houve altercações. Uma amiga colocou no Facebook fotos de militares com cães. Num momento twilight zone, a empresa pública terminou o dia sugerindo às populações que não usassem os barcos nas horas de ponta. O socialismo e as empresas públicas são assim: barcos parados por falta de arranjo, má gestão e já a mulher de Mao Zedong dizia que preferia os comboios atrasados comunistas aos comboios pontuais capitalistas.

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