António Costa

Não há uma maioria de esquerda para governar

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Cavaco Silva deverá exigir aos partidos de esquerda um acordo escrito que respeite o Tratado Orçamental. O PCP (a provavelmente o BE) não pode assinar tal documento. Seria negar tudo em que acredita.

Costuma dizer-se que é possível mentir a poucas pessoas durante muito tempo e a muitas pessoas durante pouco tempo; mas é impossível mentir a muitos durante muito tempo. António Costa já mentiu a poucos durante muito tempo (quando prometeu a maioria absoluta aos militantes do PS); está a mentir a muitos (a todos os portugueses) desde as eleições. Mas o tempo está a esgotar-se. A escassez de tempo disponível para mentir a muitos explica, de resto, os ataques do PE e do BE a Cavaco Silva por, como dizem, “perder tempo” por respeitar a regras da democracia e da Constituição (em relação ao respeito pelo texto constitucional, as posições das esquerdas também são selectivas).

Costa começou por dizer que iria formar uma maioria “positiva” (ou seja, uma maioria com programa de governo) com o BE e com o PCP. Mas já se percebeu que o PCP nunca concordará com um programa de governo que respeite os compromissos com a União Europeia. A defesa da nacionalização da banca – afirmada por Jerónimo de Sousa em directo na televisão – violaria as regras da União Bancária e nunca seria permitida pelo BCE (com autoridade sobre todos os maiores bancos portugueses). Eis um bom exemplo das virtudes da integração europeia para o nosso país.

O líder do PCP também disse que o seu partido nunca respeitará o Tratado Orçamental. O que significa que nunca aceitará um programa de governo para Portugal. Se a queda do Muro de Berlim e o colapso da União Soviética não mudaram o PCP, alguém acreditaria que seria Costa a fazê-lo? E será que Costa julga que os portugueses ainda acreditam no que diz?

Com o PCP de fora, resta assim um possível acordo entre o PS e o BE; o que ainda está longe de estar concluído. E mais uma vez os compromissos europeus são o principal obstáculo. Ou o BE deixa de ser o BE, ou então jamais concordará com as medidas necessárias para se cumprir o Tratado Orçamental. Aliás, no Parlamento Europeu o BE votou ao lado do PCP contra o Tratado Orçamental. Muita gente já se terá esquecido, mas o BE também é um partido comunista. O Parlamento Europeu conseguiu juntar o que o movimento comunista do século XX separou, estalinistas com marxistas-leninistas. As seitas são diferentes, mas a “religião” é a mesma. A estratégia da UPD de ter colocado caras bonitas e simpáticas a fazer campanha não altera em nada a natureza ideológica do BE. Mas uma aliança entre o PS e o BE não serve para nada. Têm menos deputados do que o PSD e o CDS.

A vontade de derrubar o governo do PSD e do CDS é o único ponto que existe de comum entre os três partidos de esquerda. Nada mais. Ou seja, as esquerdas querem substituir um governo minoritário por outro governo minoritário do PS, com um acordo vago com o BE, cuja sobrevivência ficaria inteiramente dependente do PCP. Um país da zona Euro ficaria nas mãos de um partido que nunca se distanciou do totalitarismo soviético e que apoia governos como os da Venezuela e da Coreia do Norte. Como me disse um amigo grego, “nem ao Syriza passou pela cabeça fazer um acordo com o partido comunista grego” (igual ao português). Em suma, Costa oferece a Portugal uma “maioria negativa suicidária.”

Cavaco Silva deverá exigir aos partidos de esquerda um acordo escrito que respeite o Tratado Orçamental. O PCP (a provavelmente o BE) não pode assinar tal documento. Seria negar tudo em que acredita. Mas mais importante, seria negar a estratégia política do partido para o futuro: o PCP aposta na saída de Portugal do Euro a médio, longo prazo. O Presidente está a cumprir o seu dever. As suas exigências em relação a uma acordo entre os partidos de esquerda significam a defesa de Portugal no Euro. Nem mais nem menos. Mais do que a sua obrigação, as suas convicções europeístas e a história portuguesa dos últimos trinta anos exigem um acordo pró-Europa à esquerda. Por que carga de água, o Presidente deveria dar posse a um governo minoritário (do PS) dependente do apoio parlamentar de dois partidos anti-Euro, quando as questões centrais da política nacional continuam a ser a consolidação orçamental e as reformas económicas para se cumprir as regras da zona Euro?

Sem qualquer maioria absoluta (nem entre o PSD e o CDS, nem à esquerda), sem a possibilidade de eleições imediatas, o país caminha para um longo impasse e uma longa crise. Só há uma maneira de resolver o problema. Se no dia 10 de Novembro, um número suficiente de deputados do PS permitir que o actual governo continue em funções. Nesse dia, estará em causa a natureza da nossa democracia e a identidade pró-europeia do PS. Muitos dos defensores de uma coligação de esquerda andam a dizer que as eleições são para o Parlamento e não para PM (em 2005, disseram o oposto). Nesse caso, os deputados respondem perante os portugueses. Não se podem limitar a receber ordens dos líderes partidários. Nesse dia, os deputados do PS devem responder a duas questões antes de votaram. Querem aqueles que me elegeram para o Parlamento que o PS se alie a partidos comunistas que apostam na saída de Portugal do Euro? Deverei votar a favor de uma coligação política que atraiçoa a história do PS? Se ignorarem estas questões e votarem com a extrema esquerda anti-europeia, ficarão na história pelas piores razões.

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