Vamos imaginar que uma pessoa civilizada e educada, que viveu no século XIX, regressaria ao mundo no início do século XXI, e iria um dia de Verão a uma praia na Costa portuguesa. Imaginem, por exemplo, Eça de Queiroz na Costa da Caparica ou em Carcavelos num dia de Agosto. Estou absolutamente convencido que ele ficaria espantado e muito confuso. Milhares de pessoas semi-nuas, deitadas ao sol, numa indulgência preguiçosa durante horas e horas sem fim. Mais, estou seguro que o nosso querido Eça julgaria que a humanidade teria enlouquecido.

Pensei nisto, no fim de semana passado, quando fui passar uns dias de férias a uma casa de família em Castro Daire (distrito de Viseu), onde o sossego é precioso, onde posso nadar no rio Paiva só com os meus três filhos e sem mais alguém por perto. Um privilégio incomparável nesta era das massas em que vivemos. A fila de carros para atravessar a ponte chegava à entrada da A5 no Restelo. Fugi imediatamente por Monsanto para apanhar o eixo Norte-Sul. Mas enquanto olhava para os ocupantes de todos aqueles carros, não consegui deixar de pensar: esta gente é louca.

Vejamos. A maioria daquelas pessoas passa horas nos carros, ou em transportes públicos, durante a semana para ir trabalhar. Chega o fim de semana, e o que fazem? Passam horas nos carros em filas intermináveis para ir à praia. Chegam à praia, já cheios de calor, mal-dispostos, com crianças rabugentas, e perdem mais uns largos minutos a encontrar um lugar para o carro. Chegam, finalmente à areia (umas três horas depois de terem saído de casa) e encontram um pequeno espaço entre a multidão onde mal conseguem esticar as toalhas. Despem-se, ficando, na verdade, em roupa interior num espaço público. A maioria daquelas pessoas até num quarto deveria ter cuidado em exibir-se demasiado em roupas interiores. E tudo isto para quê? Para se queimarem e “trabalharem para o bronze” (uma expressão que está no top três das expressões mais estúpidas da língua portuguesa, e não é fácil chegar a este top). Mas o martírio ainda não acabou. Depois é o regresso a casa. Mais uma horas no carro em novas filas intermináveis, com as crianças ainda mais rabugentas. E sabem qual é o cúmulo da loucura? No dia seguinte, domingo, preparam-se para fazer o mesmo.

Convém dizer que não sou um bicho do mato. Quando era novo, nos tempos de escola e universidade, passava muito tempo na praia. Quando os meus filhos eram pequenos passava dias na praia. Pelos nossos filhos, fazemos sacrifícios. Mas ia para a costa vicentina, onde havia praias deliciosas com pouca gente, onde se chegava à praia rapidamente e onde podia fazer muito surf. Na verdade, não fazia sacrifícios. Continuo a ir à praia durante todo o ano, e durante o inverno há dias maravilhosos, com praias desertas, sem vento e ondas perfeitas. Com os meus filhos crescidos – já não precisam de mim para ir à praia – deixei de fazer praia. Só vou para o mar fazer surf. Visto o fato no carro, faço surf, volto para o carro e vou para casa. Já nem sequer sei o que fazer na praia. Não é confortável para ler, não posso ver filmes nem ouvir música, a comida dos bares nas praias não presta, e prefiro conversar com pessoas quando elas estão vestidas e não semi-nuas.

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