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Na sexta-feira passada, o debate quinzenal com o primeiro-ministro manifestou ao país este pormenor curioso: para a oligarquia política, nós, os cidadãos, somos marisco. Uns são mexilhões, outros são lagostas. Jornalistas caridosos encarregaram-se de traduzir o novo jargão parlamentar: os mexilhões são os pobres, e as lagostas os ricos. Aparentemente, a questão que ocupa as massas encefálicas do regime é saber quem é que ficou mais “lixado” durante a “crise”: os “mexilhões” ou as “lagostas”?

A redução dos cidadãos a mexilhões e lagostas presta-se a ser tratada como uma metáfora bem humorada. Mas revela também uma mentalidade e talvez prenuncie uma política.

Todos nos habituámos a tratar os políticos com nojo: é uma condição para ser levado a sério em qualquer conversa, no táxi, na rede social ou no salão. Menos conhecido é o desprezo que os próprios políticos têm por todos nós. Também eles nos acham corruptos, egoístas, invejosos, e disparatados. Também eles desconfiam de nós, ricos ou pobres. Vistos de cima, dos píncaros do parlamento, somos uma confusão voraz de moluscos e de crustáceos, movidos apenas pela capacidade do poder político para nos outorgar benefícios, das PPP ao rendimento de inserção.

Muito no princípio do regime, houve um tempo em que os políticos, então quase todos em rodagem, debatiam como se estivessem num curso de ciência política. Comparavam “sistemas”, contrapunham “ideologias”. Tratavam-nos ainda como pessoas que era preciso convencer com argumentos. Hoje, tudo assenta em interesses e em demagogias: para os oligarcas, ganha quem, através do Estado, der de comer aos mexilhões e às lagostas ou, em alternativa, consolar os mexilhões (que são mais numerosos) com o espectáculo das lagostas ao lume.

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Até agora, as oposições tiveram o exclusivo do justicialismo: a austeridade foi apenas um truque para tirar dinheiro aos pobres e dá-lo aos bancos; este é o governo dos ricos, etc. Acontece que nos últimos meses, a “narrativa” turvou-se. As prisões de banqueiros, altos funcionários e políticos criaram outras perspectivas. Afinal, talvez a austeridade tivesse posto a máscara de Zorro para rasteirar os “donos” que reinaram no país quando as esquerdas estavam em maioria no parlamento. Um entusiástico Financial Times chegou mesmo a anunciar ao mundo que a “velha ordem” chegara ao fim em Portugal. Durante a semana passada, houve ainda outra notícia para estragar o negócio às oposições: segundo a OCDE, entre 2007 e 2012 empobrecemos menos do que os outros países resgatados e, ao contrário do que aconteceu nesses países, os 10% mais ricos em Portugal sofreram perdas maiores do que os 10% mais pobres. Eis o governo à vontade com os mexilhões.

As oposições reagiram imediatamente ao perigo. Logo na sexta-feira, Ferro Rodrigues introduziu o conceito de “lagosta”, para contrapor ao novo mexilhão governamental, e permitiu-se rever profundamente a teoria política da oposição: o governo, até agora “neo-liberal”, passara a “neo-populista”. No dia seguinte, António Costa sentiu necessidade de ensinar ao povo que a crise não “sacrificou” só os banqueiros. Entretanto, como os dados da OCDE vão apenas até 2012, o oposicionismo televisivo pôde confortar-se com a ideia de que depois dessa data terá sido muito pior para os pobres.

Não vale a pena entrar na troca de preconceitos e de dados parciais sobre quem ganhou ou perdeu mais. Um dia se fará a história. A curiosidade desta sociologia de frutos-do-mar está nisto: toda a oligarquia, da esquerda à direita, acredita que se for possível demonstrar que quem se “lixou” mais foi a lagosta, a governação dos últimos três anos, mesmo com todos os seus cortes e impostos, ficará de certo modo justificada e redimida aos olhos do mexilhão.

Há um risco que, no estado a que chegámos, não devemos excluir. Sem meios para as liberalidades de outrora, a oligarquia pode não resistir à previsível tentação de antecipar-se ao populismo. Portugal é um dos países mais desiguais do Ocidente. Mas as desigualdades não dizem apenas respeito ao rendimento. Têm também a ver com a contribuição: só uma parte dos contribuintes paga IRS (em 2010, só 42,6%), e uma minoria dos pagantes gera uma enorme parte da receita. O mesmo se poderia dizer do IRC. Não é improvável que um qualquer governo, esgotadas as suas últimas razões, opte por apelar aos que recebem contra os que pagam. Um dia destes, a nossa oligarquia política pode bem tornar-se na versão chavista de Maria Antonieta: “o mexilhão não tem pão? Coma lagosta”. Assim haja lagostas para servir aos mexilhões.