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Trissomia 21

Não me limitem!

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O vídeo “Não me limitem!” é muito eloquente do potencial de crianças e jovens com Síndrome de Down, pois deita por terra muitos preconceitos. Acima de tudo pulveriza medos e revela capacidades.

Não me limitem! Eis um grito adolescente que fica a fazer eco em nós e deveria ser um mantra para todos repetirmos sem cessar, especialmente aqueles que dedicam o melhor da sua vida a educar, a ensinar e a ajudar crianças e jovens a crescer.

Megan Bomgaars, americana do Colorado, agora com 23 anos, nasceu com Síndrome de Down. Ficou conhecida na escola por ter escrito um discurso aos professores a pedir-lhes que não a limitassem e tivessem sempre expectativas elevadas para ela. O discurso de Megan tornou-se viral e passado algum tempo foi convidada a participar na série real-documental “Born This Way”, criada para revelar e desmistificar a vida de jovens com Trissomia 21.

Em Portugal a voz de Megan Bomgaars foi amplificada por uma outra adolescente que nasceu com a mesma doença. Leonor Belo tem apenas 13 anos, mas tal como a americana Megan, também está muito consciente da sua diferença e não quer que a limitem só por não ser igual aos outros. Assim como Megan sempre foi ajudada em casa pela mãe, também Leonor tem uma mãe e uma família apostadas em criarem condições para desenvolver e multiplicar os seus talentos. Nesta lógica criaram um canal no Youtube, o “Canal da Lê”, onde a Leonor responde a desafios e é, ela própria, pivot dos seus programas.

Megan foi a primeira cheerleader com Trissomia 21 em todo o estado do Colorado, depois frequentou a universidade como qualquer jovem da sua idade, estudou cinema e criou uma marca própria de roupa e acessórios tingidos à mão. Tornou-se, ao mesmo tempo, uma empreendedora e uma activista dos direitos das pessoas com Síndrome de Down, porque aprendeu a falar em público e usa a sua voz para esclarecer dúvidas e interpelar a uma nova consciência sobre o direito à diferença.

Leonor Belo é a primeira youtuber portuguesa com Trissomia 21 e tal como Megan, também está a fazer um trabalho notável no que toca a despertar consciências e a chamar a atenção para as expectativas que os professores podem e devem ter relativamente a alunos como ela, diferentes dos que são considerados iguais (seja lá isso o que for, pois não existem no mundo dois seres humanos iguais, nem mesmo quando são gémeos, mas enfim). Os pais de Leonor adaptaram o discurso de Megan à sua realidade para que o seu apelo seja mais autêntico. Leonor repete o essencial do que disse Megan, mas acrescenta os seus pontos de vista e a sua experiência. Nesta rentrée foi ouvida na sua escola, no Porto, por professores e pais, porque felizmente tem a sorte de ser ouvida e tida em conta na sua própria escola, mas ainda há por todo o lado demasiada resistência à diferença.

Ver crianças e jovens que facilmente são discriminados ou rotulados, conseguirem elevar-se acima das suas circunstâncias, terem voz própria, assumirem a sua identidade e usarem meios de comunicação para falarem da sua realidade, dos seus sonhos e frustrações é muito forte e transformador. Numa sociedade onde ainda tantos têm medo da diferença e evitam falar do tema ou passam ao lado sempre que alguém doente ou deficiente se atravessa no seu caminho, vale a pena parar para ouvir estas vozes.

“Adoro aprender. Comecei agora a treinar para ser uma youtuber e uma oradora. Quero ajudar outras pessoas e famílias com Trissomia 21 que estejam perdidas e sem saber como reagir, quero ajudá-las a viver, a lutar, a acreditar e a confirmar que é possível sermos independentes. Tudo é possível!” diz Leonor, enquanto lê. Na verdade para muitos pais de filhos com Trissomia 21 só o facto de a Leonor ler já é uma grande luz, pois muitos temem que os seus filhos nunca cheguem a conseguir fazê-lo. O vídeo “Não me limitem!” é muito eloquente do potencial de crianças e jovens com Síndrome de Down, pois deita por terra muitos preconceitos. Acima de tudo pulveriza medos e revela capacidades.

Tal como todos os outros jovens, Megan e Leonor têm dons e talentos específicos, absolutamente únicos, que no seu caso se revelam a par de uma inclinação natural para a comunicação. Ninguém sabe fazer tudo bem feito e ninguém aprende sozinho a ser quem é e, tal como todos nós, ambas precisam e continuarão a precisar de estímulos e incentivos. Uma e outra tiveram necessidade de pais, educadores, professores e amigos capazes de identificarem nelas as suas qualidades, mas também de as encher de confiança e coragem. Confiança para saberem que são capazes de ir cada dia mais longe. Coragem para enfrentarem os preconceitos dos outros e não se amedrontarem com os medos dos que estão à sua volta.

De uma forma ou outra quase todos tememos a diferença. Poucos lidam com naturalidade com doentes e deficientes, mas é uma pena que assim seja porque nos pode acontecer a todos ficarmos doentes ou deficientes. De um momento para o outro pode acontecer a qualquer um. Aliás, não passa um minuto sem que alguém no mundo tenha um acidente ou um diagnóstico de doença grave e altamente condicionante ou incapacitante. Sabemos isto, mas agimos como se estas coisas só acontecessem aos outros. Esperamos sempre que essas realidades não nos batam à porta e, se saímos de casa e nos deparamos com pessoas consideradas diferentes, permanecemos irresponsavelmente indiferentes.

Ainda bem que estas coisas podem acontecer a todos, sem excepção. Talvez essa certeza seja a única forma de cairmos na conta de que podemos fazer muito mais e muito melhor pelos que vivem a condição de ‘diferentes’. Nas escolas, por exemplo, devia haver matérias que tocassem esta matéria. Acontece que não só não existem manuais, nem aulas ou formações, como em algumas escolas os pais não encontram sequer lugar para os seus filhos. E pior, ouvem coisas que não lembram ao diabo.

Os testemunhos de jovens como Megan e Leonor (e não só!) ajudam a perceber melhor do que falamos, quando falamos de necessidades especiais. Uma e outra mostram do que são capazes e sublinham o facto de quererem ajudar os professores a lidar melhor com a diferença. Na verdade, só o facto de levantarem a sua voz contra a indiferença geral e serem ouvidas já é uma grande conquista. Mas é preciso mais, muito mais, para que todos deixemos de ter medo de abrir o coração à diferença.

As pessoas doentes ou portadoras de deficiência não merecem o sobre-calvário de terem que lidar com as suas dificuldades e ainda carregarem as dificuldades dos outros. Falo dos que vivem sem condicionantes nem aflições maiores, mas se dão ao luxo de ignorar, desprezar , catalogar, discriminar e nada fazer para mudarem a atitude geral. Ninguém neste mundo quer ser tolerado. Todos queremos, precisamos e merecemos ser acolhidos, respeitados e amados. Mais, todos devíamos ser valorizados na nossa diferença, pois essa singularidade é o maior tesouro de cada um.

E é este o grande contributo que dão jovens como Megan e Leonor, entre muitos outros. Ao pedirem para não as limitarmos ajudam-nos a perceber que afinal não somos assim tão diferentes nem há que temer a diferença, muito pelo contrário! Sem moralismos, com muita ternura e graça, cada uma fala de si à sua maneira. Convergem no discurso porque uma se apoia na outra e Megan já leva um avanço considerável a Leonor, mas ambas mostram que não está certo limitar os dons e talentos a ninguém. Muito menos a quem sente na pele a dureza da superação diária e experimenta o peso insuportável do olhar dos outros. Seja quando é discriminador, seja quando é julgador.

Tenho a certeza de que a Leonor aprende muito na sua escola, com professores e colegas, amigos e pais dos amigos, mas também não tenho uma dúvida de que ensina ainda mais do que aprende. Ensina a valorizar a diferença e a lidar com naturalidade com pessoas que nunca serão iguais às outras. Felizmente.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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