Ninguém dá além do que tem, da mesma maneira que não se pode pedir a um limão que dê senão o seu sumo. Porém, ao jeito de Lavoisier, “tudo se transforma”.

Guardo na memória o velhinho Sr. Abel, de pele curtida pelo tempo, com o canivete em punho, a tentar acamar um enxerto de laranjeira, num golpe dado num limoeiro lá de casa. Lembro-me de ter estranhado que se conseguisse operar tal milagre.

– “Resulta desde que sejam citrinos, menina. De outra maneira não vinga.” – respondeu com um sorriso de quem mantinha religiosamente o Borda d’Água, na mesinha de cabeceira.

A seu tempo, o galho floresceu e deu bom fruto.

Para além dos anos sulcados nas rugas do rosto do Sr. Abel, creio que o segredo do sucesso deste empreendimento residiu na sabedoria de outros que o ajudaram a compreender a natureza das coisas. Como homem da terra, dispôs dos recursos com prudência, esclarecimento e ética, ao saber fazer bem o bem que lhe cabia em mãos. Partindo do princípio que, a cada instante, o ser humano escolhe a melhor alternativa possível no seu contexto de vida, muitos são os sinónimos que se podem atribuir àquilo que corre mal. Há quem vingue e considere os fracassos apenas como mais um passo do caminho; e, por outra, há quem se demore na auto-comiseração, que impede que a natureza siga verdadeiramente o seu caminho.

O que seria de Abraham Lincoln com as suas muitas derrotas políticas, Thomas Edison com todas as maneiras que descobriu de “não acender” a lâmpada, a inflexibilidade de Florence Nightingale em optar por outra profissão que não a de enfermeira? Quantos outros heróis empreendedores se empenham em nome de um propósito que só faz sentido para si próprios?… E se se contentassem com um “não”? Se se recusassem sofrer a dor de poder falhar e assim boicotassem a decisão de arriscar aquele preciso momento de acerto? É impossível não admirá-los pela visão e resiliência face à normalidade do engano, não obstante o risco da potencial frustração de descobrir que “ainda não foi desta”. Que liberdade de espírito ativar sem demora o comando interno do “próximo passo” e “não perder tempo a chupar limão”!

Da mesma feita, é inevitável não condescender ao irónico passeio final de um Carlos e um Ega, n’Os Maias, desanimados a jurar que “com efeito, não vale a pena fazer um esforço, correr com ânsia para coisa alguma… (…) Nem para o amor, nem para a glória, nem para o dinheiro, nem para o poder…” Daquele discurso realista, logo vemos os dois amigos que “romperam a correr desesperadamente pela rampa de Santos e pelo Aterro”, atrás do transporte que lhes acendeu “uma esperança, outro esforço: – Ainda o apanhamos! – Ainda o apanhamos!”. Tão intrincado está no ser humano o lampejo da possibilidade… “Deus quer, o homem sonha e a obra nasce”… Que se tente de novo: uma e outra vez, tal como se estimula uma criança a reerguer-se enquanto aprende a caminhar. E quando não for natural que se treine até passar a ser.

Força da cultura e da educação, daquilo que se diz ao que se faz pode ir uma distância imensa… No entanto, essa incongruência pode ser encurtada pela coerência de fazer da vida um caderno de exercícios. Na equação joga-se a consciência e tece-se a responsabilidade das pequenas decisões que a cada momento servem de sol e de chuva, que fertilizam o terreno que cultivamos em nós.

Isto acontece a nível pessoal e profissional, nas famílias, nas escolas e nas empresas, porque há que ter humildade para reconhecer que não somos seres acabados e que a arrogância dista-nos de sobremaneira do gomo sumarento de uma laranja colhida madura.

Aparentemente, poderá ser relativamente fácil evitar matar e roubar… a menos que se fale de esperança e da dignidade de quem coabita na mesma casa, convive numa escola ou integra uma equipa. Há que atentar contra essa praga que grassa silenciosamente e que desgraça vidas que não encontram o encanto de um novo dia que se levanta. Que haja espaço para nutrir pais, professores, amigos e líderes inspiradores que não temam cuidar e fazer fortificar o melhor de cada um.

Nesta época que antecede a colheita das laranjas e o advento da Luz nascente, que sintamos a vontade de aceitar o travo amargo que um fruto pode ter e experimentar a doce liberdade de saber poder começar de novo. Pois nenhum pano está isento de lhe cair uma nódoa. Nem nenhum Homem chegou a santo pela negação da sua natureza humana.

Entretanto, nestes dias de chuva e de frio, deixo a receita da minha avó materna que não dispensava 2 casquinhas de limão numa chávena de chá preto, a meio da tarde de domingo. Que uma nova semana comece; que seja mais uma que valha a pena ser vivida!