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O velho provérbio “Há males que vêm por bem” sempre nos soou a resignação e a uma espécie de conforto. O ser humano tem uma espécie de condescendência com o que corre mal. Procuramos uma compensação, que nos dê algum ânimo e alento para aquilo que objetivamente nos deu um prejuízo ou uma perda. E fazemos muito bem. A nossa reacção e atitude a situações adversas tem correlação com a dopamina ou endorfina que é produzida no nosso corpo.

Em gestão aprendemos a interpretar que um KPI (um indicador que avalia a performance de uma empresa numa variável específica) tem sempre duas perspectivas. O que parece bom tem sempre um reverso negativo.

Empiricamente, também acabamos por ter muitas evidências que podem servir de exemplo. Se estarmos mais parados e mais confinados parece mau, em contrapartida a poluição é muito menor. Em Lisboa, em Janeiro de 2019 tivemos valor de PM2.5 (poluição por partículas inaláveis mais pequenas) acima de 80 durante 11 dias. No mesmo mês mas este ano, tivemos somente três dias com valores mais altos. Este mês de Fevereiro, o valor mais elevado foi 39.

A pandemia originou um lastro de más notícias. Tudo parece mau em nosso redor.

Mas seguramente que não é bem assim. E é sobre isso que reflectimos agora, sobre tudo aquilo que nos aconteceu depois de 2 de Março de 2020, que tenha contribuído positivamente para a melhoria atitudinal de cada indivíduo, as novas competências que adquiriu e as suas interacções com os outros, a comunidade e o impacto também nas organizações. E foram 10, as situações positivas que concluímos que conquistámos com esta pandemia:

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1) Nada é garantido

Passámos a perceber que temos de evitar as palavras “Nunca” e “Sempre” no nosso dia-a-dia. As nossas referências mudaram, os intervalos temporais passaram a ser relativizados, a longevidade não se prevê como antigamente. Esta variável de imprevisibilidade fará parte de todos os orçamentos (budgets) das empresas, no tópico de “risk assessment”. Em linha com os últimos dados apresentados pelo World Economic Forum, farão parte das “top skills para 2025″ competências como pensamento crítico, criatividade, originalidade e capacidade de iniciativa, entre outras. Assim, acreditamos sermos hoje mais ágeis num contexto de imprevisibilidade, sabendo reagir com rapidez e eficiência. A expressão “contingência” faz parte do nosso léxico. E isto é positivo.

2) Enaltecemos as profissões menos nobres

Constatámos que ser futebolista da Premier League é menos relevante para a nossa vida que um motorista dos Bombeiros Voluntários, que a senhora que vende fruta fresca ou que o “motoboy“ que entrega refeições saborosas.  Ao mesmo tempo, reinventámos modelos de negócio, inovou-se em muitos sectores. Fomos ágeis e diligentes. O sociólogo Alvin Toffler disse que “o analfabeto do século XXI não será aquele que não consegue ler e escrever, mas aquele que não consegue aprender, desaprender e reaprender”. Provámos que afinal não temos muito analfabetos. E isto é positivo.

3) Distinção entre Importância e Urgência

Quem teve formação em Gestão de Tempo, sabe bem que a correcta adequação deste binómio é o que nos permite ter uma vida pessoal e profissional mais tranquila, com menos stress, maximizando o tempo investido numa tarefa ou projecto. Hoje passámos a saber que o grau de importância dá-nos pistas para a quantidade de energia e dedicação a atribuir à tarefa, isto é, quanto tempo vou gastar. O grau de urgência dá-nos o prazo de realização, ou seja, quando vou fazer. E isto é positivo.

4) Entreajuda e apoio aos mais desfavorecidos

Temos mais claro que existem muitas pessoas desfavorecidas e excluídas socialmente, que não são bafejadas por nenhuma instituição governamental nem têm uma rede de suporte circundante que os apoie. Acreditamos mais na importância da responsabilidade social e no papel preponderante que todos nós temos, para minorar esta população tantas vezes omitida. Com imenso agrado, temos visto a proliferação de iniciativas para as quais podemos contribuir com mantimentos, uma refeição, uma simples conversa, roupa, um computador que tenhamos na arrecadação sem uso ou somente com a orientação para dirigir a quem possa apoiar, para que tenham uma vida digna. Aprendemos também que somos todos parte de um mesmo todo, que afinal podemos ajudar a D. Maria do 3º esquerdo com as compras porque afinal…já são 90 anos. Sem gestos de solidariedade e entreajuda, a pandemia teria sido bem mais difícil. E isto é positivo.

5) Frugalidade

Precisamos de tudo isto? É bom ter conforto, mas em que medida precisamos de tudo o que estamos consumindo e comprando? Damos o uso correcto àquela peça de roupa ou somos consumidores de fast fashion? O nosso carro precisa mesmo de ser trocado? Aquele relógio é mesmo fundamental para a nossa felicidade? Temos todos de morar nos grandes centros urbanos? São muitos os exemplos do que passámos a ponderar e a avaliar melhor. Ser frugal significa valorizar aquilo que já temos, não desperdiçando os recursos materiais, sejam eles muitos ou poucos. É dar valor ao que possuímos, extraindo o máximo de utilidade. Podemos ter um telefone topo de gama e sermos frugais se maximizarmos as suas funções, a rapidez, a memória disponível e a resolução da câmara. E isto é positivo.

6) Redefinimos o sentimento de “felicidade”

A felicidade passou a ser algo bem mais simples de entender e por isso, de atingir. Felicidade é o estado intermédio entre escassez e excesso e somos nós próprios que definimos esses dois limites. Entende agora porque dizemos “éramos felizes e não sabíamos”? Livros como O Poder do Agora, de Eckhart Tolle; práticas como a meditação, mindfulness, yoga, pilates, até a simples prática de exercício físico estão cientificamente provados como sendo dos maiores alicerces para a manutenção da saúde física, bem como mental, estimulando o raciocínio, reduzindo os níveis de ansiedade e aumentando a sensação de bem-estar, considerando a produção natural de neurotransmissores do corpo.

Mudámos o paradigma. Hoje focamo-nos na criação líquida de valor. Imaterial. Redescobrimos que práticas de pintura ou de leitura de partituras de piano nos fazem bem mais felizes. E isto é positivo.

7) Cozinhamos mais e até sabemos fazer pão

Nunca se cozinhou tanto em casa como nesta época de pandemia. Tornou-se lugar comum as várias fornadas de pão que se têm feito durante os meses de confinamento. Aliás, até apareceram empresas a prestar este serviço de forma muito conveniente, despertando uma necessidade que tínhamos e não sabíamos. A marmita passou a ser tendência. Cozinhamos mais em casa, com mais qualidade e ainda poupamos. A saúde, de repente, tornou-se o nosso maior asset, acrescentámos no nosso regime alimentar vitaminas, super-alimentos, probióticos e aprendemos a valorizar o que a Terra nos oferece. E isto é positivo.

8) O problema de um é o problema de todos

Parámos de olhar o “lá” como algo distante. A Ásia é já ali, à distância de uma viagem de uma dúzia de horas. O que se passa lá longe acontece também aqui e vice-versa. Parece curioso, mas é verdade que o grande desafio na China, nas últimas semanas, tem sido as pessoas que chegam da Europa e que reactivam surtos de transmissão. Mudámos a visão do mundo e do que nos rodeia. A dimensão do nosso planeta, a globalização, a acessibilidade tornou-nos verdadeiramente parte de um todo. Ninguém fica isolado de nada, seja qual for a sua origem, estrato social, profissão ou credo. Percebemos mais que nunca, que somos uma única raça: a raça humana. E isto é positivo.

9) Conectividade

Descobrimos que é possível trabalhar em casa, com elevada produtividade, o micro-managing finalmente deixou de fazer sentido, passámos a ser mais do que nunca gestores de projectos, orientados para os objectivos. Em home office podemos estudar, tirar cursos interessantes, acompanhar as aulas de ballet da filha, socializar em boas tertúlias, fazer exercício físico com um PT qualificado ou até mesmo namorar. Aquelas horas intermináveis em aeroportos, as ligações de aviões, a estadia em hotéis para dormir quatro ou cinco horas, para no final tudo se resumir a duas horas de reunião presencial, parece-nos algo ridículo. O mundo tornou-se efectivamente global e a talent pool expandiu. As entidades empregadoras deixaram de estar limitadas a contratações locais, podendo encontrar as competências adequadas à função em qualquer parte do mundo. Como tal, hoje em dia podemos trabalhar de Santarém para Dallas ou Hong Kong. E isto é positivo.

10) Deixar de valorizar só quando se perde

Talvez este seja o maior ensinamento e evolução que todos conquistámos.

Este foi o ano que perdemos muitas pessoas queridas, cancelámos momentos festivos, deixámos de ir ao nosso restaurante preferido. Valorizamos muito mais as saídas e as férias. Uma ida a Badajoz ou a Ayamonte passou a ser uma experiência memorável, que recordamos com saudosismo. Queremos todos abraçar muito mais aquele familiar, brindar com os amigos, o apelo dos sentidos tornou-se ainda mais forte. Por outro lado, ganhámos tempo de qualidade para nós próprios. Na vida que deixámos, num passado que agora nos parece distante, não conseguíamos pensar. Éramos autómatos nas nossas rotinas diárias, no lufa-lufa da vida da cidade. Na nova realidade, passámos a valorizar mais o tempo e usamo-lo para refletir, planear e sonhar um futuro que queremos ver chegar quanto antes. Hoje, já com a aprendizagem do que realmente é prioritário na nossa vida. E isto é (o mais) positivo.

Em resumo, parece que o mundo ficou em câmara lenta e nunca vimos tal coisa. Isto porque a maioria de nós faz parte da geração pós-25 de Abril e, efectivamente, nunca tínhamos visto tal coisa. Nunca estivemos em guerra, nem em ambientes de carência. Fomos poupados de situações de verdadeiro medo ou pânico.

Aldous Huxley disse: “Experience is not what happens to a man; it is what a man does with what happens to him”. O nosso desejo é que as aprendizagens e as transformações humanas de 2020 sejam a base para fazermos de 2021 um admirável ano novo.