Deixem-me contar-vos a minha história. Nasci no seio de uma família típica da classe média, a minha mãe foi funcionária pública num instituto público e o meu pai funcionário numa empresa do Estado. Uso o verbo “ser” no passado, porque estão ambos reformados.

Nunca fui um aluno brilhante, no entanto, nunca reprovei de ano. Terminado o ensino secundário, e apesar de todas as dúvidas que assolam um rapaz de 18 anos na altura de definir o futuro, sabia que queria um curso relacionado com Saúde e optei pelo ingresso na licenciatura em Fisioterapia. Posteriormente, fiz um mestrado em reabilitação neurológica, trabalhei numa clínica a recibos verdes, depois com contrato de trabalho, e depois ainda num navio cruzeiro, onde tive oportunidade de viajar das Caraíbas ao Alasca. Nunca sonhei em ser médico. Esse sonho está praticamente vedado a quem não tenha média de 19 valores no final do 12º ano. Enquanto trabalhava como fisioterapeuta, não foi o sonho em ser médico que me moveu, foi a ambição. Em primeiro lugar, a vontade de saber mais, aprofundar conhecimentos nas áreas que mais me interessavam, como fisiologia ou fisiopatologia, e, em segundo lugar, a ambição em melhorar de vida, ganhar mais dinheiro, ter uma vida melhor.

Concretizei essa ambição indo estudar para Praga e voltei ao abrigo do contingente especial para licenciados, que permite concluir a licenciatura em Medicina em faculdades portuguesas. Hoje, sou interno de Medicina Geral e Familiar e dou aulas de Fisiopatologia numa faculdade privada para alunos de Fisioterapia.

Na verdade, fui um privilegiado. Estudei numa escola privada até ao 6º ano, depois disso tive explicações nas disciplinas em que tinha mais dificuldades, voltei a estudar, agora no estrangeiro, depois de ter terminado uma licenciatura e um mestrado porque os meus pais me ajudaram. E se este texto não servir para mais nada, quero que sirva para lhes agradecer. É um lugar comum dizer que temos os melhores pais do mundo, mas os meus, para mim, são os melhores, pelo simples facto de terem acreditado em mim e isso é o mais importante.

Quem aterrasse em Portugal na última semana, concluiria que o racismo é principal problema da sociedade portuguesa. Aextrema-esquerda e a extrema-direita revelaram, em todo o seu esplendor, a respetiva incapacidade para abordarem os problemas realmente importantes. De uma vez por todas, como em qualquer país do mundo, em Portugal também ocorrem episódios de racismo, o que não faz de Portugal um país estruturalmente racista. O principal problema do país não é o racismo estrutural, mas a pobreza estrutural. A incapacidade de quem nasce pobre conseguir melhorar a sua condição de vida através da educação e do trabalho é uma das causas do atraso português e da nossa pobreza.

A pandemia e a interrupção das aulas presenciais vieram agravar ainda mais as dificuldades já sentidas pelos alunos mais pobres. Esta, sim, devia ser a preocupação da sociedade e dos partidos e é para mim absolutamente incompreensível como é que estes partidos, o Bloco de Esquerda e o CHEGA!, alcançam, juntos, valores de quase 20% nas intenções de voto, quando a única coisa que têm para apresentar ao eleitorado é um discurso vago sobre o racismo.

Pelo sonho é que vamos, / Comovidos e mudos. / Chegamos? Não chegamos? /Haja ou não frutos, / Pelo Sonho é que vamos.

Sebastião da Gama foi um poeta setubalense, provavelmente o maior, se não tivesse existido Bocage. Eu não tenho, infelizmente, alma de poeta. Por isso desafio-vos: não tenham sonhos, tenham a ambição de tornar Portugal num país melhor.