Finanças Públicas

Não vale a pena fingir que avisam /premium

Autor
  • André Abrantes Amaral

Há uma bolha nas finanças públicas que é alimentada pela volatilidade do imobiliário e da banca e a que o governo fecha os olhos

É do conhecimento público que as finanças portuguesas continuam na rua da amargura, com índices de endividamento público e privado assustadores. Os últimos três anos foram um autêntico desperdício camuflado por um surto no turismo e políticas expansionistas a nível mundial que pioraram a situação. Ainda este mês, o ex-presidente do BCE, Jean-Claude Trichet, alertou para o facto de o endividamento público e privado ser em 2018 maior que em 2008.

Antevendo o complicado cenário que se avizinha, Marco Capitão Ferreira, com quem tive o prazer de debater semanalmente no Económico TV no período que marcou o fim da intervenção da troika e o princípio do actual governo, escreveu um texto no site do Expresso sobre a bolha imobiliária e o Banco de Portugal e que me vejo forçado a comentar.

À primeira vista o que o Marco refere parece correcto: os bancos voltaram a emprestar como se não houvesse amanhã e as pessoas dão mostras de terem perdido novamente a cabeça: pedem emprestado, endividam-se, compram casas, assumem compromissos que não é certo consigam cumprir. Perante este cenário, Capitão Ferreira, preocupado com futuro do país responsabiliza a inactividade do governo de Costa, certo? Não. O Marco limita-se a apontar o dedo ao Banco de Portugal, que acusa de estar a dormir e não cumprir o seu papel de regulador. Parece aquele anúncio do Kit Kat em que ao agente da alfândega escapa tudo menos a inocente velhinha; mas não, é mesmo uma crónica no Expresso.

Vou crer ser por lapso, e não de forma intencional, que Marco Capitão Ferreira não refere a  responsabilidade do governo socialista neste processo. Não menciona, por exemplo, a dívida pública que em 2015 era de 231 mil milhões de euros e, em Julho último já totalizava os 248,2 mil milhões. Que apenas por lapso não perde uma linha com o péssimo exemplo que o governo dá ao país e pela forma como chuta com a barriga a crise que já todos temem, ao mesmo tempo que se prepara para dela responsabilizar o cidadão comum (essa figura sem cara e nome) e o Banco de Portugal.

Não refere também que o “sucesso” deste governo se deve unicamente aos factores que estão a fermentar o problema: consumo, consumo, consumo. É esta nova trindade socialista que tem sustentado este governo, e que os socialistas se preparam para renegar, como o Marco o ensaia tão bem e de que Mourinho Félix já cautelosamente se distanciou. Não foi este o governo que desceu o IVA para incentivar o consumo? Não foi este governo que aumentou os salários e as pensões para que se gastasse mais? Não é no discurso socialista que está subjacente a suspeição de quem tem dinheiro no banco, não gasta e dessa forma egoísta não ajuda a economia?

É verdade que a bolha não é pequena, é enorme (e atenção que não se sabe se o que se passa no imobiliário em Lisboa e no Porto não é mais que a mera internacionalização destas cidades), mas alimenta as finanças públicas, alimenta o ego de Centeno com que tantos por aí se embasbacam. É como a bolha das finanças públicas que tem um défice pequeno, mas é alimentada pela volatilidade do imobiliário e da banca (tudo aquilo que o socialismo devia desprezar, mas de que depende e a que se verga) e pelas chicanas orçamentais cujos novos episódios conheceremos dentro de dias. O que se está a passar agora já tivemos o privilégio de assistir entre 2005 e 2011. Mas, desta vez, façam-nos um favor: não nos tomem por parvos.

Advogado

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