Crianças

Netos 5.0 sem birras? /premium

Autor
590

Não sei se já repararam que hoje as crianças fazem menos birras fora de casa. Sempre que uma vai abrir a boca para gritar, chorar ou pedinchar alguma coisa, basta dar-lhe um telemóvel para a entreter.

Nasce-nos um neto e sabemos automaticamente que vem preparado para lidar com máquinas, computadores e robots. Vem literalmente kitado para o mundo real e digital, para aprender novas linguagens e usar novas terminologias. Os bebés nascem aptos a decifrar, a integrar e a recriar o universo dos humanos, mas também o universo das máquinas.

Ainda antes de me nascer um neto verdadeiro, sangue do meu sangue, já sou avó emprestada de 13, com a décima quarta a caminho. Um cúmulo inesperado de alegrias, pois ninguém se pode dar ao luxo de esperar receber tanto em vida. Esta semana ficou marcada pela chegada do novo neto, que acumula a todas as suas aptidões a de ser bilingue desde o início, como tantos outros da sua geração e das que o antecederam.

Num tempo em que os nossos filhos crescidos se preparam para lidar com realidades profissionais 4.0, já a caminharem a passos largos para 5.0, os nossos netos — mesmo sem o saberem — antecipam a narrativa do futuro. Ainda mal abriram os olhos e já a sua visão futurista se desenha.

Nós, os que temos a felicidade de ter emprego e até de nos podermos realizar profissionalmente, ainda estamos neste plano inclinado entre o 4.0 e o 5.0. Ou seja, entre a atual hiperconectividade, alta velocidade e alto rendimento, geridos no mais curto espaço de tempo, e a nova relação com as máquinas. O que vai distinguir o ambiente 5.0 do atual é a relação com os robots e os super computadores. Isto dito de uma forma muito resumida e porventura grosseira, claro.

Mais do que perscrutar o futuro, coisa que não sei fazer nem me cabe saber, detenho-me na geração recém-nascida. Crianças dos zero aos quatro anos que deixaram de fazer birras no supermercado e nos restaurantes, que passaram a comportar-se melhor dentro do carro, em viagens, ou nos transportes, que se distraem facilmente desde que os pais, os avós ou quem os substitui lhes passem para a mão um gadget tecnológico.

Não sei se já repararam que hoje em dia as crianças fazem menos birras fora de casa. Dentro de casa, cada um saberá de si e dos seus, mas na rua e em espaços públicos o ambiente sonoro passou a ser mais limpo e menos ruidoso, mesmo quando há crianças muito pequenas por perto. É impressionante verificar este facto, mas qualquer um pode fazer a sua própria observação e confirmar que sempre que uma criança muito pequena vai abrir a boca para gritar, chorar ou pedinchar alguma coisa, basta dar-lhes um telemóvel ou um tablet para os entreter e fazer esquecer o motivo da birra.

É cada vez mais frequente assistir a cenas calmas, aparentemente tranquilas e sem história, entre pais e filhos. Mas será que são mesmo sem história? Ou a história é outra? Há um par de meses vi num restaurante da moda um casal de estrangeiros com dois bebés a mesa. Um ainda de colo e outro ainda muito pequeno mas que já andava pelo seu pé. Os quatro jantaram sem sobressaltos absolutamente nenhuns, mas nem um falou ou interagiu com os outros. O bebé tinha um ipad pousado na mesa, mesmo ao lado da sua cadeirinha; o mais velho tinha um tablet no colo; a mãe olhava para um ecran colocado do lado oposto ao do filho bebé, enquanto o pai lia demoradamente no computador.

Não sei quanto tempo demorou a refeição daquela família, só sei que nenhum dos quatro abriu a boca. Entenderam-se na perfeição com simples trocas de olhares e apenas o pai traduziu os pedidos de todos ao empregado do restaurante. Não posso nem quero julgar este casal, note-se, pois cada um sabe de si e ninguém pode aferir a qualidade da relação familiar a partir de uma cena silenciosa de almoço. O quadro desta família serve-me apenas de ponto de partida para uma reflexão sobre os dois tópicos que hoje me fazem escrever: a extrema facilidade com que as crianças do mundo moderno leem e apreendem as novas tecnologias, mas também a velocidade a que a comunicação e as relações interpessoais estão a mudar.

O reverso desta aptidão natural das novas gerações para as novas tecnologias é a possibilidade de se distanciarem dos humanos por mais facilmente se ligarem as máquinas. Nada disto é novidade, bem sei, mas é preocupante. No mundo 5.0 (e futuros!), em que haverá cada vez mais máquinas, ecrans, robots e gadgets, o que caberá aos seres humanos?

Serem mais humanos!

Quanto mais máquinas houver no mundo, quanto mais robotizadas estiverem certas tarefas e mais digitais forem os processos e sistemas, mais humanos teremos que ser. Não há volta a dar!

E é isto que nos cabe ensinar a netos e filhos ainda pequenos. Não basta passar-lhes para as mãos os devices e reconhecer neles as competências inatas para lidar com a nova tecnologia. É cada vez mais urgente ajudá-los a interiorizar que a comunicação humana, a relação humana, o olhar humano e o abraço humano são insubstituíveis. Importa que aprendam primeiro a olhar, a conversar, a partilhar, a discutir e a interagir com pessoas do que a lidar com máquinas. Mesmo que isso implique retomar algumas birras, ou nos obrigue a voltar atrás no tempo, quando em vez de tablets existiam braços de ferro que obrigavam pais e filhos a discutir, a negociar e até a desentenderem-se. Nesse tempo ninguém tinha medo de se desentender, porque éramos obrigados a saber os caminhos para nos voltarmos a entender. Agora parece mais fácil estender a mão com um smartphone ou um tablet, convocando ao silêncio, do que estender o braço para puxar para uma conversa mais séria ou dura, mas que mais a frente pode levar a um bom abraço.  É pena.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Pedofilia

Igreja segura, tolerância zero /premium

Laurinda Alves
295

O Papa Francisco convocou a cimeira e vão ser dias duros, de via purgativa, mas que marcarão uma nova era. Não era possível manter a impunidade nem o silêncio, é preciso saber ler os sinais de alerta.

Cancro

Careca Power! /premium

Laurinda Alves
810

Muitos doentes oncológicos, homens, mulheres, jovens ou crianças, sentem que não são ajudados durante a sua doença. Associações como o Careca Power servem para sensibilizar e estabelecer prioridades.

Papa Francisco

A urgência da Paz /premium

Laurinda Alves
453

Há milhões de jovens que são verdadeiros ‘influencers’ positivos do século XXI por desfazerem preconceitos, lutarem contra estereótipos, protegerem os mais fracos, derrubarem muros, construírem pontes

Cancro

Dia Internacional das Crianças com Cancro

João de Bragança
3.311

O mundo doloroso das crianças e jovens com cancro é isto: a falta de leis, de apoios sociais, de condições ou de políticas, o excesso de protagonismos ou de pequenas lutas próprias.

Governo

A famiglia não se escolhe? /premium

Alberto Gonçalves
248

Se ainda não se restringiu o executivo aos parentes consanguíneos ou afins do dr. Costa, eventualidade que defenderia com empenho, a verdade é que se realizaram amplos progressos na área do nepotismo

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)