(Enquanto nada verdadeiramente se renova na política partidária e tudo parece same old, apetece focar o olhar noutras realidades que estão cheias de novidade.)

Menahem Pressler, lendário pianista alemão, nasceu em 1923 e apesar de estar a caminho dos 100 anos continua em forma e extraordinariamente activo. Ouvi-o há poucos dias tocar com a Orquestra Gulbenkian e vi o que todos vimos: um homem que se desloca devagar, com passinhos miudinhos, que precisa de um andarilho e do apoio de um braço humano para chegar ao piano e se sentar, mas depois toca com pulsos leves e dedos fabulosamente ágeis.

De olhos fechados, ninguém diria que o pianista faz 95 anos este ano. Muito pelo contrário. A sua música não reflete a sua idade nem idade nenhuma. Toca com alma e toca o nosso coração. A sua energia vital é apaixonante, contagiante. Faz-nos acreditar que é possível viver em modo ‘ageless’, sem medo de acumularmos anos, experiências, memórias (e alguns quilos) num tempo em que se idolatram os novos, os bonitos, os perfeitos e os que vão ao ginásio todos os dias.

Pressler é baixinho, gordinho, velhinho e dependente dos cuidados de terceiros, mas é ao mesmo tempo um senhor muito elegante e aprumado que sorri com facilidade e ainda tem tiques que revelam alguma vaidade pessoal. Careca há muitas décadas, continua a tentar disfarçar a coisa puxando o cabelo de um extremo ao outro da sua bela cabeça, e aquilo que noutros chega a parecer ridículo, nele assenta com uma certa distinção e dá-lhe um ar afável.

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Depois da última nota do Concerto para Piano e Orquestra nº 23, de Mozart, que tocou com a Orquestra Gulbenkian, dirigida pelo Maestro Leo Hussain, toda a plateia se levantou para aplaudir os músicos de pé. A ovação foi de tal maneira demorada e entusiasta que Menahem Pressler percebeu a parte que lhe cabia e voltou mais duas vezes ao palco para encores absolutamente sublimes que nos comoveram a todos. Tocou primeiro o Nocturno nº 20 de Chopin, seguido de Rêverie, de Debussy.

Muitos são os músicos, artistas e poetas capazes de tocar as nossas fibras mais sensíveis, mas poucos nos deixam com lágrimas nos olhos e uma sensação de infinita gratidão por existirem e serem como são. Pressler abandonou o palco depois de sucessivas vénias extremanente gentis, de mão no peito, certamente reconhecido por encontrar ali mais um público a pedir-lhe para não ir embora. A multiplicar as palmas para o obrigar a permanecer em palco mais uns minutos. Uns passos atrás, o próprio Maestro parecia profundamente tocado com as performances musicais de Pressler e, por breves instantes, todos tivemos a certeza de que vale a pena existir para ouvir e conhecer pessoas assim.

O tempo que Pressler precisou para se afastar e voltar a aparecer de novo em palco, para caminhar por entre os músicos que discreta e amorosamente desviavam as suas estantes com as partituras para abrirem um corredor por onde o pianista, a sua acompanhante e o andarilho pudessem passar sem sobressaltos, foi o tempo suficiente para nós, numa sala à cunha, assistirmos a uma mobilizadora cadeia de gentilezas e amabilidades entre todos os presentes.

Deste lado, na plateia, todos nos levantamos instantaneamente para aplaudir de pé, agradecendo aos músicos e, em especial ao pianista, a qualidade da sua música; do outro lado, em cima do palco, todos se calaram e apagaram para dar maior visibilidade e mais tempo a Pressler. O Maestro retirou-se de cena, mas não resistiu a ficar num canto para o ouvir tocar, enquanto a esmagadora maioria dos músicos o escutava com devoção, também de olhos fechados.

O espectáculo foi lindo de se ver. Um pianista de quase 100 anos a tocar como se tivesse 20, e uma Orquestra inteira em silêncio, uns poeticamente abraçados aos seus instrumentos musicais, outros de braços elegantemente cruzados e outros ainda totalmente entregues à música, ombros ligeiramente postos para trás, sem tensão absolutamente nenhuma. Impecavelmente sentados nos seus lugares, preparados para tocar, mas também prontos para ouvir.

Transposto para o nosso quotidiano, para a nossa realidade real, este quadro é em si mesmo uma bela metáfora que nos interpela no sentido de darmos mais tempo e abrirmos mais espaço para os mais velhos, de os tratarmos com infinitos cuidados, apreciarmos a sua arte, termos ouvidos para as suas performances e memórias, respeitarmos a sua identidade, cultivarmos o respeito pelos seus conhecimentos e experiências.

Aparentemente a idade trouxe a Menahem Pressler mais suavidade, mais doçura e mais ternura. O seu toque no piano é de uma intimidade e uma familiaridade comoventes. Acredito que tudo isto foi possível porque ao longo da sua vida foi tendo palco e públicos, mas acima de tudo afectos e pessoas à sua volta disponíveis para o apreciar, mas também para o apoiar. E críticos para o apurar, claro, e para o fortalecer, pois sem vozes dissonantes é impossível evoluir.

No dia em que o mundo parar para escutar a sabedoria dos mais velhos, como esta Orquestra e este público pararam para ouvir Pressler tocar, seremos muito mais felizes porque seremos muito mais capazes de viver numa lógica intergeracional, sem descartar os que vão avançados na idade.

Como o mundo não pára nem parará em dia nenhum, podemos tentar fazer as nossas pausas numa escala individual, de forma a criar oportunidades para nos ouvirmos uns aos outros sem preconceitos, sem rótulos e sem estigmas geracionais.