Recentemente tive a oportunidade de, finalmente, ver uma série pela qual ansiava já há muito tempo, e após visualizar a primeira temporada tenho a dizer que fiquei bastante satisfeito com o resultado final. Acredito que Westworld é um projeto televisivo bastante ambicioso mas que, sem pretensão, cumpre com todas as metas com que se comprometeu nos primeiros episódios e agarra o espetador desde o minuto inicial através de performances impressionantes de atores que estão habituados a não desiludir quem os observa, como os veteranos Anthony Hopkins (representando Robert Ford) e Ed Harris (no papel de Man in Black); através de uma banda sonora excecional composta por adaptações eruditas e cinemáticas de músicas como Paint It Black de Rolling Stones e grande parte da discografia de Radiohead; pela criação (ou adaptação) de um universo ficcional plenamente imersivo, com diversas linhas de narração que nos fazem sentir a emoção dos protagonistas à medida que decorrem os episódios, existindo uma alternação constante entre os estilos cenográficos tipicamente utilizados nos filmes sci-fi e spaghetti western de modo a revelar os diferentes planos de ação da obra e, mais importante de tudo, através dos grandes alicerces da série e da história nela envolvida, as duas grandes temáticas filosóficas que, entre muitas, orientam os diálogos das personagens e o conceito da composição cinematográfica que nos é apresentada em Westworld, temáticas que trabalharemos hoje.

Criada por Lisa Joy e Jonathan Nolan, a série é desenvolvida a partir de um conceito apresentado inicialmente por Michael Crichton, que viria a escrever alguns episódios para o Westworld do século XXI, mas que não obteve muita fama ou sucesso depois do lançamento vanguardista, a meu ver, de Westworld original, em 1973, um western de ficção-científica “de série B”. A composição cinematográfica em análise retrata um parque temático futurista, cujo público alvo é a alta camada da sociedade, os mais ricos, e que representa os Estados Unidos da América na segunda metade do século XXI, a época áurea dos cowboys. O cliente do parque é convidado a entrar num comboio que o leva a Sweetwater, a cidade que representa o centro de Westworld, e que é composta por tudo o que nós associamos ao mundo dos cowboys, um saloon, um armeiro, uma prisão, uma casa de prostituição, conflitos armados na rua, bandidos em fuga, destacamentos do exército unionista americano, posters espalhados pelas paredes das casas com fotografias de criminosos e a legenda, a letras garrafais, “wanted, dead or alive”.

Não fosse esta experiência já suficientemente envolvente, todo este mundo recreativo é habitado pelos “anfitriões”, androides criados pelo centro de programação da empresa que gere Westworld, liderado por Robert Ford e Bernard Lowe (Jeffrey Wright), construídos com o objetivo de serem completamente semelhantes aos seres humanos, indistinguíveis. Nos anfitriões reside a essência do parque, na medida em que é com estes que os clientes vão interagir, e cada um está programado com uma linha de narrativa, para saber o que tem de fazer durante um dia de trabalho,  com uma backstory complexa, para que as suas mentes se aproximem da dos verdadeiros humanos, tendo os androides motivações do passado que os orientam nas decisões do presente. Para além disso, são preparados para, caso necessário, improvisar um pouco, de maneira a tornar o parque mais verosímil. Todos os dias estes anfitriões são reiniciados, e são-lhes apagadas as memórias que poderiam guardar do dia anterior, para que possam cumprir as suas obrigações de sheriff, de bandido, de barman do saloon, de alcoviteira, de soldado, sem que recordem os acontecimentos dos dias passados para que não reconheçam que as suas vidas são completamente cíclicas, desprovidas de um maior sentido, e para que não desenvolvam dúvidas sobre a profundidade da sua existência.

Sendo assim, o cerne da história consiste na evolução destes anfitriões, pois perante o milagre científico-tecnológico que é a simulação quase exata da vida, os programadores ficam como que obcecados com o trabalho que desenvolvem, esforçam-se cada vez mais por introduzir características humanas nos androides que desenvolvem, criam atualizações constantes que, aos poucos e poucos, vão despertar os sentimentos mais profundos e complexos dos anfitriões, promovem o amadurecimento da sua perspicácia, da sua desenvoltura, os anfitriões ficam eloquentes e, devido ao surgimento de falhas no sistema de Westworld que permitem certos lapsos na erradicação das memórias de alguns clones, estes começam a formar uma consciência, perguntando-se que sítio é aquele onde vivem, se existe um Deus que eles desconhecem, quem foram eles no passado e, mais importante, quem são eles agora.

Com o desenrolar da ação, e à medida que se torna mais evidente o desconforto que os anfitriões sentem para com o mundo em que vivem, que os faz questionar tudo o que conhecem, percebemos que Westworld não é uma série qualquer, e não se conforma com as suas boas performances, a banda sonora inquietante ou com as cenas de ação intensas e envolventes. Entendemos, como já foi dito anteriormente, que os argumentistas exploram temáticas filosóficas e até bíblicas que desde sempre moldaram o pensamento ocidental, e conseguimos estabelecer duas relações de semelhança entre a série da HBO e dois textos fundamentais, mais concretamente a Alegoria da Caverna, de Platão, e a história da Torre de Babel, presente no Génesis.

Sem querer soar pretensioso, tendo em conta que o meu conhecimento de filosofia é limitado àquilo que se aprende no ensino secundário, desde há algum tempo que desenvolvi bastante interesse pela parábola da caverna, e acredito que qualquer pessoa que se depare com Westworld conhecendo vagamente o sétimo livro d’A República é capaz de estabelecer uma conexão imediata. A título de contextualização, atentemos brevemente no conteúdo da alegoria platónica. Redigida com o intuito de se afirmar enquanto história filosófico-pedagógica, Platão apresenta-nos na parábola em análise uma caverna, na qual vivem várias pessoas acorrentadas, sem se poderem movimentar, sem se verem a elas próprias ou aos seus companheiros, todos condenados a olhar fixamente para uma parede. Atrás dos prisioneiros existe uma fogueira, e por detrás disso está um muro, passando atrás dele diversas pessoas com objetos segurados por cima de suas cabeças, sendo geradas nas paredes observadas pelos prisioneiros várias sombras, as imagens dos tais objetos. Todos os sons que se ouvem no interior da caverna são repercutidos nas paredes da mesma, pelo que só se ouvem barulhos indefinidos e confusos, e os prisioneiros acham que essas mesmas impressões sonoras têm origem nas sombras que vêm, por serem estas tudo o que eles conhecem, por serem elas a única realidade para os encarcerados. Platão revela-nos então o que aconteceria se um dos indivíduos tivesse oportunidade de se libertar e ver o exterior, e conta-nos que primeiramente, este não acreditaria na veracidade daquilo que presenciara, e voltaria para a caverna. No entanto, se por acaso este prisioneiro percebesse a profundidade da descoberta que fizera e tentasse contar aos outros encarcerados o que experienciara, estes agredi-lo-iam, acabando por matá-lo.

Entendemos então que esta alegoria moldou por completo a cultura ocidental, e somos, por consequência, capazes de encontrá-la na base de muitos filmes dos últimos anos, como The Truman Show (1998), semelhante a Westworld no modo como explora a parábola platónica no contexto de um projeto de entretenimento, neste caso não um programa televisivo mas um parque temático; somos capazes de encontrar características da caverna em Inception (2010), que se assemelha à série destacada pela forma como nos é revelada a incapacidade de algumas personagens de distinguir o mundo real do mundo das sombras (curiosamente, Jonathan Nolan, criador da série, é o irmão mais novo de Christopher Nolan, realizador do filme); e, por fim, é clara a influência em Westworld de, na minha opinião, a obra cinematograficamente mais relevante quando se fala da Alegoria da Caverna: The Matrix (1999). O enredo da série é em muitos aspetos semelhante ao do filme das irmãs Wachovski, por um lado pela criação de protagonistas que, auxiliadas por outras personagens, com maior conhecimento sobre o carácter ilusório da aparente realidade, percorrem caminhos de autoconhecimento na procura de consciência e de assimilação da existência de um mundo fora daquele que estes já conhecem e, por outro lado, pela utilização de referências claras a algumas cenas do filme que, provavelmente, mais inspirou a produção de Westworld (recordamos então o diálogo intemporal de Morpheus com Neo, em que o primeiro lhe oferece, através de dois comprimidos coloridos, a possibilidade de este esquecer a verdade que lhe fora transmitida, de forma a viver os seus dias sem o conhecimento da realidade que lhe transcende, ou, caso não deseje permanecer na ignorância, se compromete a viver com a sabedoria de que há algo para além do mundo terreno, adaptado para a série no diálogo que Bernard Lowe estabelece com Dorothy Abernathy (Evan Rachel Wood), a anfitriã protagonista que procura a essência da realidade, conversa fundamentada exatamente nas mesmas proposições). Curiosamente, a grande divergência entre as duas obras em destaque é o facto de, enquanto o filme analisa uma situação apocalíptica em que os humanos estão aprisionados na “caverna”, sendo subjugados por androides sencientes que pretendem utilizar as suas vidas como fonte de energia, a série inverte os papéis, tornando os robôs naqueles que são controlados pelos Homens, que se servem das máquinas para a indústria do entretenimento.

Deste modo, ao percebermos que os Seres Humanos são os “vilões” de Westworld, por terem sido eles que, a partir do desenvolvimento tecnológico e do investimento científico na inteligência artificial, conseguiram criar escravos, submetidos a vidas infinitamente cíclicas de sofrimento, morte e manipulação, deparamo-nos com a segunda temática de grande relevância no contexto da obra: a teimosia humana de querer ser Deus. Desde os textos bíblicos que se criam histórias que procuram ilustrar o erro da humanidade de querer criar os seus próprios deuses, buscando tornar-se também os Homens em seres divinos, e os maiores exemplos da exploração deste tema são a narrativa da queda de Adão e Eva, personagens que, contrariando as indicações de Deus, quiseram comer o fruto da árvore do conhecimento do Bem e do Mal, e o mito da Torre de Babel, que conta a história da grande cidade e da torre que a humanidade pós-dilúvio quis edificar para chegar ao céu e obter a fama do feito em questão, sendo descrito no capítulo do Génesis associado ao texto que Deus não ficou satisfeito com a pretensão humana, e que, por isso, dispersou os Homens por toda a superfície terrestre, fazendo surgir diversos idiomas entre eles para não se conseguirem entender.

Compreendemos então que existe uma relação de semelhança entre a série em análise e os textos bíblicos que destacamos, mas para compreendermos melhor o porquê de tantas vezes a arte nos mostrar que é um grande erro o Ser Humano ter a ambição desmesurada de se tornar no seu próprio Deus, atentamos num clássico do cinema e um dos melhores “blockbusters” da história da indústria: Jurassic Park. Este filme, cujo argumentista é o mesmo do Westworld de 1973, explora também o conceito de um parque temático desenvolvido por cientistas que fazem experiências relacionadas com a genética e a clonagem para criarem as atrações do parque, sendo que no filme os “anfitriões” são, na verdade, dinossauros. É uma ilustração dos perigos provenientes da tentativa de controlo de forças que nos são superiores, e do não contentamento com o cariz social, religioso e criativo (mas com muito menos poder que a força criativa de Deus) do Ser Humano, pois por muito que o Homem tente construir contentores para as suas criações mais ambiciosas, “life finds a way”, e, como diz a personagem de Anthony Hopkins em Westworld, o grande responsável pela criação dos anfitriões do parque, não se pode tentar sem Deus sem se familiarizar com ser o diabo.

Ao trabalhar temáticas filosóficas tão fraturantes como as duas apresentadas, e muitas outras que aqui não foram elencadas por uma questão prática, acredito que Westworld se afirma como um dos melhores programas televisivos da última década, e ajuda a colocar a HBO num lugar cimeiro em relação aos restantes serviços de streaming quando se fala sobre a produção, desenvolvimento e/ou divulgação de séries, após o lançamento de clássicos instantâneos como The Sopranos, The Wire, Game Of Thrones, Chernobyl e Westworld. Uma série disruptiva que nos faz pensar mais sobre nós mesmos e sobre a realidade que nos rodeia, e não um mero programa de entretenimento. É uma obra de arte especial, e o tempo que se investe na mesma não é tempo desperdiçado. Recomendo.