Duas mulheres muito mais velhas caminham e conversam devagar, lado a lado, amparando-se mutuamente no braço uma da outra. Quando se aproximam dos degraus que as levam à plataforma das carruagens, uma delas tacteia no ar até a mão sentir o frio de aço do corrimão. Param, para tomarem balanço para os degraus. Descer é muito mais difícil que subir e fazem tudo com gestos demorados e as mãos sempre a tremer.

A meio do lance de escadas, uma delas inclina-se sobre o ombro da outra para um segredo e eis que a amiga dá uma gargalhada tão grande que se ouve em toda a estação do Metro. O riso toma conta delas, sacode os seus corpos frágeis e dá a cada uma um suplemento de vitalidade instantaneo. As duas mulheres ainda esboçam alguns passos, mas páram para poderem rir sem cairem nos degraus. Num gesto sincronizado limpam as lágrimas súbitas que lhes embaciam os óculos e até esse gesto mecânico, a que nenhuma liga importância, revela e reforça a sua cumplicidade.

As gargalhadas são contagiantes e em pouco tempo todas as pessoas que estão na plataforma sorriem. Há muita gente à espera do metro àquela hora, mas ao fim do dia já ninguém conta com uma cena de riso, porque a vida não está para alegrias. E o filme continua, pois as amigas nem sequer se dão conta de que por tanto rirem, o mundo pára. À sua volta uns suspendem as conversas, outros desligam discretamente os telemóveis. Ao meu lado uma rapariga despede-se apressadamente de alguém para não perder aquilo que todos estamos a ver. Impressiona a cumplicidade destas duas velhas amigas, mas o que mais comove quem as ouve rir é a vitalidade inesperada, a alegria inteira que põem no seu riso.

O comboio chega e rapidamente a plataforma fica vazia. Fiquei a vê-las da janela, já sem som, como que a despedir-me, sem vontade nenhuma de partir e deixar de as ver. Na minha carruagem entraram pessoas que ainda vinham a sorrir, mas não trocamos palavras, apenas sorrisos ainda cheios da cumplicidade das amigas. Também vinham outros, de olhar impessoal e passo apressado que sairam naquela estação, completamente alheios à cena. Na carruagem permaneceram muitos daqueles que por estarem tão habituados às horas de ponta, olham sem ver. Nunca mais voltei a cruzar-me com estas duas amigas, mas sempre que subo ou desço aquelas escadas ouço o som das suas gargalhadas.

Na mesma carruagem em que entrei, ia um homem de mochila cor de rosa ao ombro e a filha muito pequena pela mão, mais dois pedreiros de roupas empoeiradas, com pás de obras que todos instintivamente evitámos para não sujar os fatos. Saímos todos numa estação mais à frente e as conversas entre o pai e a filha prenderam a atenção de quem caminhava pelos túneis. Também eles iam no seu passo, livres de pressas e com tempo para prestar atenção a coisas que não interessam a profissionais com agendas pesadas e horas para tudo. A filha queria ir ao pé coxinho e desafiou o pai a ir com ela. O pai, homem de ar sério, muito alto e certamente competente no seu trabalho, enfiou a mochila no outro ombro para não escorregar e cair ao chão, deu a mão à filha e começaram a caminhar aos saltos apenas com um pé. Ver um homenzarrão de fato escuro e mochila cor de rosa florescente às costas, a tentar competir em saltos a pé coxinho com uma filha bem treinada no recreio da escola é sempre um acontecimento. Apetece atrasar o passo só para os ouvir falar de coisa nenhuma, mas como seria estranho e, porventura suspeito, acabo por ultrapassá-los e seguir o meu caminho atrás dos pedreiros que levam nas mãos as pás e cigarros já enrolados, urgentes, prontos a acender na rua, mal cheguem à superfície.

Mudo de linha e atravesso para a plataforma do outro lado. Espero quase nada pelo comboio e entro numa carruagem ainda meio vazia, porque àquela hora as pessoas vão todas na direcção oposta. Sento-me, finalmente. Olho distraída pela janela e sinto o embalo metálico do metro a avançar pelo túnel. O vidro torna-se espelho e devolve as caras e as figuras dos que me acompanham. Tento não fixar o olhar em ninguém, mas não consigo. Ouço um choro compulsivo e procuro no vidro a pessoa que chora. Não a descubro e olho para dentro da carruagem, para tentar perceber de onde vem aquele choro tão forte. Uma rapariga que também não olha para ninguém e não consegue esconder o seu desgosto, chora sem parar. Chora tanto, tanto, que ficamos suspensos daquele pranto sem sabermos o que fazer.

Ao lado da rapariga, uma senhora com cara aflita e olhar interrogativo, como que à procura do consentimento alheio, não sabe se lhe há-de tocar no ombro, abraçá-la ou deixá-la afogar a sua dor. De frente, um casal de namorados entreolham-se na mesma dúvida. E a rapariga, de gorro na cabeça e cabelos compridos, de cara encostada à janela e olhar distante, chora e continua a chorar. Franzina, com ar de estudante, redobra o choro até começar a soluçar e todo o seu corpo estremecer, trespassado de infelicidade. A senhora não resiste e toca-lhe no ombro, mas a rapariga nem sente a sua mão. Está longe, muito longe. A mulher recua um pouco e torna a olhar em volta. A carruagem vai em silêncio e só se ouve o choro desesperado da rapariga. Ninguém sabe o que fazer até chegar à paragem seguinte. A rapariga não se levanta nem sai. Continua ali refém da sua grande dor, a chorar sem parar. Quem entra de novo olha directamente, sem pudor, com indisfarçável perplexidade. Parece difícil de acreditar que uma rapariga tão nova se sinta tão infeliz e chore tão sozinha. Quem vem de trás e a acompanha desde o início da linha sabe que ela chora sem remédio. Ninguém sabe o que fazer. Todos tentamos de maneiras diferentes que ela nos sinta próximos, mas ela continua dolorosamente presa a um acontecimento ao qual não conseguimos aceder. E não responde, não olha, não se conforma. Apenas chora.

Saio pouco depois, angustiada pelo choro e por também eu não ter sido capaz de consolar a rapariga ou conter as suas lágrimas. Saio impotente e calada. Saio devagar, também sem me querer afastar. E vejo-a através da janela que corre ao contrário de mim. E volto a cabeça para a seguir até desaparecer, com o som do seu choro a fazer-me chorar. Subo as escadas sem me cruzar com outras pessoas. Não sei porque é que as amigas riam e a rapariga chorava, apenas sei que visto do meu comboio, o mundo pode ser ao mesmo tempo um destino mágico e um lugar estranho.