Nós, os que cuidamos dos que são nossos, sejam familiares adorados, amigos queridos ou vizinhos necessitados, temos tido trabalhos redobrados nestes dois meses de confinamento. Mais do que os trabalhos, que fazemos por necessidade imperiosa, com amor, entrega, devoção, competência e, até, profissionalismo, diria que mais do que os trabalhos, multiplicaram-se as aflições. As nossas, dos que cuidam, mas sobretudo as dos que sofrem.

É dramático estar doente com outras doenças enquanto dura a pandemia provocada pelo Covid19. E, por isso mesmo, também é duro estar à cabeceira nestes tempos. É doloroso sofrer, e é angustiante não poder socorrer da mesma maneira. As doenças crónicas, incuráveis e progressivas deixaram de ser uma prioridade. Quem sofre de cancro sabe que andou para trás na ‘fila’, para que outros pudessem passar à frente. Quem tem doenças cardíacas, renais, respiratórias ou sofre por ter diabetes (e tem também os cúmulos de complicações dela decorrentes), sabe que não pode ir ao hospital e evita as urgências a todo o custo. Quem está a precisar de fazer exames e tratamentos tem que esperar mais, e quem necessita de ser observado em consulta conhece as limitações atuais.

Muitos dos que estavam preparados para serem operados viram as suas cirurgias adiadas e há serviços críticos, como neurocirurgia e outros, que em certos hospitais passaram a funcionar a ‘meio gás’ ou ficaram praticamente suspensos porque as unidades, as enfermarias, as instalações e até os blocos estão a ser usados para se poder dar sequência às medidas sanitárias que acautelam a possibilidade de novos contágios.

Dadas as circunstâncias e as emergências provocadas pelo corona vírus, tudo isto é inevitável, é certo, mas tudo isto está a ter efeitos colaterais brutais. Na impossibilidade de enunciar caso por caso, situação concreta por situação concreta, falo do que conheço a partir de testemunhos reais, mas também daquilo que vivo em casa, de onde não saio há 2 meses, exceto para brevíssimos raids em demanda de medicamentos e alimentos.

Os que sofrem por doenças físicas, emocionais ou mentais estão a sofrer ainda mais porque o confinamento e o distanciamento social afastaram a possibilidade de ter acesso a apoios. Quem era visitado deixou de o ser; quem era abraçado passou a não poder sentir o calor dos abraços; quem era consultado pelo médico habituou-se a prescindir da sua presença. E por aí adiante.

Estamos muito conscientes da crise económica e social, estamos todos muito alinhados em termos de medidas de proteção e contenção do vírus, estamos disponíveis para mudar hábitos e alterar rotinas, mas não sei até que ponto estamos dentro desta nova realidade dos cuidadores informais que, do dia para a noite, passaram a estar mais sozinhos à cabeceira, sem ajudas nem balcões, linhas telefónicas ou serviços disponíveis aos quais recorrer.

Em casa com os seus doentes, estejam ou não acamados, com pessoas deficientes e dependentes, ou a lidar com doenças graves como a depressão, entre tantas outras, é difícil não entrar em colapso. Se o burnout dos cuidadores já era uma realidade incontornável em circunstâncias ditas normais, agora tudo se agravou mais.

Vemos telejornais e lemos notícias sobre a escalada da violência doméstica e caímos na conta dos níveis de stress e agressividade provocados pelo confinamento. As estatísticas são de tal maneira assustadoras que nos obrigam a ficar mais atentos aos sinais e às vítimas potenciais. Sabemos, no entanto, que esta é uma realidade mascarada para fora, apenas vivida pelos que a experimentam e sofrem dentro de casa, mas é por termos a noção da desproteção crescente de crianças e jovens, mulheres, homens e idosos que podemos ficar alerta e denunciar.

Já a realidade dos cuidadores informais fica oculta numa espécie de obrigação moral que não ocorre a ninguém denunciar. E realmente não se trata de fazer denúncias, mas sim de reconhecer que esta é uma vivência erosiva, desgastante, angustiante, que também eleva os níveis de stress e multiplica as possibilidades de colapso físico e emocional.

Quem está habituado a cuidar de doentes ou faz esse tipo de voluntariado, sabe como os dias e as horas podem ser exigentes, verdadeiramente massacrantes para quem sofre, mas também dilacerantes para quem assiste ao sofrimento. Fiz voluntariado em unidades hospitalares durante muitos anos e sou ‘filha de cabeceira’ também há vários anos. Nunca foi fácil, nem nunca ninguém disse que seria fácil, mas estes meses de confinamento e distanciamento social marcaram um tempo extraordinariamente difícil para quem sofre e para quem cuida.

Se agora escrevo não é para reivindicar e, muito menos, para me queixar, mas simplesmente para pôr o foco numa legião silenciosa de cuidadores que de um dia para o outro também se sentem muito isolados. Alguns, até desesperados. Escrevo para iluminar os que estão na sombra e para tornar mais visíveis os que são, quase sempre, invisíveis. Para validar os seus sentimentos e as suas necessidades. Só por isso.

P.S.: Hoje, 12 de Maio, dia em que centenas de milhares de peregrinos se encontrariam em Fátima e milhões de crentes se ligam ao Santuário, estaremos todos no recinto, à mesma hora, com a mesma fé. Tal como o Papa Francisco celebrou a Páscoa sozinho em Roma, acompanhado pelos crentes de todo o mundo, também esta noite encheremos o espaço de Fátima e o faremos transbordar. Não haverá canto nem recanto que fique vazio.