O 22 de Março

Tinhamos esperança que não acontecesse, mas sabíamos que podia acontecer. Em qualquer lugar. A qualquer momento.

Londres sofreu ontem mais um bárbaro ataque terrorista. O “modus operandi” esse, faz-nos recordar Nice e Berlim. Um louco solitário com um carro e uma faca mata inocentes sem critério.

O tempo dos “11 de Setembro” deu lugar ao tempo dos “22 de Março”. De ataques terroristas planeados, passámos aos ataques imprevisíveis que, sem qualquer tipo de preparação ou sofisticação matam pessoas como nós.

Contrariamente aos “11 de Setembro”, os “22 de Março” não atingem os números ou a escala industrial dos primeiros, sendo no entando cada vez mais simbólicos.

Ontem estava em Londres e o pânico que senti não foi diferente do medo que tive a 22 de Março de 2016 quando estava em Bruxelas.

Nas semanas que se seguiram, e depois de regressar a Londres, lembro-me que nos dias imediatamente a seguir aos ataques de Bruxelas que mudei de carruagem do “tube” várias vezes, só porque não me sentia confortável em estar no mesmo lugar que um muçulmano. Quando saía do metro, ou do autocarro, e chegava ao escritório ou a casa sentia-me ridículo, racista. Depois percebi que não era mais do que humano.

Percebi que independentemente do meu comportamento, mais ou menos zeloso, não podia evitar absolutamente nada. O grau de imprevisibilidade destes ataques é tal que nos sentimos impotentes. Concluímos que a vida é feita de causas e efeitos que muitas vezes não controlamos. É como se tudo se resumisse à sorte ou à falta dela.

Passadas duas semanas, tudo, na minha cabeça, voltou ao “normal”. Foi a primeira vez que tinha estado numa cidade num dia em que houve um ataque terrorista.

Ontem foi a segunda vez. Mas hoje, quando entrei religiosamente no “tube” de Old Street às 8h39 não pensei mudar de carruagem. Peguei no jornal “Metro” e comecei a ler durante os 11 minutos que tenho até chegar ao escritório.

Tenho medo de morrer mas não posso nem quero deixar de viver. Não posso, nem quero sentir que a minha liberdade está a ser condicionada ou limitada por mim ou por loucos, doentes, terroristas, gente desprezível.

Mas então o que é que devemos fazer? Nada. E com isto não digo que não deva haver mais vigilância ou maior controlo policial. Pelo contrário. Mas, estaremos mesmo dispostos a mudar a natureza das nossas sociedades, das nossas cidades, das nossas democracias? Eu não estou. Eu não quero viver num Estado policial ou quase policial. Eu não quero viver num Estado que a pretexto da segurança limita a nossa liberdade e a nossa privacidade a mínimos próximos das ditaduras. Eu não quero viver num lugar que prenda suspeitos de terrorismo como mecanismo de prevenção de ataques. Repito: suspeitos e nada mais do que isso.

Estamos mesmo dispostos a deixar de ser aquilo que somos e aquilo que nos define como Homens? O ataque de ontem matou vários inocentes e feriu outros tantos, mas quantos ataques já não foram evitados e impedidos? Não sabemos e ainda bem.

É triste, muito triste, mas este é o preço que pagamos pela liberdade. Liberdade essa que não estou disposto a abdicar. Liberdade essa que nos define como homens e que nos distingue daqueles que nos atacam.

O discurso de ontem da primeira-ministra Theresa May resume tudo isto. E hoje reiterou-o com “We are not afraid”.

Perguntarão: e soluções, há? Haverá certamente, e muito já foi feito nestes 16 anos desde o 11 de Setembro de 2001. Maior partilha de informação entre agências de inteligência e segurança, e um aumento do orçamento de segurança interna são medidas necessárias que, mesmo limitando a nossa liberdade, são enquadráveis no quadro do Estado de Direito democrático.

A vida continua para aqueles que tiveram a sorte de não estar em Westminster no dia 22 de Março de 2017. E é assim que tem de ser. “Business as usual”.

Jurista, vive e trabalha em Londres