Aviso já: a ortografia não me desperta emoções fortes. Não entendo a forma como muitas pessoas reagem à nova grafia como se um larápio lhes tivesse invadido a casa, roubado as jóias herdadas da avó e grafitado os retratos dos solenes antepassados. Tanto mais que (provavelmente porque ainda não ocorreu aos responsáveis do ministério das finanças) é perfeitamente possível continuar a escrever com a grafia antiga sem que tal constitua infração punível com multa.

A minha adoção do acordo ortográfico foi inteiramente utilitária. Tinha um limite máximo de 2000 caracteres com espaços para textos que escrevia para um jornal, bem como uma dissertação de mestrado a meio (no início, para ser sincera, e também com limite de caracteres) e, como sou tendencialmente palavrosa e pouco sintética (repararam na redundância?) e sofro sempre a cortar textos, lembrei-me: por que não livrar-me das consoantes mudas para poupar caracteres? Desde então a reação dos leitores não se fez esperar. As idiossincrasias da minha escrita sempre foram aceites como, bem, idiossincrasias da minha escrita. Nunca ninguém resmungou do meu uso de uma ou outra expressão em inglês, da minha queda para os advérbios de modo, da mania de observações entre parêntesis. Mas com a nova grafia, oh, não houve alma das tais que sente apaixonadamente a ortografia que não se manifestasse: no facebook amigos lamentaram o meu parco discernimento; no blog questionaram as minhas capacidades cognitivas, sugeriram pertença ao BE e garantiram-me que não mais leriam qualquer coisa que escrevinhasse, nem sequer uma lista de supermercado.

Não tenho grandes defesas a fazer do acordo ortográfico. Por mim, usem, não usem, tanto me faz; leio ambas as grafias com bonomia. E vou continuar a usar alguns acentos da grafia antiga que me fazem sentido. Não sou linguista e não percebo nada da vantagem estratégica (adjetivo que não tem culpa de ser amplamente usado por António Costa) que a língua portuguesa nos trará para novamente dominarmos o mundo (numa grafia ou noutra). Sou uma alma simples e acredito mais na vantagem de cuidarmos do património arquitetónico e natural para trazer turistas a Portugal do que numa dúbia manutenção do grafismo purista da língua – para nos assenhorarmos da ONU? E tendo em conta que esta uniformização é decidida por técnicos, parece-me pacífico (a mim, que desconfio por princípio da ação de burocratas) que terá disparates à saciedade.

Mas também não tenho argumentos para defender a imutabilidade da escrita. As línguas vivas alteram-se, inventam-se novas palavras (correspondentes aos novos conceitos), esquecem-se outras; sobretudo, simplificam-se. Se alterações de grafia tivessem sempre causado tanta celeuma, estaríamos todos ainda a falar indo-europeu, numa bonita sintonia de Portugal à Índia, com interrupção ali pelo País Basco. Sou uma feroz defensora da propriedade privada, mas não me sinto proprietária da língua. Para mim, o Português é como umas certas pombinhas: de quem as apanhar. Tendo em conta que nós somos 10 milhões e que o futuro da língua portuguesa vai passar pelo poderio económico e populacional de Brasil e países lusófonos africanos, vejo como um exercício diletante a pretensão de determinarmos nós a língua, porque fomos nós que a inventámos e ensinámos. Há que assumir: nisto da língua portuguesa, nós já somos os penduras.

E só para testar a circunspeção vale acenar com o inglês britânico versus americano. Porque, meus amigos – e se calhar estou a dar novidades nefastas a alguém -, os britânicos são um bocadinho mais numerosos do que os portugueses e um tudo-nada mais ricos. Nem – e declaro aqui a minha falta de patriotismo literário – temos aquelas obras que são o melhor que se faz com a língua escrita (vulgo, livros) da qualidade dos autores britânicos. Sim, sim, Eça escrevia lindamente e retratou tão bem o país – mas há outros que escreveram igualmente bem e para conhecer o país basta-me sair à rua e ler os jornais.

Em todo o caso tivemos a nossa porção de magos da escrita, é verdade. Por isso aproveitemos para culpar outros da nossa desvantagem face à literatura britânica: os franceses. E fico-me, que é verão e queremos todos ir aproveitar o sol, nesta argumentação pelas personagens femininas da literatura francesa, que os portugueses tiveram a falta de senso e de gosto de copiar. (A inspiração nos franceses é, de resto, catástrofe nacional em vários pelouros.)

Temos três possíveis papeis bem estabelecidos. Ou somos ingénuas, castas, puras, sem pinga de maldade no coração – mesmo se, como Louise de La Vallière, nos amancebamos com o rei ou, como Marguerite Gautier, somos cortesãs – ou umas versões satânicas que almejam a infelicidade atroz de todo e qualquer cidadão de um país (e sexualmente dissolutas, que estas coisas vêm em lote – veja-se a Marquesa de Merteuil). Também se nos abre uma terceira via: a da adúltera, sempre exemplarmente punida (preferencialmente com um tortuoso caminho até ao suicídio) – como a Bovary, cujo castigo dos ímpetos pecaminosos nem poupou a filha. Moral: qualquer tempero apimentado da personagem feminina tem a ensaboadela merecida.

Ora chegamos aos escritores ingleses e deleitamo-nos com as deliciosas mulheres inteligentes, mordazes, resolutas, nem sempre preocupadas com os assuntos da virtude. E recompensadas (pelos seus criadores) não pela castidade ou pela bondade, mas pela capacidade de nos entreterem. A minha preferida é a Becky Sharp, de Thackeray, essa encantadora vigarista, mentirosa, adúltera, mercenária, alpinista social, cujo ato de caridade final para com a sensaborona e virtuosa Amelia se dá apenas para conquistar o seu semi-idiota irmão. Mesmo as heroínas de Jane Austen, todas boas meninas, não perdem de vista as vantagens de casar bem (i.e., com um marido rico) e têm manias ausentes das insonsas jovens ficcionais portuguesas: Catherine convence-se que o futuro sogro assassinou a mulher; Elizabeth insulta o homem mais rico do Derbyshire; Marianne apaixona-se por um mau rapaz e empenha teimosamente os seus esforços em morrer de amor, enquanto goza impiedosamente com o que será seu marido.

Mas rejubilemos: o universo tende para o equilíbrio. Há compensações por perdermos literariamente para os britânicos. A nossa gastronomia é a melhor do mundo e, metendo colheradas de açúcar e gemas na conversa entre Lucy Pepper e Helena Matos, podemos vangloriar-nos de sabermos apreciar a hecatombe calórica que é um rebuçado de ovo de Portalegre.