O que acontece quando nos chega correio (por exemplo uma carta dos impostos) para o anterior inquilino do sítio onde moramos?   Com probabilidade deitamo-lo fora; nalguns casos, devolvêmo-lo ao carteiro, para que se descubra o anterior inquilino.   As coisas estão bem feitas; os inquilinos sucessivos de um mesmo local têm normalmente nomes diferentes; não achamos que as cartas destinadas aos anteriores ocupantes da nossa casa nos sejam dirigidas.

Algumas pessoas no entanto acham também que as cartas que chegam à sua actual morada e em seu nome não são necessariamente para si.   Trata-se de pessoas que gostam de se referir a si próprias como o actual inquilino do seu corpo; que falam com desembaraço das várias pessoas que têm sido ao longo da vida; que acreditam que não têm nada a dizer sobre as várias coisas que na vigência do seu corpo disseram, pensaram ou fizeram.   Quando chega uma carta declaram ao carteiro que o destinatário já não mora ali.

A ideia parece excêntrica;  mas nalguns casos pode ter vantagens.  Uma lei sensata sobre falências, para dar um exemplo, é uma lei que se dispõe a considerar que em certas circunstâncias deixa de haver continuidade entre uma certa pessoa e quem no passado ocupou o mesmo corpo.  O inquilino actual escusa por isso de responder às cartas que foram mandadas ao inquilino anterior do seu corpo (com quem também partilha normalmente o nome).

Em diferentes lugares do mundo as leis e os costumes tratam de modo diferente a possibilidade de uma pessoa ser o inquilino temporário de um corpo.   Nalguns países uma pessoa cujo negócio faliu será toda a vida olhada como uma pessoa cujos negócios irão falir; e quem em pequeno roubou peras do pomar do vizinho será para sempre um ladrão.  Noutros entende-se que uma vez não são vezes; e que quem roubou as peras não prosseguirá necessariamente uma carreira de crime.    A ideia de regeneração tem à primeira vista um certo parentesco com a ideia de inquilinato de um corpo.

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A diferença entre os casos sensatos e a ideia excêntrica é a diferença entre existirem leis ou costumes partilhados sobre maneiras de tratar pessoas, e imaginar que quem eu sou depende apenas de mim.  Quando acho que quem eu sou depende apenas de mim acredito que posso despejar os anteriores inquilinos do meu corpo com liberalidade,  e substituí-los por quem acho que actualmente sou.

Como as minhas opiniões sobre o meu actual inquilino são quase sempre favoráveis, o único resultado desta lei do inquilinato é gerar propaganda a favor de quem actualmente sou.  Quem actualmente sou é como a última ideia que tive:  sempre melhor que a penúltima.  Parece pois prudente não deixar aos interessados a determinação de quem realmente são.   Não me deve caber a mim estipular quem é o actual habitante do meu andaime biológico.   Não somos os senhorios do nosso actual inquilino.