1. A notícia da nomeação de Adolfo Mesquita Nunes como administrador não executivo da Galp não me deixou desiludido, como aconteceu com João Miguel Tavares, mas apanhou-me de surpresa. Não estava à espera que uma das mentes mais brilhantes e politicamente promissoras da minha geração se rendesse aos encantos da vida dupla que muitos políticos gostam de ter entre o exercício da política e a defesa dos interesse privados das empresas que os contratam. E não estava à espera porque me parecia que o Adolfo era um político diferente dos restantes.

Ainda não sei se me enganei — o futuro dirá — mas certamente que passei a ter dúvidas sobre o diferenciação de Mesquita Nunes face à restante classe política.

Dir-se-á que a transferência de Adolfo Mesquita Nunes para a Galp não fere o regime de incompatibilidades que o próprio, por ter desempenhado as funções de secretário de Estado do Turismo, está obrigado a seguir — o que é verdade. Mas a questão não é legal. É ética — e, no caso de Mesquita Nunes, de credibilização da sua mensagem política.

Falando em termos práticos para o leitor perceber o que está aqui em causa. O que fará Mesquita Nunes quando o CDS discutir ideias para os setores energético e ambiental? Vai abstrair-se de tomar posições ou vai influenciar o partido para tentar acomodar os interesses privados da Galp? E quando estiverem em debate no Parlamento projetos-lei que coloquem em causa os interesses da principal petrolífera nacional? Adolfo vai declarar o seu conflito de interesses ou vai influenciar o sentido de votação em detrimento do que o colega espanhol propôs?

Do lado de Paula Amorim, a líder do principal acionista da Galp (Amorim Energia) que indicou o nome de Mesquita Nunes, não tenho grandes dúvidas sobre o seu objetivo em convidar um advogado que não tem experiência na área petrolífera: ter do seu lado um dos homens que estará no centro do próximo Governo liderado pelo centro-direita. Apostar agora para colher no futuro — é esse o lema de qualquer gestor que invista em políticos.

2. O pior para a imagem de Adolfo Mesquita Nunes é que esta ida do vice-presidente do CDS e ex-secretário de Estado do Turismo para a Galp insere-se numa longa, muito longa lista de políticos que, através da notoriedade e influência que conquistaram na política, dão o salto para cargos relevantes no mundos dos negócios — o que levanta uma série de questões que está na origem da descredibilização da política que cada vez mais os cidadãos sentem.

Desde personagens como Jorge Coelho ou Pina Moura à esquerda, ou José Luís Arnaut, Miguel Relvas e Paulo Portas à direita — todos eles simbolizam a promiscuidade entre a vida política e os negócios. Uns porque foram primeiro ministros do Governo da República para, anos depois, serem administradores de multinacionais nas áreas que anteriormente tutelaram (Jorge Coelho e Pina Moura) e outros porque a partir da influência que conquistaram nos Governos de Durão Barroso e Passos Coelho conquistaram lugares de destaque e de influência em negócios da economia nacional (José Luís Arnaut e Miguel Relvas). A intervenção e o conhecimento privilegiado dos principais negócios é sempre uma tentação para os políticos.

E depois há o caso especial de Paulo Portas — o homem que trouxe Mesquita Nunes, Assunção Cristas e todas as figuras abaixo dos 40 anos do CDS para a ribalta e que é uma espécie de eminência parda da direita portuguesa. Ex-líder do CDS e ex-líder da diplomacia económica do Governo de Passos Coelho, Portas lidera desde 2016 o Conselho Internacional do Grupo Mota-Engil, sendo responsável pela procura de novos mercados na América Latina. Isto além de ser administrador não executivo de diversas sociedades do grupo mexicano Pemex.

Ou seja, Portas não viu qualquer incompatibilidade entre ter liderado diversas embaixadas económicas enquanto vice-primeiro-ministro na América Latina durante o Governo Passos Coelho e a aceitação do convite da Mota-Engil — a empresa, pelo menos, não esconde porque o contratou: a sua experiência como governante. Ou seja, a sua rede contactos que construiu como governante.

O mais extraordinário é ver um homem, como Portas, que antes de entrar na política nem sabia assinar um cheque nem sabia gerir dinheiro, ser hoje conselheiro de multinacionais sobre investimentos de centenas de milhões de euros.

3. Há um ponto em que a Nova Direita que está em processo de gestação, e da qual Adolfo Mesquita Nunes é uma das principais caras, tem de ser absolutamente clara: a separação entre aquilo que é um projeto político reformista imprescindível para o progresso económico de Portugal e os interesses do poder económico.

Os interesses privados são obviamente legítimos mas qualquer projeto que queira mudar Portugal não passa só pela reforma do Estado e pela construção de um Estado mais pequeno, adaptado às capacidades económicas daquilo que o país produz e com uma interferência mínima na economia. Passa também pela construção de um Estado forte no campo regulatório que promova a concorrência e imponha regras iguais para todos os players dos diferentes mercados.

Logo, o Poder Executivo e Legislativo têm de ser independentes das grandes empresas e têm de estar concentrados na estrita defesa do interesse público — mesmo que seja necessário punir e sancionar as empresas privadas que não respeitem as regras do mercado.

Não vem mal ao mundo que Adolfo Mesquita Nunes queira seguir uma carreira no setor empresarial. Mas então deve abandonar a vice-presidência do CDS e o seu posto de conselheiro privilegiado da líder do partido (Assunção Critas) para se poder dedicar exclusivamente à defesa dos interesses privados da Galp. Ter um pé na política para conquistar poder e influência e outro numa das principais empresas do país é que não faz sentido. É mau para a imagem da política pela promiscuidade que potencia entre os interesses públicos e os privados — e é péssimo para o próprio Adolfo.