A propósito do confinamento a que a maioria de nós está sujeito, consultei a palavra confinar no  dicionário: confinar pode ser isolamento ou encerrar.

Perante isto veio-me à ideia um livro que li há alguns anos de um dos grandes escritores brasileiros Machado de Assis que escreveu O Alienista.

Aconselho vivamente a lê-lo e tem um enredo muito interessante e divertido mas com um propósito e uma mensagem que me transportou para a atualidade.

Resumindo, trata-se do Dr. Simão Bacamarte que estudou em Coimbra e Pádua e depois de ter acumulado sabedoria decidiu dedicar todo o seu saber à ciência em Itaguaí sua terra natal.

Regressou a Itaguaí e aos 40 anos casou com D. Evarista da Costa e Mascarenhas de vinte e cinco anos “não bonita nem simpática” com o intuito de deixar descendência. Mas passaram dois, três, quatro e cinco anos e nada de gravidez. Cansado de esperar para ser pai o Dr. Simão Bacamarte teve uma epifania e descobriu que o estudo psíquico ou da “saúde da alma” seria a ocupação mais digna de um médico.

Decidiu então construir a Casa Verde para realizar os estudos sobre a mente humana (aquilo a que durante muitos anos se chamou manicómio). Começou por internar alguns “loucos de verdade” e após muitas atribulações e histórias rapidamente chegou a 75% da população da cidade. Claro está que isto causou alvoroço na pacata cidade de Itaguaí.

Como não conseguiu encontrar alguém com a psique perfeita, exceto ele próprio, o alienista conclui…(leiam o livro).

Voltando ao tema do confinamento e do livro O Alienista recordo uma frase muito antiga: “O homem inventou o manicómio para os que estão cá fora pensarem que não são loucos”.

Deixo então aqui uma sugestão para que se abra uma daquelas contas solidárias das televisões para construir uma Casa Verde, digo manicómio, para confinamento de algumas personalidade distintas e que pela sua elevada sabedoria terão um  lugar assegurado: Donald Trump, Jair Bolsonaro, Kim Jong-un, Rodrigo Duterte e mais alguns seres alienados que nos têm feito corar de vergonha em muitas situações. Poderiam ter à sua disposição material para, aproveitando a sua sapiência, criarem uma máscara anti-disparate e servindo cada um  de cobaia desenvolverem uma lixívia injetável, com tomas ao pequeno almoço, para combater o coronavírus.

Com a retoma da vida na “nova normalidade” muita gente vai ter um regresso nada pacífico, como industriais à espera de encomendas, comerciantes desejosos de ter as lojas cheias, desempregados com ansiedade de conseguirem uma entrevista, concorrência feroz por negócios e clientes, e isto é uma mistura explosiva de irritação, stress, desorientação, desânimo e angústia que vai adubar um terreno fértil para que venha a surgir uma procura extraordinária de psiquiatras, conselheiros matrimoniais e também de livros de “auto-ajuda”. Atrevo-me até a antecipar alguns títulos apelativos, como por exemplo: Como Vencer a crise; 10 passos para ser o melhor gestor; Crie o seu negócio em 2 horas e três quartos; O empreendedor nº1, etc…

A ilusão de que podemos ter nestes títulos a “salvação” ou de sermos os melhores ao virar de umas páginas mais não é do que um enredo para vender livros e servir, isso sim, de auto-ajuda para o próprio autor aproveitando as fragilidades de quem está vulnerável e assim “auto-ajudar-se” com os proveitos das vendas.

Esperamos e desejamos estar a sair de uma pandemia mas, temo eu, a caminho de outras pandemias não menos contagiantes e perigosas como o desemprego, falências, depreciação de ativos financeiros e outras.

Razão tinha Amália Rodrigues ao cantar “estranha forma de vida”.