O Kremlin ameaça pôr fim ao diálogo político com a União Europeia, acusando Bruxelas de estar na origem de todos os males deste mundo. Como o ataque continua a ser a melhor forma de defesa, o regime russo vitimiza-se, tentando transformar o carrasco em vítima.

Esta semana, Serguei Lavrov, ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, declarou, a propósito das relações com a União Europeia: “Nos últimos vinte anos, nós mantivemos sempre o sentido de dignidade própria. Mas as pessoas que respondem pela política externa no Ocidente não compreendem a necessidade de uma conversa mutuamente respeitosa. Talvez devamos deixar de falar com eles durante algum tempo. Tanto mais que Ursula von der Leyen declara que não é possível realizar uma parceria geopolítica com as actuais relações. Se eles assim querem, assim seja.”

Esta declaração poderia ter algum fundamento antes da chegada ao Kremlin de Vladimir Putin, há precisamente vinte anos atrás, quando o Ocidente tratou a Rússia com algum desprezo e com alguma superioridade. Hoje, porém, são os dirigentes russos que espezinham o Direito Internacional.

Em 2014, as tropas russas invadiram e ocuparam a Crimeia a pretexto da “defesa da população russófona”, o mesmo fazendo no Leste da Ucrânia. Aqui, tal como fez na Ossétia do Sul, Abcázia e Transnístria, criou e apoiou movimentos separatistas que formam pseudo-Estados que garantem a influência russa nas duas primeiras regiões retiradas à Geórgia e, na última, à Moldávia. Ou seja, Vladimir Putin e a sua corte só respeitam o direito à inviolabilidade de fronteiras quando lhes é útil. Esse direito só funciona para a Rússia quando no seu seio aparecem movimentos separatistas. Neste caso, os povos já deixam de ter direito à autonomia e independência.

Fenómeno semelhante aconteceu muito recentemente, quando o Kremlin ameaçou enviar forças militares para a Bielorrússia, a pretexto de apoiar o “poder legítimo” do ditador Alexandre Lukachenko, mas, na realidade, para impor ao país vizinho o princípio da “soberania limitada”. O receio de perder a Bielorrússia para a União Europeia, leva Moscovo a ignorar completamente a vontade dos cidadãos bielorrussos.

Depois vem a propaganda russa justificar tudo com a “presença da NATO”, o “carácter agressivo do Ocidente”, etc.. Porém, nos casos citados, não foi a Aliança Atlântica que invadiu territórios estrangeiros ou ameaçou invadir, mas a Rússia.

A propósito, o Partido Comunista Português continua a apoiar fervorosamente essa política externa e, seguindo à risca a “voz do dono”, vira tudo de pernas para o ar para justificá-la.

“Para além da hipócrita e provocatória decisão [da União Europeia] de aplicar sanções contra diversos responsáveis bielorrussos, toda uma teia de ingerência se move na sombra, que encobre cínica e falaciosamente as suas reais intenções, servindo-se da fraseologia da democracia e dos direitos humanos – que são, afinal, tão profusamente desrespeitados pela UE”, lê-se no jornal Avante.

Segundo os comunistas portugueses, “como em tantas outras situações de cumplicidade com a agressão contra países e povos, assim como com operações golpistas, é no Parlamento Europeu (PE) que as intenções da UE se apresentam, apesar de tudo, de uma forma mais clara. Colocando-se em bicos de pés, o PE não só não reconhece os resultados das eleições e o presidente eleito na Bielorrússia, como pretende determinar em que moldes é que as eleições se devem realizar e quem é que ‘representa’ o povo bielorrusso.”

Será que o PCP ainda nos quer convencer de que há intervenções “boas” e “más”, de que a invasão da Checoslováquia em 1968 foi uma acção de “internacionalismo proletário” por parte da União Soviética e não uma agressão imperialista? Foi o PE que ameaçou invadir a Bielorrússia “para determinar em que moldes é que as eleições se devem realizar e quem é que «representa» o povo bielorrusso”?

Os comunistas não têm dúvidas quanto à resposta a dar: “Depois destes mimos, o PE tem a desfaçatez, não só de instar a Rússia que respeite o direito internacional e a soberania da Bielorrússia; como de expressar preocupação com o aumento dos investimentos da China neste país.”

Mas voltemos novamente à Rússia. O Kremlin jura respeitar o Direito Internacional, mas apenas aceita as normas que lhe são favoráveis. Vejamos o caso do envenenamento de Alexei Navalny, um dos principais opositores do regime autocrático de Vladimir Putin. Não são válidas as conclusões de peritos de três países (Alemanha, França e Suécia), nem dos especialistas da Organização para a Proibição de Armas Químicas, porque todas elas indicam que Navalny foi envenenado.

Além disso, o Kremlin passa ao contra-ataque e acusa Navalny de ter-se envenenado a si próprio a conselho de “serviços secretos estrangeiros”, acusando igualmente oo líder da oposição, bem como a sua esposa de trabalharem para esses serviços. Um dos “argumentos” utilizados pela propaganda russa para “provar” esta acusação” é que o sogro de Navalny trabalhou para os serviços secretos russos na representação diplomática de Moscovo em Londres!

Outro caso sintomático é o do derrube do avião da Malaysia Airlines nos céus da Ucrânia Oriental em Julho de 2014. Quatro anos depois, a Rússia aceitou participar numa comissão trilateral, com a Holanda e a Austrália, que investiga as causas da queda do avião comercial, mas, no dia 15 de Outubro de 2020, anunciou o abandono dessa comissão, porque os Países Baixos decidiram apresentar uma queixa contra Moscovo no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos. Ou seja, só aceita participar em processos que lhe deem razão.

Por outro lado, jurando fidelidade à decisão Nº 2166 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, a diplomacia russa “tenciona continuar a interagir com os órgãos competentes dos Países Baixos, nomeadamente no processo de investigação do que levou a Ucrânia a não fechar o seu espaço aéreo aos voos de aviões civis sobre a zona do conflito armado em Donbass”. Aqui a Rússia está mais segura, porque se os especialistas determinarem que o Kremlin esteve por detrás do derrube do Boeing, que provocou a morte de 239 inocentes, ela simplesmente vetará essa decisão.

Segundo o Kremlin, os dirigentes russos nada têm a ver com o assassinato de jornalistas e políticos russos como Anna Politkovskaya e Boris Nemtsov, com o envenenamento dos ex-agentes secretos Alexandre Litvinenko e Serguei Skrypal, bem como da filha deste último em Londres, com o aparecimento e fornecimento de armamento aos separatistas na Ucrânia e Moldávia. Assim como nada têm a ver com os mercenários russos que combatem em vários países africanos, nomeadamente em Moçambique e na República Centro-Africana.

Mas a verdade, mais tarde ou mais cedo, acaba por vir à tona. Pode demorar algum tempo, mas isso acontecerá, tal como sucedeu no fim da União Soviética.

A propósito, o Kremlin tem de “apagar o fogo” em mais dois locais da “sua” zona de influência: em Nagorno-Karabakh, para travar o alargamento do conflito armado entre a Arménia e o Azerbaijão e na Quirguízia, para deter os conflitos entre clãs mafiosos.