Caixa Geral de Depósitos

O Banco do banquete

Autor
  • Ricardo Gonçalves Cerqueira
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Nesta Caixa, banco do Estado, gerida por uma casta, o céu era o limite. À CGD dos negócios fáceis e do crédito ilimitado, tudo era permitido. Os filhos e afilhados do regime bastavam-se a si próprios.

De 2000 a 2015 a Caixa foi um bom banco para alguns portugueses. Não para aqueles portugueses que precisaram de crédito para adquirir uma casa, um carro ou para pagar os estudos dos filhos. Não para os portugueses que tinham uma pequena ou média empresa e precisavam de 100 ou 150.000 euros para alavancar o seu negócio. Não para os portugueses mais jovens que pretendiam arriscar e constituir a sua start up. Não, não foi para esses portugueses que Caixa foi um bom banco.

A Caixa foi o bom banco de alguns, não muitos, e nem todos portugueses. A Caixa foi da Artland, da holding Metalgest, da Investfino e de Manuel Fino, da Birchview e da QDL, destas e de outras sociedades como estas. Foi o banco dos portugueses Armando Vara, Santos Ferreira e Faria de Oliveira. Foi o banco do madeirense Berardo e da sua fundação, da Douro Litoral e da Júpiter. Foi o banco da Fercal e da Always Special. Durante vários anos, a Caixa, o banco do Estado, serviu meia dúzia de portugueses servindo-se de todos os outros.

Ainda não sabemos tudo, longe disso, mas as primeiras conclusões trazidas a lume pela auditoria da Ernst&Young deixam antever um banquete farto e uma fatura pesadíssima. Pesadíssima para os outros, não para aquela meia dúzia de portugueses a quem serviu.

Em 46 financiamentos considerados de médio e alto risco, a Caixa concedeu 2,96 mil milhões de euros de crédito. Entre estes, encontram-se operações aprovadas contra o parecer emitido pelo departamento de análise de risco do banco ou aprovadas sem qualquer suporte ou certificação técnica.

São também identificadas operações aprovadas sem informação relevante quanto à viabilidade económica e financeira dos projetos em causa, casos, por exemplo, de Vale do Lobo e da Aprirose na Quinta do Lago. Foram ainda concedidos créditos em que as garantias previstas no contrato eram insuficientes para assegurar o rácio de cobertura de 120%, como obriga o normativo aplicável.

De entre estes 46, há 18 créditos em que a Caixa teve de reconhecer uma perda superior a 50% do valor total emprestado e sete onde, pura e simplesmente, perdeu todo o dinheiro que emprestou. São os casos da Investfino, da FDO Construções, da Jupiter, da Always Special, da Soil, da Fundação Horácio Roque e da Fercal.

No relatório da auditoria está sinalizada a concesssão de créditos no montante total de 1.092 milhões de euros, cujas perdas registadas em 2015 são superiores a 50%. Neste lote, contam-se duas sociedades de um português – Comendador, por sinal – Joe Berardo. A sua fundação e a holding Metalgest representaram um crédito concedido na ordem dos 320 milhões de euros, que, em 2015, deram lugar a uma imparidade próxima dos 50%.

Temos ainda o português Manuel Fino a quem foi concedido um empréstimo de 180 milhões de euros para a compra de ações do Millennium BCP e os 200 milhões de euros concedidos à Finpro, do também madeirense Horácio Roque, para que integrasse o consórcio adquirente da Thames Water, concessionária de águas britânica.

O caso de Manuel Fino é, em si mesmo, ilustrativo de como o sentimento de impunidade e o despudor conviveram de braço dado nesta Caixa. Sobre a operação Fino, o relatório da EY sublinha a não observância de regras internas do banco, a começar logo no empréstimo inicial, em que os pareceres do departamento de risco não foram considerados pelo conselho de administração, o qual, ainda assim, aprovou a proposta de concessão de crédito a este português especial. Até hoje, está por identificar o fundamento e a justificação para a operação.

Nesta Caixa, banco do Estado, administrada e gerida por uma casta, o céu era o limite. À Caixa das sociedades veículo, dos negócios fáceis e do crédito ilimitado, tudo era permitido. A lei e o cumprimento de regras de governance não se aplicavam aos “chosen ones”, só aos outros portugueses. Eles, os filhos e afilhados do regime bastavam-se a si próprios. O lugar à mesa do banquete era seu por direito e filiação.

Esta Caixa, a Caixa que banqueteou meia dúzia e mandou a conta aos portugueses que nunca passaram da soleira da sua porta, tem rosto(s) e tem nome(s). Não os esqueceremos.

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