Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

Na apresentação do Programa de Governo na Assembleia da República, Siza Vieira prometeu que, em 100 dias, Portugal teria um Novo Banco (de Fomento). Seria um “banco verde”, como lhe chamou o número dois do Governo. Foi assim, a 30 de Outubro de 2019, que começou esta saga de insucessos que ainda nos deixa em suspense mais de um ano depois.

Esta ideia não era nova e já tinha sido desenhada por Silva Peneda e Vítor Gaspar em 2012, resultando, dois anos depois, na criação Instituição Financeira de Desenvolvimento (IFD). Uma instituição que Costa manteve ligada às máquinas – apesar de nos custar mais 2 milhões ao ano – só para não deixar vestígios de qualquer associação ao Governo de Passos Coelho.

Várias foram as estratégias socialistas para desacreditar a instituição, ao mesmo tempo que disparava nomeações de mérito duvidoso para outros sorvedouros de dinheiros públicos, de que são exemplo Beatriz Freitas na Sociedade Portuguesa de Garantia Mútua, Nuno Gonçalves no IAPMEI, Vasco Peixoto na PME Investimentos, entre outros ajustes de contas aos quais nem a Portugal Ventures escapou.

Na longa lista de nomeações pela máquina não ficaram de fora o Banco de Portugal, o Tribunal de Contas, o Banco Europeu de Investimento nem sequer a Procuradoria Europeia. Não existindo qualquer decoro e como o país assistiu calado, a vergonha virou regra…

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Talvez esta estratégia de controlo dos principais canais de distribuição de fundos nacionais e europeus encontrasse alguma resistência na IFD. Ou, se calhar, o problema era ser gerida por gente do Norte, distante da elite de Lisboa. Nunca saberemos muito bem o que levou à diluição da IFD na SPGM (e não o seu contrário), logo quando a primeira começava a apresentar os primeiros sinais de atividade positiva com 2,5 mil milhões de euros de financiamento à economia.

Os 100 dias anunciados por Siza Vieira expiraram. Mas foi preciso esperar mais de um ano para que o tão aguardado Banco Português de Fomento (BPF) ganhasse forma a 3 de novembro último, sob a gestão interina da ex-assessora e presidente da SPGM, Beatriz Freitas. Pelo meio rebentou uma crise sem igual que afectou gravemente a quase totalidade das empresas portuguesas. Numa realidade paralela, a Comissão Instaladora do Banco de Fomento andou mais ocupada a fazer mudanças de escritórios e ajustes diretos megalómanos para consultoria e imagem.

Hoje, 100 dias passados desde os 100 dias que o não foram, temos um site, um logo e duas ou três promessas iguais ao que já se fazia antes. De estratégia não se fala, mas vamos ouvindo declarações de que o banco fará investimento direto em empresas escolhidas a dedo (por uma equipa completamente dependente do Governo). Onde é que já vimos este filme?

Perante uma total incapacidade ou desinteresse para encontrar gente experiente, qualificada e independente, tudo indica que Siza Vieira decidiu manter Beatriz Freitas como CEO do BPF, sem perfil nem experiência relevante. E ninguém parece perceber que o rei vai nu. Já não falo da CRESAP, mas nem Belém apela à ordem e à moral?

Mais do que nunca, Portugal precisa de escolher os seus melhores – na banca e no capital de risco, em Portugal ou em Bruxelas – para servirem e liderarem este processo essencial para a recuperação da economia portuguesa. Alguns nomes como Horta Osório, Silva Peneda, Carlos Moedas, Esmeralda Dourado, Vítor Bento, Clara Raposo, Artur Santos Silva, Leonor Beleza, ou Daniel Bessa teriam muito a acrescentar.

Até lá, as nossas empresas aguardarão pacientemente por uma resposta coordenada e eficaz, capaz de gerar um estímulo ao investimento privado sem pôr em causa a sustentabilidade das finanças públicas. Oxalá então não seja tarde demais!