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O silêncio possui qualidades diferentes. Ora, pode ser inquietante, ora pode ser tranquilizante. Existem silêncios ensurdecedores pelo ruído interno desconcertante. Silêncios escuros e angustiantes, sem qualquer sinal de presença de outrém, que inundam a alma com a sensação de desamparo. Provocam sentimentos de extrema solidão e eventualmente alguma tristeza. Silêncios podres. Mas, também há silêncios reconfortantes e pacificadores, sinal de pensamento e esclarecedor de ideias, fruto de um trabalho reflexivo e introspectivo. São silêncios mais criativos e luminosos. São uma via para nos ouvirmos por dentro. É na quietude do silêncio, sem interferências externas ruidosas que alcançamos respostas  talvez mais verdadeiras. Silêncios de ouro.

O Silêncio, de Bergman, filme de 1963, espelha a escassez das palavras como tradutor da angústia perante o  prenúncio de morte da irmã mais velha. Não há-de ser por acaso que o enredo se desenrola numa terra de língua estrangeira completamente desconhecida. A comunicação é preponderantemente feita por gestos e olhares. A palavra reconhecível em ambas as línguas é música, sendo o que se ouve do mais bonito que há de Bach. (E não esqueçamos que na música o tempo de silêncio também é uma nota entre outra nota a ser ouvida). A tensão entre as duas irmãs, entre o corpo incandescente da mais nova e o corpo doente da mais velha que está a morrer, ocupa, silenciosamente, o lugar da linguagem. Torna-se impossível traduzir em palavras a dor das duas personagens femininas e da criança, o filho da irmã mais nova, que lá através do seu desenho mostra quanta aflição também guarda dentro de si. Nem o grito às portas da morte é audível. Retrato da qualidade de um silêncio arrebatador.

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