Brasil

O Brasil não é para principiantes

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A dúvida do grande empresariado é se um segundo governo Dilma não será tentado a uma fuga em frente, usando a poderosa máquina financeira do Estado, fazendo renascer o espetro maior da inflação

A expressão em título é de António Carlos Jobim que, além de génio musical, era um sábio das coisas da vida. O Brasil é uma realidade altamente complexa, não apenas pelo intrincado do seu tecido social e político mas, essencialmente, pela sua natureza mutante, que, de um dia para o outro, constrói inesperadas vagas de realidades que põem em causa o que, ainda na véspera, era um sólido adquirido. Foi sempre assim e essa é a graça desse grande e inigualável país.

Recorde-se a sociedade brasileira nos meses que antecederam a “Copa” de futebol, a agitação simultânea nas ruas de muitas cidades de um país que é quase um continente, o quase descontrolo então demonstrado pelos agentes políticos, em face de um movimento que as redes sociais pareciam ter tornado imparável. Alguns acreditavam que já nem a “Copa” poderia amainar esta tempestade, que era o claro produto de uma frustração gerada pela esperança de um salto de qualidade dos instrumentos públicos de apoio à vida coletiva que, afinal, não estava, nem está, ao voltar da esquina. Segurança, saúde, educação, transportes, justiça e outras políticas públicas, se bem que com sensíveis melhorias, medidas à luz do tempo, continuavam bem distantes do tal “primeiro mundo” pelo qual os brasileiros teimam, e bem, em medir o seu percurso histórico.

E, no entanto, ao primeiro apito do árbitro da “Copa”, a rua serenou. Nem a deceção que foi o desastre do “escrete” brasileiro pelos campos desencadeou a onda de revolta que, de acordo com certos oráculos, varreria o poder e talvez trouxesse mesmo a anarquia, à falta de uma alternativa estruturada, capaz de responder politicamente aos diversos e contraditórios tipos de “enragés”.  

Olhe-se agora para o minuto antes da queda do avião que transportava Eduardo Campos: Dilma Rousseff tremia nas sondagens face a um Aécio Neves que prometia a grande desforra histórica de Fernando Henrique Cardoso, numa segunda volta de “todos contra o PT”. Campos vegetava pelo fundo das folhas de cálculo político. Em seguida, o avião caiu. A clara jogada oportunista que fora a inclusão Marina Silva numa “chapa” que era, por essa mesma razão, a mais incoerente das três candidaturas, transformou-se, de um dia para o outro, numa alavanca automática de promoção à antiga ministra do Ambiente de Lula, à fundamentalista “verde” que, afinal, já era capaz de pactuar com o agro-negócio. A emoção havia feito disparar a imagem de alguém que o Brasil parecia ter descoberto naquele instante, quando, afinal, a já conhecia de há muito. Entretanto, Aécio “depencou” nas pesquisas de opinião. “O avião de Campos caiu na cabeça de Aécio”, dizia-me um amigo brasileiro, com o cruel humor local.

A onda traz e o vento leva, reza uma bela história pernambucana. Pressionada com êxito pela implacável máquina do PT, gerindo com solidão as suas recorrentes contradições, Marina Silva foi-se esfumando no apoio popular. Lula, o mais genial “leitor” da realidade brasileira, surge mais abertamente a dar a esperada ajuda à festa de Dilma Rousseff. E a estrela da recandidata volta a subir, com Aécio Neves a não ter ainda exatamente a mesma sorte.

Há cinco anos, confirmando a lenda de que era capaz de “eleger um poste”, Lula conseguiu transformar uma fria tecnocrata esquerdista, que até algum PT olhava de lado, na presidente (ou “presidenta”) que muitos achavam difícil de ser “vendida” a um país que ainda estava órfão da sua afetividade. Claro que, para tal, teve a inestimável ajuda de José Serra, o suporífero candidato que a direita inábil selecionara. Roussef era uma continuidade de Lula confortável para os negócios, que, embora com algum crescente desgaste, conseguira federar o “cocktail” de forças partidárias que integram o seu mastodôntico governo e que, à época, parecia capaz de pilotar um Brasil que se agigantava no seio do G20, nesse tempo de glória dos emergentes face a um mundo em crise sem fim à vista.

Esse mundo entretanto mudou, os emergentes perderam algum “glamour”, os capitais voltaram a favorecer sociedades mais previsíveis. O Brasil declinou na esperança e, com alguma ironia, muitos brasileiros começaram a pôr em causa precisamente quem os impulsionara pelos degraus sociais e, dessa forma, lhes induzira maiores ambições. Não tivesse o antigo presidente passado por provações de saúde, estou certo que Dilma Rousseff não teria sobrevivido a esse período e hoje seria ele a liderar, com grande distância, as sondagens. Rousseff provou ser hábil, não colocou em causa os mecanismos de repartição patrimonialista que fazem parte do ADN do sistema político brasileiro, mas definiu “red lines” em termos de corrupção que lhe deram a possibilidade de ser vista como saneadora de alguns costumes mais sórdidos. O sistema brasileiro, como atrás referi, é muito complexo e, sem algum sentido de compromisso com os seus hábitos, nenhum político tem possibilidades de sobreviver. E isto, verdadeiramente, nunca poderá ser explicado abertamente aos brasileiros, se bem que todos o pressintam. Como o caso do “mensalão” provou à evidência, só os exageros começam a ser eticamente punidos.

Domingo veremos a que distância Dilma Rousseff deixa os seus adversários, no termo do primeiro turno das eleições presidenciais. Tudo parece indicar que, a menos que um novo cataclismo atinja a política brasileira, ela conseguirá renovar o seu mandato. O mundo empresarial, a quem Aécio Neves agradaria naturalmente mais, ficará descansado com uma vitória da candidata do PT, a qual, para governar, terá de “costurar alianças” com o largo espetro dos partidos da futura “base de apoio governista”, onde todos “os interesses que interessam” ficarão sempre salvaguardados. A única questão que, ao que se sabe, atormenta o grande empresariado é a de saber se, face a uma potencial continuação do declínio do crescimento no Brasil, com impactos sociais a que seja imperativo dar resposta, um segundo governo Dilma Rousseff não poderá ser tentado a uma fuga em frente, em matéria de utilização da poderosa máquina financeira do Estado, que faça renascer o espetro maior da memória político-económica brasileira: a inflação.

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