A abstenção do PCP liderado por Jerónimo de Sousa possibilitou que o orçamento do Governo de António Costa fosse aprovado na votação na generalidade. Uma forma de retribuir as benesses que o Governo minoritário do PS soube distribuir pelo PCP e pelo seu braço sindical, a CGTP, permitindo-lhes a realização das comemorações do 1.º de Maio na Alameda e da Festa do Avante em propriedade própria no Seixal. Própria, sim, porque o património material do PCP é coisa digna de se ver.

Assim, depois de quatro anos a empurrar humildemente a geringonça onde não o deixaram sentar, Jerónimo de Sousa voltou a mostrar que o PCP vota sobretudo em função de interesses próprios. Aqueles que, em 2016, o levaram a lutar pela não privatização dos transportes coletivos de Lisboa e do Porto, vistos como indispensáveis para mostrar na rua a força do partido sempre que pretende lançar o caos automobilístico-laboral.

Como decorre da História, a atual atitude colaboracionista está longe de constituir a norma da atuação do PCP no Portugal pós-25 de Abril. Na verdade, depois da tentativa gorada de Álvaro Cunhal se apoderar do país através do processo revolucionário em curso, o PCP esteve sempre na primeira linha da oposição a todos os governos, independentemente do partido no poder.

Por falar em História, talvez convenha chamar à colação o exemplo de um outro Jerónimo, o chefe índio que nasceu em 1829 numa tribo Apache, os Chiricahua, na região do Novo México. Uma região que pertenceu ao México até 1848, altura em que passou a fazer parte dos Estados Unidos da América na sequência de uma guerra entre os dois países.

Jerónimo passou a maior parte da sua vida a lutar pela defesa do território que considerava pertença do seu povo.  Como não aceitava a presença dos colonos mexicanos primeiro, e estadunidenses depois, pegou em armas e resistiu durante três décadas aos invasores. Pelo meio foi obrigado a render-se, mas como interregno para regressar à resistência. Aliás, mesmo depois da rendição que se julgava definitiva ao general George Crook, em 27 de março de 1886, voltou a fugir e foram necessários mais alguns meses para a captura final.

A partir daí, foi exibido como atração em feiras internacionais.

Não é garantido que o Jerónimo do PCP conheça a história e a lenda da vida do Jerónimo apache, mas é inegável que existem pontos de contacto entre ambos, pelo menos na fase inicial. De facto, o comportamento político do operário Jerónimo quando ascendeu a Secretário-Geral do PCP não se afastou em nada da atitude do chefe apache. Daí as quase constantes greves e manifestações. Por isso, a obstinada oposição a todos os governos. Mudaram os tempos, mas mantiveram-se as vontades. Os interesses do grande capital a tomarem o lugar dos colonos enviados pelos governos do México e dos Estados Unidos.

Porém, num segundo momento, a miragem das benesses encarregou-se de suavizar o tom reivindicativo de Jerónimo de Sousa. As críticas ao executivo de António Costa perderam fôlego. As bandeiras e os slogans comunistas quase deixaram de marcar presença nas ruas e praças. A menos que fosse para comemorar.

Uma fase que se julgava passageira. Tipo rendição momentânea, como tinha acontecido no Novo México. Um erro de análise. A posição do PCP perante o orçamento costista como prova.

Como Jerónimo de Sousa se disponibiliza para ficar no cargo enquanto o partido quiser, talvez lhe convenha saber que, segundo a lenda, as últimas palavras do outro Jerónimo foram estas: «nunca devia ter-me rendido; devia ter lutado até à morte».

Afinal, passar os últimos anos de vida como atração de feira, é degradante. Mesmo que traga benesses.