Se eu disser que uma pessoa ganha mais porque sabe mais, isso vai parecer óbvio para quem me estiver a ler, excluindo os que acham que ganham pouco porque o mundo se uniu para os tramar. Muitos estarão a pensar que sim, mas isso também depende de quem são os nossos amigos, da sorte, etc. No entanto, irão concordar comigo, englobando tudo como conhecimento, pensando que podíamos ser um país mais europeu no que a exceções diz respeito.

Agora sigam o meu raciocínio. Como as pessoas que saem da faculdade ainda se lembram de quase tudo o que aprenderam, devem então ganhar muito mais do que uma com o mesmo curso que já conta 20 anos de carreira e que já esqueceu boa parte daquilo que aprendeu. As pessoas saem da faculdade, portanto, a ganhar muito e depois o seu ordenado vai sofrendo uma depreciação até atingir a altura da reforma em que esqueceu quase tudo. Certo?

Pois, não! As pessoas que saem da faculdade ganham muito menos do que as pessoas com o mesmo curso, mas com mais anos de carreira. Ora, se aceitamos que quem sabe mais, ganha mais e se juntarmos isso à evidência de que quem ganha mais é quem tem mais anos de experiência, temos a resposta óbvia. Vamos pegar na experiência dessas pessoas que auferem mais e vamos encafuá-la em cadeiras de faculdade para que os estudantes saibam desde logo tanto como vão saber ao longo da carreira. Passaremos, assim, a ter o cenário de ganhar muito à saída da faculdade e o ordenado reduzir-se à medida que o tempo passa (afinal, já sabem tudo) até à reforma. Simples, não é?

Depois de percebermos o disparate, vamos então à premissa inicial de que quem sabe mais, ganha mais. Só pode ser mentira. Mas não é. As pessoas que conseguem juntar aquilo que aprenderam na faculdade àquilo que foram ganhando com a experiência ganham, de facto, mais. O que está errado no raciocínio anterior, é que não conseguimos empacotar aquilo que entendemos como experiência naquilo que aprendemos na faculdade. A razão prende-se com algo que não consigo repetir vezes suficientes: economia não é o que se passa nas pessoas, é o que se passa entre as pessoas. Aquilo que uma pessoa vai construindo de experiência ao longo da vida não se consegue trazer para mais cedo no seu crescimento, porque é a interação com as outras pessoas. É aquilo que se construiu com os outros, trabalhando com os outros e que não é reprodutível, porque na próxima vez, “os outros” serão completamente diferentes e não faz sentido montar isso como formação académica. O capital de uma pessoa, aquilo que a torna produtiva, é mais do que aquilo que nós lhe metemos na cabeça enquanto estudante. É também aquilo que ela vai construindo em conjunto com os colegas, os clientes, os fornecedores; numa expressão, com a rede social que a rodeia.

Se percebermos o argumento com uma pessoa, então percebemos a razão de existência das empresas em termos abstratos. As empresas servem para que as pessoas comuniquem e construam coisas em conjunto. Quando ouvimos o chavão de que as empresas são as pessoas, não há nada de mais incompleto. A empresa é o que se passa entre as pessoas. Claro que as pessoas estão lá, mas se juntássemos as mesmas pessoas num pavilhão, sem mais, isso não iria fazer uma empresa. A empresa são pessoas que vão aprendendo a trabalhar com outras pessoas e ela vai crescendo à medida que essas pessoas sabem mais – e não o que aprenderam na escola -, mas do que trocaram e comunicaram entre si. Faz sentido, não é?

Agora, vamos fazer o inverso, mandando o conjunto de pessoas que constituem a empresa para casa. E, por motivos de clareza de argumento, vamos isolar as pessoas em casa ad aeternum. Continuam a trabalhar na mesma empresa, com o mesmo ordenado, a fazer a mesma coisa. Como já vimos, isso significa que a pessoa não vai saber mais, pelo contrário. Aquela que é a sabedoria que vem de comunicar e trabalhar com os outros deixa de existir. E aquela que já existia começa agora a desaparecer. Com a depreciação do conhecimento da pessoa, do seu capital, desaparece também o capital da empresa.

No outro extremo, temos a comunicação total, sem qualquer constrangimento. Claro que isto também não é possível, constrangimentos existem sempre, nem é possível assumirmos que aquilo que é possível fazer é infinito porque, nesse caso, a capacidade de cada um começa a experimentar os limites.

Em 2020, estamos algures no meio. Umas empresas mais próximas da situação normal (felizmente é o caso da empresa onde trabalho) e outras muito mais próximas do isolamento. Aquilo que estou a tentar transmitir a quem tem por responsabilidade a gestão das políticas associadas à pandemia é que se estão a olhar para medidas de produto, como o PIB do trimestre passado, deixem-me dizer-lhes com alguma ênfase que isso já passou. Aliás, se o PIB deste trimestre for semelhante, não virá daí mal ao mundo. Como as pessoas no Governo da República sabem perfeitamente, nada que um bom fluxo de euros a fundo perdido não cure e, para nós, nem precisa de ser um fluxo por aí além.

O meu problema não está no fluxo de dinheiro (impresso e necessário, devo dizer) que ajuda a esquecer os três ou quatro meses de férias forçadas para muitas empresas. O problema está no capital que estas empresas estiveram a consumir durante este tempo. A quantidade de trabalho conjunto, de comunicação entre as pessoas, de atingirem coisas em conjunto, que não aconteceu. Claro que todas as empresas terão o seu stock, quem já trabalhava em conjunto antes, tem alguma facilidade em fazê-lo à distância. Mas quem nunca o fez antes, ou não tem possibilidade de o fazer à distância, não vai recuperar o capital consumido. É que dinheiro imprime-se! Capital, não. E acho que ninguém sabe para quantos meses as empresas têm stock para que as suas pessoas continuem a fazer as coisas, separadas.

Porque quero eu, que as entidades que gerem a resposta à pandemia entendam isto? Porque nada disto se vai resolver com dinheiro holandês, moratórias ou apoios extraordinários. Isto leva muito mais tempo a recuperar, se recuperar. E à medida que as empresas vão consumindo o seu capital, o país, que não tem outro, vai pelo mesmo caminho. Incluindo os serviços públicos. Por isso, não me parece que nesta fase haja outra alternativa que não seja abrir tudo e proteger os mais vulneráveis. E abrir tudo, implica levantar as restrições tanto aos locais de trabalho, como aos negócios em si. Não há nada que salve o capital de uma discoteca ao abrir para vender croquetes.

Vai dar mais trabalho a gerir os contágios? Claro que vai e, se calhar, vai prejudicar o turismo. Mas a focarmos tanto no turismo, vão conseguir que acabemos todos a servir à mesa, já que será a única coisa para a qual teremos capital.