A esquerda radical está histérica com os acontecimentos no Brasil. Grita “às armas!” como não gritou pela Venezuela. Mesmo alguma gente da esquerda moderada faz o mesmo, sem tentar perceber porque é que FHC e Ciro Gomes se recusaram a apoiar o candidato do PT. E os “intelectuais” aprestam-se, como de costume, a “denunciar” e a “resistir”.

Convém recordar o que está em causa. Um ex-militar e deputado há dezenas de anos conseguiu, por circunstâncias várias, entre as quais uma facada, captar a atenção e as esperanças de uma maioria do eleitorado brasileiro e ser eleito Presidente da República. Fê-lo com um discurso contra a corrupção do PT, contra a agenda fracturante da esquerda e contra o crime violento. Da corrupção nem vale a pena falar. Sobre o crime violento, basta dizer que, em 2015, houve 55 mil homicídios no Brasil, um quinto do total mundial; os EUA, que têm mais população e a fama que se sabe, não ultrapassaram os 15 mil. Sobra a agenda fracturante, que é o que, verdadeiramente, enerva a esquerda. Parece que Bolsonaro disse que viver fechado numa reserva, como um animal no zoológico, não é destino para ninguém, nem para os índios. E que acusou o MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra de ser um movimento terrorista, que ignora a lei e ocupa propriedade privada com recurso à violência – o que é pura verdade. Além disso, manifestou-se contra a propaganda da ideologia de género que o governo do PT impôs às escolas.

Isto chegou para eleger o homem e chegou também para o acusar de querer matar os índios, perseguir os homossexuais, bater nas mulheres e ressuscitar a escravatura, além de subverter a Constituição e restaurar a ditadura; de ser, em suma, “fascista”. Esta atitude da esquerda, entre a denegação e o delírio, portas meias com a doidice pura, não a leva a lado nenhum. Enquanto grita contra o fascismo (e contra as fake news, as redes sociais, os evangelistas e o universo), perde a oportunidade de perceber o que querem os eleitores que votaram Bolsonaro. Faz mal. Quando as elites e o povo se desentendem, nunca são as elites que mudam de povo.

Médico

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