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CDS-PP

O CDS é o partido que não quer “ir longe demais”

Autor
  • Miguel Pinheiro
194

No novíssimo CDS fala-se em Adriano Moreira, em Adelino Amaro da Costa e em Lucas Pires. Mas o segredo para perceber o partido mais bem comportado do regime está em Freitas do Amaral.

Com o PSD em indefinição, com 20% de votos em Lisboa e com um congresso no próximo fim de semana, o CDS deixou, subitamente, de ser visto como o equivalente político do exército italiano, que perde todas as batalhas onde se mete. O regresso da velha promessa de dividir o eleitorado do PSD e seduzir a direita fez com que todos os aspirantes a Napoleão começassem a fazer revista às tropas.

Além da excitação e da ambição, paira no ar uma pergunta fatal: vai o CDS finalmente regressar às origens para depois, de forma heróica, conquistar o mundo? Aparentemente, todos acham que sim. Sem uma alternativa moderna ao “portismo”, resta um regresso ao passado, que parece sempre mais luminoso quando já saímos dele. Mas o problema é que os militantes do CDS mais agitados ignoram que origens foram essas e preferem refugiar-se em fantasias políticas.

Uns suspiram pelo conservadorismo cristão de Adriano Moreira, que vai ser homenageado pelo partido este sábado. Convém, porém, lembrar como essa história terminou: com a maioria absoluta de Cavaco Silva e com o CDS transformado no “partido do táxi”. Os pobres, que Adriano Moreira referia com abundância, preferiram enriquecer com o PSD em vez de receberem festinhas caridosas do CDS.

Outros sonham com o purismo centrista de Adelino Amaro da Costa, que se transformou no santo secular do partido. Mas talvez seja útil referir que a mais perfeita expressão do seu pensamento político e da sua teoria das “duas bossas do camelo” não é a AD de 1979, mas o Governo PS/CDS de 1978. Aliás, não por acaso, uma parte do CDS transferiu-se, com gosto, para o PS guterrista.

Por fim, há quem aspire ao liberalismo europeísta de Lucas Pires, que é visto como a promessa não cumprida de salvação do partido pela direita que se julga civilizada. Contudo, é bom não esquecer que o “pirismo” teve o enorme prazer de ser deglutido pelo PSD de Bruxelas e pelo centrão social-democrata do Parlamento Europeu, esquecendo rapidamente o liberalismo e, mais rapidamente ainda, o CDS.

Como se vê, cada um cria a “origem” do CDS que mais se adequa aos seus interesses e convicções — mas, curiosamente, ninguém lembra a verdadeira origem do partido, que se chama Diogo Freitas do Amaral. Isso acontece porque todos preferem esquecer que o CDS surgiu como o partido mais bem comportado do regime.

Depois do 25 de Abril, o PCP nasceu pela força da sua história, o PS pela força da sua tradição e o PSD pela força do seu líder. Os três já esperneavam e vociferavam poucos dias depois da revolução. Mas o CDS não. Freitas do Amaral esperou longos meses e só se decidiu a avançar, cheio de receios e de hesitações, depois de um dirigente militar do MFA lhe perguntar, de forma paternalista e impaciente, de que é que estava à espera para fazer um partido.

Houve apenas um momento em que o CDS se colocou na fronteira do regime moldado pela aliança PCP/MFA. Foi a 2 de Abril de 1976, quando votou contra a Constituição que instituiu o avanço inexorável de Portugal em direção ao socialismo. Essa decisão arrojada deu ao CDS o seu melhor resultado de sempre em legislativas: 15,98% de votos e 42 deputados. O que é que o partido fez com essa força? Nada. Preferiu regressar ao confortável colo do regime.

Aliás, não havia razão para equívocos. Logo no primeiro comício do CDS, em Agosto de 1975, em Vila Nova de Famalicão, Freitas do Amaral definiu na perfeição aquilo que o partido iria ser: “Somos, em suma, um partido disposto, em todos os domínios, a ir tão longe quanto for necessário, mas sem ir longe demais”.

Pelo que se tem visto e ouvido nos últimos dias, o novíssimo CDS, com ou sem Assunção Cristas, prefere continuar a ser o partido que não se atreve a “ir longe demais”. Para já, o PSD pode dormir descansado.

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