Fui buscar o título desta crónica a Jean-François Revel. Foi em 1988 que Revel escreveu La Connaissance inutile sobre as causas da ignorância generalizada num mundo em que a educação e a informação se tornaram acessíveis a praticamente todos. O que faz com que teimemos em ser ignorantes? O que faz com que aceitemos de bom grado as mentiras que nos contam? Por que motivo caímos vezes sem conta nos mesmos erros, repetimos as mesmas asneiras, acreditamos nas mesmas pessoas e nas mesmas soluções?

O mais espantoso no livro deste formidável ensaísta francês é a sua actualidade. Passaram 32 anos da sua publicação, mas a sua leitura torna-se necessária em 2020 e nos anos vindouros. O que não deixa de ser interessante, pois as críticas que Revel fez ao modo como as pessoas se deixavam enrolar nas mentiras pareciam ter caído por terra logo no ano seguinte, quando os povos de Leste saíram à rua e derrubaram, sem violência e com força da verdade, regimes comunistas que revelaram uma impiedade apenas igualada pelos fascistas. É verdade que os povos que derrubaram o comunismo não eram o alvo de Revel. Os povos de Leste, apesar de não terem acesso a uma imprensa livre (ou porque não tinham acesso a uma imprensa livre), sabiam que estavam a ser desinformados. Davam um enorme desconto ao que lhes era contado. Assim, um polaco, um checo, um húngaro, um alemão de Leste dizia que sim às autoridades, mas no seu íntimo (aquela parte de nós que as ditaduras e narrativas dominantes só mudam se as deixarmos aceder ao que pensamos e ao que sentimos) sabiam que não era assim. Havia outro mundo, existiam outras realidades. Vivia-se outra verdade que, essa sim, não era ficção. Jean-François Revel dirigia-se, pois, aos cidadãos ocidentais que recebiam de forma acrítica notícias e julgamentos sumários enganosos sobre as políticas de Ronald Reagan, de Margaret Thatcher e Helmut Kohl. Dirigia-se à imprensa que espalhava falsidades que hoje se apelidam de fake news e que consideramos uma invenção dos tempos modernos.

Talvez porque as mentiras que Revel denunciou tenham sido expostas com os acontecimentos de 1989, o livro ficou no esquecimento, as pessoas baixaram a guarda e a mentira e a desinformação continuaram. Ganharam espaço e hoje estamos novamente inundados de mentiras, meias verdades e de omissões. O fenómeno atingiu proporções tais, que vivemos em 2020, com acesso à internet e à educação universal, mas enganados porque o conhecimento inútil voltou a dominar-nos e nos atou a uma série de regras, algumas ainda de índole meramente social, outras já com força de lei, que nos impedem levar à prática a herança mais importante que a civilização ocidental nos legou: a capacidade de pensarmos, de questionarmos, de colocarmos em causa. De dizermos que não.

Foi porque deixámos de pensar e de questionar que o conhecimento inútil atingiu níveis alarmantes. Por exemplo, só um país muito distraído e com as cabeças dos cidadãos tão cheia de inutilidades sem qualquer interesse e relevância prática pode aceitar de bom grado um plano como o apresentado por António Costa Silva para salvar o país da derrocada económica. Há décadas que o Estado português se assume como o motor da economia e acredita que o funcionalismo público cria riqueza. Há décadas que se sabe que isso não é verdade. A ciência económica já o comprovou, tal como a experiência de vida, nossa e de outros milhões de pessoas que se sujeitaram ao suplício. Ora, depois dos anos que passaram, após três intervenções internacionais que vieram corrigir excessos estatais, o país continua, em 2020, a crer que um homem sábio consegue retirar o país do buraco financeiro se aplicar a velha fórmula do investimento público. Ainda há dias, António Costa Silva apresentou a versão final da sua Visão Estratégica para o Plano de Recuperação 2020/30. Não é difícil concluir que o plano, que não passa de um amontoado de generalizações, não vai ser aplicado e o seu destino mais provável é o caixote do lixo. No entretanto, deu para entreter.

Outro caso é o da discussão à volta da Flat Tax, apresentada pela Iniciativa Liberal. Francisco Louçã, que há anos que anda nisto de agir como político e se apresentar como professor de economia, surgiu na televisão a dizer que a Flat Tax proposta pela Iniciativa Liberal faria com que quem auferisse 800 euros por mês pagasse mais imposto. No entanto, se o Conselheiro de Estado Louçã lesse a proposta da IL saberia que tal não é verdade, que os mais pobres continuariam a não pagar imposto e, a partir de certo nível de rendimentos, até beneficiariam de uma redução quando comparado com o IRS que pagam actualmente. Quando se apercebeu do erro, Louçã passou a mencionar a proposta do Chega!, dizendo que é igual quando são diferentes. Refiro esta contradição entre os vários comentários que Francisco Louçã já fez, porque é uma das mais evidentes. Mas quem se der ao trabalho de ouvir e de ler o Conselheiro de Estado irá deparar-se com outras. Como é que tal é possível? Simplesmente porque alguns dos conhecimentos que Louçã propaga nos seus comentários são inúteis. O tal vício que Revel mencionava no tal livro de 1988. Passaram 32 anos, mas estes continuam. O conhecimento inútil propaga-se facilmente porque, como dizia Revel, nas pessoas o desejo de acreditar é maior que a necessidade de saber. É aproveitando-se dessa característica humana, perfeitamente natural, que políticos e comentadores como Francisco Louçã fazem política para a comentarem de seguida.

Mas, honra lhe seja feita, Francisco Louçã não está sozinho neste aproveitamento da fragilidade humana, sendo aqui acompanhado por André Ventura. Ao que parece o Chega! anunciou que vai propor uma revisão constitucional para “finalmente refundar o Estado” e construir um Estado “mais livre de impérios políticos, mais livre de clientelas políticas”. Nos finais do século XIX também surgiram defensores de ideias que vinham da Europa e que viam nos políticos portugueses de então uma série de pessoas que repartiam o poder entre si por meio de combinações e jogos políticos. No entender destas luminárias, os políticos estavam totalmente desligados da realidade e não tinham qualquer ligação com os comerciantes e agricultores, com as pessoas comuns. A partir da década de 1890, João Franco pegou nestas ideias e quis criar uma vida nova na política portuguesa que a refundasse de vez, de forma a construir um país livre de compadrios. O resultado é conhecido até porque, a partir de determinada altura, generalizou-se entre os políticos a prática discursiva de serem contra o sistema a que eles pertenciam e que, por estar podre, eles próprios se propunham refundar. Passaram perto de 130 anos e André Ventura apresenta-se como uma novidade, embora cheire a mofo. A história que Ventura nos conta passa como original pelas mesmas razões que passam a de Costa Silva e a de Louçã: porque conhecemos assuntos cada vez mais inúteis e que não servem para nada que não seja o de aprendermos com o passado e de não repetirmos os erros cometidos anteriormente. É esta inutilidade de conhecimento que explica também o que sucedeu na Convenção do Chega! no passado fim-de-semana, em Évora. A forma como André Ventura simulou o choro para convencer os presentes a aprovarem a lista da sua direcção. Ao invés de alterar a lista que fora chumbada, Ventura preferiu apelar ao sentimento, à emoção, chorou, na televisão deu para ver o brilho no olhar; quem estava presente, ou se horrorizou, ou entregou os pontos. E porque à terceira tentativa a lista foi mesmo aprovada, a maioria parece ter preferido acreditar e não querer mais saber. Tornaram-se inúteis, já que o seu conhecimento deixou de ser pensado, reflectido, mas imposto por um terceiro. Por um pretenso líder (que de líder tem pouco, pois não aceita ser questionado). O fenómeno não é novo, encontra-se nos manuais da história e não há motivos para tropeçarmos nele novamente.

Há outros casos semelhantes e até podemos sair da política e de Portugal só para variar um pouco. Em Hollywood estabeleceram-se novas regras para que os filmes e os actores possam ser merecedores de um óscar. De agora em diante, o que mais conta não é se o filme X ou Y é o melhor, não está em causa a escolha da melhor actriz, ou do melhor actor, mas se certas regras foram respeitadas, como o cumprimento de uma percentagem mínima de membros de minorias étnicas que devem estar presentes no filme. O critério mais importante não é se um filme é bom, mas se este conta com um número mínimo de mulheres e até de pessoas com deficiência que terão de fazer parte da equipa. Há uma lista de requisitos a ter em conta, que faz lembrar os melhores critérios soviéticos para a cultura. Poucos questionaram estas alterações ao ponto de terem sido aprovadas; ao ponto de, quando os óscares se tornarem inúteis, e alguém quiser saber porquê, a resposta não está longe, mas dentro de Hollywood.

Como é que nos libertamos do conhecimento inútil que, para nossa infelicidade, é natural? Com curiosidade. Espicaçando o gosto pelo saber. Desconfiando, fazendo perguntas, ouvindo, debatendo de espírito aberto. Não fechando portas ao que não se sabe e ao que não se experimentou, o que pressupõe desapegar-nos dos nossos ódios e invejas. Fala-se amiúde da integridade nos negócios. É  muito importante, não haja dúvida disso, não só porque nos devemos manter honestos, mas também porque a longo prazo ganhamos conseguindo melhores negócios. Mas a integridade tem também que ver com o conhecimento. Tem que ver com o não darmos por garantido o que nos contam. Isto é importante na vida de qualquer pessoa como na vida de qualquer país, seja este rico ou pobre. Mas é essencial na vida de um país que já se submeteu a três intervenções financeiras internacionais porque as políticas seguidas falharam. Seria tempo de questionarmos porquê e buscarmos, com humildade e conhecimento útil, outras soluções sem receio dos nomes que os que falharam vezes sem conta nos vão chamar. Por algum motivo eles não param de o fazer.