O que fazemos quando confrontados com algo tão ameaçador?

Dedicamo-nos a ansiosas pesquisas no Google, que depois ilustram as nossas preocupações coletivas: “Coronavirus” e “máscaras”. Mas também “vírus da cerveja corona”, “futebol”, e dúvidas hipster sobre se “a barba interfere na eficácia da máscara?”.

Aumentam as pesquisas por “Ações Netflix”, pois a possível quarentena implica também um maior consumo de entretenimento. Disparam as pesquisas por “Ações Zoom”, que já registam subida, com o uso desta tecnologia de videoconferência a aumentar exponencialmente dada a necessidade de trabalho remoto.

Mudam-se os hábitos de consumo. O “Purell Panic” esgota as máscaras descartáveis e o gel desinfetante, apesar do preço já inflacionado. O “efeito de contágio” esgota o papel higiénico.

Os mais idosos dedicam-se finalmente ao ecommerce, aos sabonetes antibacterianos e aos produtos alimentares “que ajudam as defesas”. A Organização Mundial de Saúde cria um canal no Tik Tok para combater a desinformação e chegar aos mais jovens.

A venda online de máscaras e luvas cresceu mais de 900%. Para evitar a exploração, o Facebook anunciou a proibição de anúncios que refiram “quantidades limitadas”, ou reivindicações promissoras de prevenir ou curar. A Amazon já removeu da sua plataforma mais de 1 milhão de produtos com alegações falsas ou preços inflacionados.

O primeiro surto verdadeiramente global?

“Cancelado” ou “anulado”: a Páscoa já não vai ser de férias na neve, na praia, ou de turismo religioso. Seja por precaução ou por risco, a mudança de comportamentos afeta o turismo e todas as outras indústrias.

Suspendem-se competições de futebol, ténis, basket, surf e grandes prémios de F1. Pondera-se adiar o Euro 2020 e quem sabe, os Jogos Olímpicos. Condicionam-se fronteiras e gravam-se êxitos musicais para relembrar a importância de lavar as mãos.

Globalmente, eventos absolutamente instrumentais para marcar o sucesso e os lançamentos das suas marcas, foram cancelados ou adiados.

Decisões conscientes e necessárias, mas que envolvem muitos prejuízos (em vendas, relação com patrocinadores, exposição aos consumidores, publicidade e imprensa), e a certeza de que, no seu eventual regresso, estes eventos terão que ser reformulados, pois vão perder o seu impacto.

O que fazer sem o Baselworld Watch Fair, numa altura crítica em que o Apple Watch já superou o total de vendas de toda a indústria suíça de relógios?

As marcas continuam a precisar de se mostrar e de garantir faturação, pelo que irão reinventar a sua promoção, recorrer aos meios digitais e democratizar os recursos. E se aprenderem a sobreviver sem todo o investimento financeiro, logística e preparação que exige uma feira, irão querer regressar a esse formato?

A tecnologia existente está a permitir o exercício mais massivo de trabalho remoto na história do mundo corporativo. Mas também está a reinventar o conceito de “presença” ou “participação”, através de live streams e teleconferências, com análise e monitorização de dados em tempo real.

Como prevenção, o “distanciamento social”. Como redenção, a “conexão virtual”?

O mundo está mais conectado do que nunca, e somos aconselhados a evitar a proximidade e o contacto como forma de prevenção. Mas continuamos a sentir o desejo inato de fazer parte de algo.

Utilizadores do Tinder em todo o mundo alteram a sua localização para “Wuhan, China” para conversarem com os locais, e assim ultrapassar os bloqueios de informação do governo chinês.

Dispara a popularidade de jogos que simulam pandemias mundiais, em que é preciso salvar, ou mesmo destruir a humanidade conduzindo estrategicamente o vírus: o Plague Inc. chegou ao top de downloads nos EUA e na China.

Com o encerramento das escolas, professores e alunos passam a poder aceder gratuitamente às plataformas digitais da Escola Virtual e Aula Digital da Porto Editora e Leya.

E na China desponta o movimento virtual “quarantine cooking”. Milhões de pessoas isoladas unem-se virtualmente numa nova forma de preparar comida com condicionantes próprias: a abundância de tempo e escassez de ingredientes.

Está também nas mãos das marcas reinventar o convívio e a “partilha virtual” como um mecanismo de alívio para a ansiedade, e manifestação do desejo de conexão desde o isolamento.

*Patrícia Soares da Costa viajou para mais países (51) do que anos de idade. É CEO da MARQUINISTA – a locomotiva das marcas e consultora trilíngue em branding, comunicação e turismo para governos, empresas, startups e agências criativas.  É oradora e mentora em vários programas internacionais de empreendedorismo, colecionando carimbos no passaporte e aceitando milhas aéreas como honorários.

O Observador associa-se à comunidade Portuguese Women in Tech para dar voz às mulheres que compõe o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.