Não, não me refiro a nenhum “crime” de Marcelo. Votei em Marcelo e não estou arrependida, nem espero arrepender-me. A história do “crime” vem no fim. Comecemos pelo princípio.

Agradaram-me os resultados eleitorais. A esquerda, em globo, foi derrotada. Salvou-se o Bloco, graças à notável performance de Marisa Matias e à inteligência política de quem vem dirigindo o Bloco. Afundou-se o PCP, com o pior resultado de sempre em eleições presidenciais. Foi obra! Não porque não tenha apresentado “uma engraçadinha populista” (cito Jerónimo de Sousa de memória), mas porque persiste em falar para um país e um povo que já não existem, salvo em Avis, que brindou o candidato comunista com a sua única vitória no Alentejo. Pobre Catarina Eufémia, já ninguém respeita a sua memória ou se lembra dela! O Partido Socialista – entenda-se: o partido – sofreu um desaire humilhante, que coroou um processo pré-eleitoral a todos os títulos lamentável, desde as habituais duplicidades de Costa até ao extemporâneo sobressalto revanchista de Maria de Belém. Quanto a Nóvoa, presumo e espero que se esfume para sempre na névoa de uma madrugada de Inverno.

Marcelo venceu em todos os distritos do Continente e Ilhas. Foi obra! Mas, ainda assim, parece-me menos obra do que ter-se o PCP sumido do Alentejo. Enquanto Marcelo fazia de morto e só comunicava tédio, nunca duvidei de que soubesse exactamente o que estava a fazer, porquê e para quê. Temos na Presidência um homem resistente: por mais que o instassem ou até espicaçassem para se pronunciar e prometer a imolação de Costa, foi falando, falando sem dizer nada, apenas abrindo excepção para dizer bem de Costa. Costa foi a última personalidade a falar na noite das eleições. Saudou com visível (ou indisfarçável?) satisfação o vencedor. Creio que foi a primeira vez que o homem me pareceu mesmo sincero. Não custa a compreender: saudava o seu candidato preferido. O partido perdera ominosamente. Mas, com isso, ele, Costa, ele ganhava. É obra! Talvez seja a maior obra das que já mencionei.

Já toda a gente percebeu que o futuro da “geringonça” se torna mais problemático a cada dia que passa. A ponte entre Bruxelas e os pseudo-aliados de António Costa no Parlamento não é estreita, é estreitíssima, e não tarda será necessário um teleférico para transpor o abismo cavado entre o despesismo exigido pela dupla Bloco-PC e a austeridade exigida pela “Europa”. Aliás, os desvarios financeiros do Governo, recenseados quase diariamente na imprensa, ou naquela parte da imprensa que acompanha o processo de “reposições”, “reversões” e, de um modo geral, de destruição sistemática dos travões à despesa pública introduzidos pelo governo de Passos Coelho, suscitaram já em muitíssima gente o receio, fundado, de que esta aventura esquerdista acabe a não muito longo prazo num novo resgate, ainda que com um nome diferente. Dos “procedimentos por deficit excessivo” impostos por Bruxelas, altamente limitativos da nossa liberdade de acção, já ninguém nos salva. E, para além do mais, ninguém gosta de “governar” às ordens de terceiros, submetido à chantagem de terceiros, exposto às greves políticas convocadas por esses terceiros que são supostamente aliados. Em suma, Costa já deve estar farto de ter que negociar diariamente, medida a medida, o que pode ou não pode fazer, e, sobretudo, ouvir o que é obrigado a fazer. As “posições conjuntas” assinadas com o Bloco e o PCP em Outubro passado devem ser agora um fardo muito maçador. E arriscado. E perigoso. Serviram para chegar a primeiro-ministro. Não servem para continuar.

O resultado das Presidenciais deixou claro que o País digeria mal a guinada esquerdista radical que levou Costa ao poder; e que desejava reequilibrar o que estava manifestamente desequilibrado. No sóbrio discurso de vitória pronunciado na noite das eleições, Marcelo enunciou, ponto por ponto, as suas prioridades. Com muita arte e muita diplomacia, não se refugiou na retórica ociosa com que a generalidade dos candidatos nos quis entreter durante a campanha. Foi substancial, sem ofender ninguém. Se alguma coisa ficou bem clara, foi a firme intenção de reintroduzir o diálogo e o compromisso como modus faciendi e modus vivendi na política portuguesa. Cavaco Silva tentou, como sabemos, mas falhou devido à fraqueza do líder socialista de então. Porém, as circunstâncias mudaram, e o que Seguro não pôde convém agora a Costa, porque pode ser para ele uma carta de alforria. A maior parte do país, a avaliar pelos resultados eleitorais, não aprecia radicalismos nem aventuras esquerdistas e veria com bons olhos um “Bloco Central”, ainda que com outro nome e não formalizado e até menos “denso”: bastaria uma “entente cordiale”, mesmo um simples pacto de não agressão condimentado com uma redistribuição parcial dos “jobs for the boys”.

Resta, porém, a árdua tarefa de convencer o PSD a colaborar. Por outras palavras, resta a árdua tarefa de afastar Passos Coelho. Não será tão árdua assim – porque a política é o que sabemos – mas é, digamos, pouco limpa e exala um leve odor a traição. Afinal de contas, Passos cometeu a proeza de presentear o PSD, em coligação com o CDS, com uma vitória eleitoral em que um ano antes ou seis meses antes quase ninguém acreditava. Respeito e admiro Passos Coelho, e entendo que o país lhe deve muito. Vai custar bastante aos que da tarefa forem incumbidos (ou se incumbirem) desempenhar um papel nada bonito. Mais cedo ou mais tarde, os voluntários surgirão. A vitória de Passos Coelho poderá acabar, por ironia do destino, em derrota. A segunda derrota de António Costa poderá acabar, por ironia do destino, em vitória – como acabou a primeira.

Se isto que conjecturo, ou coisa parecida, vier a acontecer, é porque o “crime” compensa. Tristíssima moral da história. Por estas e por outras, como se costuma dizer, não consigo rejubilar com a eleição de Marcelo. Palpita-me que o simples facto desta eleição, ainda que o novo Presidente da República nem abra a boca, há-de concorrer para a consumação de uma injustiça histórica. E para sancionar a vulgarização da ideia de que em política vale tudo e de que a política paira acima de tudo: do bem e do mal, da verdade e da mentira, da honra e da desonra.