Rádio Observador

Pais e Filhos

O curriculum dos pais /premium

Autor
187

Num mundo em que os filhos nos pedem “Pai, vê aí, no Google, se Deus existe!”, temos de reconhecer que sermos pais é aquilo que mais nos torna “reserva natural da vida selvagem”.

O mundo ficou mais justo quando a ciência preencheu muitos lugares, antes, ocupados pela Igreja. E trouxe-nos a ideia de que a técnica podia, de tal forma, ajudar a sermos um bocadinho Deus que, com o tempo, criámos a ilusão de que, quanto mais ciência colocássemos em tudo aquilo que fazemos, mais capazes ficaríamos e tudo seria mais fácil. É claro que, com isso, tudo ficou mais tecnocrático. Mas, ainda assim, ficámos a ganhar.

A ânsia de pormos ciência em tudo e em mais alguma coisa talvez tenha, perigosamente, esquecido o lugar que Deus foi tendo no crescimento da Humanidade. E trouxe-nos uma nova categoria de pais: os pais com uma “aspiração a qualquer coisa de tecnocracia” nos seus gestos para com os filhos. Pais que frequentam escolas de pais. Pais que se queixam porque as crianças não nascem equipadas com manuais de instruções. E pais que procuram, avidamente, todos os livros escritos para pais (sobretudo, aqueles em que lhes são propostas leituras fáceis de educar, sem gritar, com felicidade, de forma positiva e cheios de optimismo) que, por vezes, faz com que, em muitos restaurantes, tenhamos crianças agitadas, numa algazarra acompanhada de guinchos, e com pais que lhes falam devagar, de forma, levemente, zen, com resultados nem sempre tão infalíveis como quando lhos “vendem”.

Percebe-se o dilema dos pais: ao contrário de tudo aquilo que fazem, profissionalmente, falta-lhes curriculum. Têm poucos irmãos. Poucos filhos. São pouco tios. E são pais cada vez mais tarde. Logo, não têm nem uma certificação de qualidade nem experiência para serem pais. Sobretudo, perante a arte milenar de cuidar das crianças: qualquer coisa entre serem artesãos de sentimentos, costureiros do sexto sentido e aprendizes da arte de marear com a ajuda de simples sinais. Diante da qual lhes sobram blogs a resumirem a vida mental às neurociências, em que ninguém lhes parece recordar que a intuição humana é o topo de gama do “equipamento de base” que têm dentro de si e onde não lhes recordam que não há GPS que substitua o sentir dos pais quando dizem: “vou por aqui!”. Ou seja, num mundo de curvas normais, tabelas e certificações, há qualquer coisa de “jurássico” nisto de educarmos. Em função do que os pais – que, por vezes, se sentem com demasiadas qualificações para determinadas funções – acham que a sua formação parece não acompanhar todos os desafios que uma criança sempre lhes coloca.

Para complicar tudo um pouco mais, os avós – sendo, aos olhos dos pais, muitos menos “qualificados” – têm uma experiência no desempenho da função de pais que lhes dá uma sabedoria (não-certificada, é certo), que é duma utilidade sem fim quando se trata de se sintonizarem com os netos. E, para agravar, ainda mais um bocadinho, tudo isto, os pais estão demasiado habituados a estruturar um curriculum, onde citam, sobretudo, as coisas boas que já fizeram. E, a par, quase sem darem por isso, vão acumulando um outro “curriculum”, feito de fotografias do Instagram e de posts do Facebook, onde em todos os momentos parecem ser seguros das suas opiniões, felizes e sorridentes. E onde tudo (até as sopas!) é muito bonito.

Um dia, passaremos a exigir, associado a tudo o que já fizemos de bom, um curriculum de falhanços. As coisas que ansiámos ser capazes de realizar e que acabaram num enormíssimo fracasso. As vezes em que fomos a jogo e perdemos, sem apelo. Aquilo que tentámos concretizar e que, por preguiça ou por medo, se ficaram só pelas intenções. Mas que, mais do que tudo o resto que realizámos com boas notas, ajudam a perceber que fomos tenazes e perseverantes, e tivemos a garra de não deixarmos de aprender com os erros. Até conseguirmos tudo o que fizemos bem feito. E que, mais do que todas as vitórias, nos formataram para a sabedoria.

Ora, quando os pais confidenciam que não há nada de mais difícil do que sermos pais, eles têm razão. Mas é, sobretudo, mais difícil quando os pais se imaginam sem qualificações certificadas e sem “técnica” para o serem. E, ao contrário dos “tutoriais” que acabam por ter acerca de quase tudo, acabam a fazê-lo da mesma forma – empírica e intuitiva (e, às vezes, muito assustada) – que os seus antepassados mais remotos já utilizavam.

Sermos pais não é uma carreira; é um estado de espírito. Que não se atinge à margem dos erros. Bem vistas as coisas, fazemos curriculum, como pais, sobretudo com erros e falhanços. Por outras palavras, nunca estamos preparados para sermos pais! Nunca somos pais da mesma forma duas vezes. Nunca somos pais à margem dos erros, dos enganos e das dúvidas. Nunca somos pais se andarmos sempre à procura de nos certificarmos daquilo que somos capazes de fazer de cada vez que somos pais. Ou se transformarmos os filhos numa outra “carreira” onde os sucessos das crianças pareçam servir – quando não deviam! – como acrescentos ao curriculum dos pais.

Num mundo em que os nossos filhos nos pedem “Pai, vê aí, no Google, se Deus existe!”, reconhecer que sermos pais é aquilo que mais nos torna “reserva natural da vida selvagem”, faz com que seja muito difícil, para todos, sermos pais. (É tudo muito sentido. Muito “olhos nos olhos”. Muito conversado. Muito intenso. Com muitos conflitos. E muito comovente!) Não, os filhos não são difíceis; difícil é a exigência de sermos pais, no século XXI, sem as dificuldades “jurássicas” de todos os pais. E, no entanto, técnica à parte, não há mais nada como termos um filho ao nosso colo e falarmos com ele à margem da necessidade das palavras para nos sentirmos mais próximos de ser Deus! Há coisas – como isto de nos faltar sempre algum curriculum para sermos pais – em que as “tradições” ainda são como eram. Que bom! Não é?…

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros de órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Civilização

Mal educados são os outros /premium

Eduardo Sá
520

A mim inquieta-me que se cultive, em “português suave”, a ideia de que a boa educação representará um tique “de direita”. Ou que é, manifestamente, uma coisa característica das pessoas da província.

Crianças

A infância acaba aos 6 /premium

Eduardo Sá
6.135

Se continuarmos por aqui, e se não cultivarmos mais as crianças para o brincar, a infância pode estar “à beira da extinção”.

Crónica

Ninguém está preparado para ser mãe /premium

Eduardo Sá
5.672

Quem aceita que uma mãe, que se sente “Deus na Terra” sempre que aninha o bebé nos braços, está autorizada a estar “farta” e exausta de tanta exigência sobre ombros e ávida de um bocadinho só para si?

Crónica

Ninguém está preparado para ser mãe /premium

Eduardo Sá
5.672

Quem aceita que uma mãe, que se sente “Deus na Terra” sempre que aninha o bebé nos braços, está autorizada a estar “farta” e exausta de tanta exigência sobre ombros e ávida de um bocadinho só para si?

Pais e Filhos

Deixem a adolescência em paz! /premium

Eduardo Sá
13.813

Dêem-lhes tempo para ser adolescentes! Deixem-nos errar. Deixem-nos querer mudar o mundo. Deixem-nos ter sonhos. Deixem-nos pôr os pais em causa. Mas não deixem (nunca!) de ser pais. 

Pais e Filhos

Querido pai /premium

Eduardo Sá
172

O que não faz sentido, neste momento em que a “versão autoritária” do pai e a “versão submissa” da mãe estão em grande mudança, é que um e outro se “rendam” a um novo (pequeno) chefe de família

Pais e Filhos

O lado feminino dos homens /premium

Eduardo Sá
107

Pergunto-me o que é que aconteceria se nós chamássemos ao "lado de leoa" duma mãe, por exemplo, "o lado masculino" de uma mulher. Tenho medo que, de dedo em riste, alguém achasse sexista…

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)