Todos sabemos o que dizer do gestor português. A título de resumo, deixem-me adiantar que “os estrangeiros trabalham menos horas e produzem mais”, “quando vamos lá para fora somos os melhores, só cá é que não” e “ganhamos uma miséria comparado com os estrangeiros”. Posso-me ter esquecido de alguma, mas acho que o fundamental está aqui.

Não consigo dizer em que fase da nossa história se considerou que ser gestor é algo entre o alquimista e o físico nuclear. Existe uma espécie de magia de natureza científica que faz de um gestor um sujeito capaz dos maiores milagres e das maiores tragédias. Se uma empresa entra em colapso porque o produto não presta ou se tornou obsoleto, as causas nunca são essas, mas antes a “manifesta má gestão”. O gestor não soube tornar a empresa moderna, não soube contrariar a tendência descendente das vendas e, mais vulgar, não soube tornar a empresa mais produtiva. Nada disto aconteceria se o gestor fosse bom, mesmo que a empresa venda Tamagotchis a ceguinhos.

E o oposto também é verdade. O sujeito que gere uma empresa monopolista é um mago, um deus sobre a terra que consegue a maravilha de manter os proveitos acima dos custos, apesar de tanto uns como outros serem definidos pelo próprio. E vai correndo pelas páginas dos jornais até um qualquer evento que o faz descer no ranking, podendo cair na categoria de “manifestamente mau gestor”.

O facto de o leitor receber menos que o seu par estrangeiro, mesmo trabalhando mais (pelo menos é o que dizem as “estatísticas”) tem um culpado unanimemente declarado: o gestor lusitano. O problema não é definitivamente seu! Só pode ser, com efeito, de quem o manda fazer coisas, sem modernizar a empresa, sem contrariar a tendência descendente das vendas e sem saber tornar a empresa mais produtiva, para a resolução do qual o meu caro tem a sugestão de aumentar o seu salário. A lógica parece ser imbatível, não fosse um pequeno detalhe daqueles que não deixamos que estrague a história: é que o gestor também é um trabalhador que, comparado com o estrangeiro, ganha menos trabalhando mais e quando vai lá para fora também é bem-sucedido. E isto é uma chatice em termos de retórica.

Por isso, cá vai o apelo para que comece a pensar pela sua cabeça e não pela cabeça dos opinantes, a começar por este que não é grande coisa. O primeiro passo será, diria eu, percebermos como funciona uma economia. Você é tão mais produtivo quantos mais clientes consomem uma hora do seu trabalho. Se eu estiver a escrever estas palavras para 100 milhões de leitores dá-me o mesmo trabalho que escrevê-las para 100. Mas se cobrar 1 cêntimo a cada leitor, no primeiro caso ganho 1 milhão de euros, no segundo ganho 1 euro. Logo, consigo ganhar mais no primeiro caso e em vez de escrever este texto em português, deveria estar a escrevê-lo em mandarim ou inglês. Admitindo que era um sujeito letrado em inglês, pelo mesmo trabalho ganharia muito mais. Agora, como não sou, a mesma quantidade de palavras vai levar um mês a escrever, em vez de uma hora. Vou ter que trabalhar muito mais horas para escrever em inglês, ou vou ter que trabalhar um milhão de horas em português para ganhar o milhão de euros. Se escrever em inglês, posso até contratar mais pessoas para me ajudar e escrever uma “carrada” de textos ao mesmo tempo e pagar-lhes tanto mais dinheiro quantos mais leitores conseguir. Talvez passe até para 200 milhões ou 500 milhões! E quantos mais leitores eu conseguir, mais vou poder cobrar por palavra porque posso fazer um preço mais elevado com o crescimento da procura. Escrever em português é aquilo que me faz menos produtivo.

Ou seja, o facto de conseguir aceder a um mercado com mais pessoas faz com que mais pessoas possam consumir uma hora do meu trabalho. Os meus fornecedores que me ajudam nessa tarefa conseguem, também eles, mais dinheiro, já que a sua hora de trabalho canalizada por mim vale muito mais. E assim sucessivamente.

A diferença entre um trabalhador português em Portugal e um trabalhador português num mercado evoluído está precisamente no acesso ao número de consumidores – aquilo a que podemos denominar de tamanho do mercado, que nada tem a ver com o tamanho do país como os israelitas e dinamarqueses nos podem ensinar. Quer histórica, quer fisicamente, o acesso do trabalhador em Portugal a um mercado de tamanho razoável é muito limitado quando comparado com outros países de dimensão semelhante ou até muito menor. Em parte, explica-se por não conseguirmos aceder ao mercado espanhol, mas também porque temos um enorme lastro histórico no que a capital do bom (educação, formação, ciência, etc…) diz respeito, o que nos limita de forma superlativa.  Mas também pela língua, pela localização, etc.

Antecipando aquilo que está a pensar, a figura do gestor que achamos que o é por ser o neto do 8º visconde da Buraca ou pelo lugar na Igreja de S. António dos Estoris não é uma causa, é uma consequência. A existir, é causado pelo mesmo fenómeno de pequenez do nosso mercado em que se permite a sobrevivência subsidiada de muitas empresas que se tornam grandes e problemáticas à nossa escala. A existência de vantagem competitiva com base no pedigree é sinal de pequenez porque num mercado evoluído esse tipo de “frescura” é rapidamente eliminado pela competição.

Obviamente, nada disto é insolúvel. É uma questão de lutarmos para conseguirmos furar pelos mercados que são grandes, adaptando-nos para tal. Dezenas de países muito mais pequenos que o nosso e com populações que são metade da nossa conseguiram-no e têm produtos internos que são duas ou três vezes o nosso.  Se pegarmos em sectores da nossa sociedade conseguimos, de facto, ver o aparecimento de várias empresas que estão a conseguir furar e vencer o custo de ser português. Daqui para a frente é só uma questão de não estragar, ajudando-nos uns aos outros, já que tal irá sem dúvida nenhuma beneficiar todos. Isto porque à semelhança do meu hipotético fornecedor que me faria escrever mais palavras, nós, os que fornecemos os outros que conseguem furar, vamos beneficiar em grande medida.

Sabemos, no entanto, que à partida é difícil. Mais, – é muito difícil -, já que os custos são mais elevados para quem está num canto, entalado entre espanhóis e mar. Ajudar significa tornar o custo de ser português mais baixo. A forma de cada um de nós conseguir ajudar quem está a furar é providenciar formas de ultrapassar esse custo.

Infelizmente, o país está a festejar um orçamento de estado em que a carga fiscal, um adicional ao custo de ser português, vai crescer até um valor record, tornando as coisas ainda mais complicadas do que já o são naturalmente. Isso significa que vai ser mais caro conseguir proliferar, é mais caro ter fornecedores, é mais caro ter empregados, é mais caro estar em Portugal do que ir de armas e bagagens para um mercado maior. Cada euro a mais na cobrança de impostos é um euro a mais para sair do país ou um euro a menos se ficarmos. Ou, claro, podemos pôr a culpa no gestor por termos esse euro a menos para ganhar, até porque viver enganado nunca deixou de ser uma prorrogativa do português. Vamos andar a discutir se temos a maior carga fiscal do mundo quando é óbvio que, se somarmos isso aos demais custos de contexto, a vida do trabalhador português será sempre mais difícil quando comparada com a dos seus colegas estrangeiros. E está cada vez mais difícil. Para aqueles que são gestores, resta a hipótese de tentar entrar pelos mercados evoluídos e acreditar que ainda há alguma vantagem em fazê-lo a partir de Portugal, o que vai sendo, também, cada vez mais complicado de defender.

Fique o leitor descansado, porque a discussão da carga fiscal permanecerá em perceber se há ou não países com maior carga fiscal do que Portugal, como se o acesso aos consumidores fosse coisa de somenos nessa discussão, ou se vamos ter superavit orçamental ou não (devemos ser o único país do mundo em que o estado é mais importante do que o país) e vai haver zero, absolutamente zero, palavras sobre como isso vai afetar o número de clientes que vão consumir uma hora das suas.

Mas tal como todos os problemas, este também não é eterno. Os nossos filhos vão resolvê-lo da forma como já o estão a resolver. E como estamos em altura de festas, resta-nos a esperança de que nos venham visitar à nossa terrinha com estado superavitário…

(As opiniões expressas neste artigo são pessoais e vinculam apenas e somente o seu autor)
Co-Fundador da Closer, Professor e Investigador