Sem grandes surpresas, e com algumas irregularidades, Vladimir Putin sai vitorioso do referendo que lhe permite ser reeleito presidente por mais 16 anos. Todos sabíamos que não poderia ser de outra maneira. Desde que chegou a presidente da Rússia, já lá vão duas décadas, Putin soma vitórias atrás de vitórias, poderes atrás de poderes (alguns, é certo, referendados) e goza de uma popularidade que faz a maioria dos chefes de Estado do mundo corar de vergonha.

Quanto a Putin, não tenhamos dúvidas: o ocidente está dividido. E há duas narrativas prevalecentes que chocam de frente uma com a outra cada vez que se fala do Chefe de Estado russo.

A primeira é que Putin é um líder autoritário, que espezinhou a democracia que lhe foi oferecida porque ele próprio não está para liberalismos bacocos e acredita que a Rússia só se endireita com mão de ferro e um exercício duro e efetivo do poder. Não olha a meios para atingir os seus fins, seja a guerra aberta, sejam os chamados métodos híbridos, como o uso das novas tecnologias na era da pós-verdade para baralhar as contas das democracias. Quem sofre, de acordo com esta narrativa são, claro está, os russos, a quem não restam muitas opções se não obedecer ou sofrer as consequências. E também os estados transatlânticos, que Putin consegue dividir para reinar.

Outra narrativa é que a Rússia, não tendo tradição democrática, não teria possibilidade de sobreviver sem um ditador. E até nem está mal servida: Putin conseguiu tirar o país da bancarrota em que Boris Yeltsin o deixou. Os russos, na sua maioria, vivem melhor e com mais estabilidade, a classe média reergueu-se. Mais, Putin reestabeleceu o prestígio internacional russo, nomeadamente através do estabelecimento da uma esfera de influência (doutrina Medvedev‎‎), provou que tinha vontade política para a fazer valer (Geórgia 2008) e ainda a alargou o território russo pela força e pela anexação (Crimeia 2014) perante um Ocidente incapaz de reagir consequentemente. As sanções não chegaram para lhe travar os intentos, nem me parece que isso venha alguma vez a mudar, agora que os mercados internacionais são muitos mais abrangentes. Há quem veja Putin como um exemplo de uma espécie de autoritarismo iluminado, que vai fazendo falta aos estados democráticos com lideranças fraquinhas, a perder terreno para as ditaduras.

As duas visões têm um fundo de verdade – ainda que, pessoalmente, me oponha a quaisquer atropelos à democracia liberal. Timothy Snyder explicou muito bem a origem da legitimidade de Vladimir Putin num dos seus mais recentes livros: foi o primeiro – seguiram-se-lhe alguns – a pôr em prática a “política da eternidade”, uma narrativa que tem por base a ideia de que a alternativa aceite entre os estados mais poderosos do sistema internacional (neste caso a democracia) já não faz sentido e que a sobrevivência do Estado – neste caso da Rússia – depende de um líder carismático que a proteja do declínio civilizacional – neste caso da civilização ocidental – para que escapem ao destino inevitável – a decadência – de outros. Esse líder é Vladimir Putin, que nesta lógica de pensamento, tem todo o direito a perpetuar-se no poder o tempo que for preciso.

Esta narrativa é vazia de conteúdos políticos programáticos, mas cheia de três outros elementos: o culto da personalidade do líder, a certeza de que, sem o líder, uma espécie de pai da nação, tudo seria muito pior, e que este tem obrigação de dar à população estabilidade interna e prestígio internacional. Nisso, Putin não tem falhado. Como poderia perder um referendo que o põe no lugar que a maioria dos russos – que aceitam a narrativa de eternidade – considera justo?

Se for eleito nos próximos três mandatos – a probabilidade é evidentemente enorme – Putin ficará à frente dos destinos de Moscovo por 36 anos (foi também primeiro-ministro, ainda que a autoridade tenha sempre residido em si). Isto, se não houver mais nenhuma alteração constitucional significativa que lhe conceda a eternização.

Putin sagrou-se Czar da Rússia quando andávamos todos preocupados com a pandemia e com a disputa entre os Estados Unidos e a China. Um estudo publicado muito recentemente pelo ECFR mostra que, enquanto as perceções dos europeus relativamente aos americanos e chineses se deterioram significativamente, a impressão que têm da Rússia se manteve, no essencial, inalterada, e que Moscovo não tem grande relevância para os eleitores dos nove países europeus (incluindo Portugal) contemplados no inquérito.

Putin deu mais um passo rumo à consolidação do seu poder. De um poder autoritário e expansionista, que não hesita em imiscuir-se nos assuntos internos de outros estados se isso for do interesse nacional de Moscovo. De um poder que gera posições antagónicas no Ocidente que continuarão a surtir os seus efeitos negativos. Aqui mesmo, à porta da Europa. E desta vez, no que se refere aos europeus, fê-lo discretamente, passando pelos pingos da chuva.