Em 1990, a Comunidade de Países de Língua Oficial Portuguesa (CPLP), não satisfeita com o rumo que as palavras estavam a ter, lapidou um novo Acordo Ortográfico. O objetivo era claro: unificar o dialeto comummente partilhado pela CPLP.

Uma necessidade flagrante que assolava os países lusófonos, após reinantes séculos de desentendimentos idiomáticos. Por isso mesmo, sem se perder tempo, Portugal assumiu a dianteira e deu de imediato início à sua introdução, logo em 2009, com o Brasil a tomar o mesmo caminho.

No nosso país as escolas receberam o Acordo em 2011 e todos os organismos do Governo e respetivo a partir de 2012. O período de transição terminou em 2015. No mesmo ano Cabo Verde também confirmou a implementação do Acordo. Em 2016, Brasil e São Tomé e Príncipe tornaram-no obrigatório, ainda que este último, dada a pressa, a necessitar de compreensíveis ajustes.

Em 2016 Moçambique não ratificou o acordo. Em Portugal, “o cidadão Marcelo Rebelo de Sousa escrevia tal como escrevem os moçambicanos, que não é de acordo com o Acordo Ortográfico”. Mas o Presidente da República Portuguesa, na condição de representante da nação, já adotava em vez de adoptar.

Em 2016 Angola ainda não tinha autorizado o Acordo. No final do último ano a Academia Angolana de Letras era contra a ratificação do novo Acordo. Em maio último, a mesma instituição referiu que queria a inclusão “de aspetos da língua Bantu” no Acordo, que seguramente todos concordaremos como essenciais, e que “[este] não concorre para a unificação da grafia do idioma, não facilita a alfabetização e nem converge para a sua promoção e difusão.” Fora isso, é perfeito.

Já este ano, em Portugal, uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico entregou um documento para revogação do Acordo com mais de 20 mil assinaturas na Assembleia da República, que já foi registado como Projeto de Lei 1195/XIII. No Brasil, no mês de abril, a Comissão de Educação da Câmara dos Deputados aprovou um requerimento para a revogação do Acordo.

A necessidade de unificar era tanta, que após 29 anos da assinatura, há quatro países que ainda não aderiram e dois não sabem o que fazer com ele. Sobram dois (Cabo Verde e São Tomé e Príncipe) que talvez não se tenham apercebido de nada.

Neste particular, Portugal, movido pela genética veia conquistadora, assumiu o pioneirismo, seguido de perto pelo Brasil, ainda que com 19 anos de décalage. Resultado, o tratado originou uma reestruturação em muitos vocábulos que fazem parte do dicionário comunitário dos falantes de língua portuguesa. Em prol da unificação foi atribuída excelsa atenção às diferenças fonéticas existentes, o que levou a ceifar pela rama aparentes gorduras linguísticas escritas. Entre inúmeros exemplos, temos as palavras em que o C e o P eram

mudos e por isso desapareceram. Um ato ponderado e cheio de propósito. Por essa razão, em Portugal hoje temos recetor e no Brasil receptor, porque foneticamente eles precisam do P que nós dispensámos por causa deles. Faz sentido. Os meses do ano passaram a surgir em minúscula, o que também facilita o entendimento oral. O mesmo princípio foi aplicado aos dias da semana e aos nomes dos planetas.

Passaram-se quatro anos desde a implantação obrigatória do novo Acordo Ortográfico em Portugal e 10 anos desde que o período de transição foi iniciado e, perdoem-me a sinceridade, ainda não percebi o que aconteceu realmente.

Hoje há quem escreva pela antiga grafia, há quem escreva pela nova grafia, há quem não saiba que as coisas mudaram, há quem era melhor nem escrever e há quem misture as duas, criando uma terceira grafia.

Se não vejamos. O jornal Público, como meio de comunicação que é, escreve sob a antiga grafia, o Expresso, como meio de comunicação que é, respeita a nova grafia, o Correio da Manhã, como meio de comunicação que é, não respeita nada, e não falo propriamente da escrita, que é o menor dos males e que é inegavelmente vigorosa e impactante, e há muita gente que respeita o que bem entende, na salvaguarda do rodapé: o/a autor(a) do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico. Que é o mesmo que dizer, o texto é meu e a finura da minha escrita está à margem de imposições gerais. Entendo fascinante a pompa de soberba deste registo. Que dá para tudo.

É o mesmo que irmos à padaria e por baixo de duas carcaças ler-se: o padeiro executante deste pão não segue as novas medidas de sal das demais carcaças nacionais, definidas no último decreto lei. Ou ao banco: este bancário não se rege pela nova lei dos impostos aplicada aos demais cidadãos. Bem, neste caso…

Apesar de tudo, há um contributo evidente do novo Acordo Ortográfico. Linguisticamente muita coisa mudou em Portugal e a principal é que cada um hoje escreve como quer, coisa que antes não acontecia. Nesse sentido o Acordo é muito bem vindo, porque trouxe um cheirinho acrescentado a liberdade, em que cada um respeita mais ou menos o que quer na medida aproximada do que pretende.