Não tenhamos dúvidas: daqui a dias teremos um número de casos de Covid-19 igual ao que a Espanha atingiu hoje. Dificilmente Portugal não tomará as mesmas medidas que as aplicadas em  Itália, desde segunda-feira à noite. Não é uma questão para pânico, mas de se perceber que estamos confrontados com a forte possibilidade de cerca de 10% ou 15% dos infectados com o novo coronavírus precisarem de cuidados médicos intensivos. A carga para os hospitais será imensa. Assim, e tendo em conta que este coronavírus tem um período temporal de incubação grande e deixa muitos pacientes assintomáticos, é indispensável que todos façam tudo o que deve ser feito para que se evite o contágio. Principalmente entre os mais idosos e os com saúde mais fraca.

A grande maioria de nós (em Portugal excepciono quem combateu no Ultramar) tivemos uma vida facilitada e sem riscos. É difícil adaptarmo-nos a algo que nos exija contenção e sacrifício. Mas sem esse espírito de renúncia, sem esse altruísmo, o Covid-19 alastrar-se-á com resultados que de previsível só podemos imaginar o horror que serão os hospitais cheios e os médicos e enfermeiros estoirados e numa situação de risco permanente. Os sucessos  obtidos em Macau e em Singapura, que contaram com a adesão da população às medidas de contenção (evitando outras mais duras e mais forçadas, como as aplicadas na China) são um sinal encorajador de que, com tempo, paciência e consistência, é possível ultrapassar a ameaça do vírus.

Mas o desafio das nossas vidas não se esgota na luta contra o Covid-19. O tal espírito de sacrifício e contenção será também necessário para que se enfrente a duríssima crise económica que se avizinha. Há 15 dias referi-me neste jornal ao disparate  da construção de um novo aeroporto em Lisboa. Não só devido ao novo coronavírus, mas também em virtude da crise económica que este está a originar, a que acresce a mudança de mentalidades que se poderá operar no decurso desta crise de saúde pública. A forma como encaramos os outros países, como vemos a globalização, as deslocações de avião, o modo como trabalhamos, poderão mudar em virtude do que vivermos nos próximos meses.

A crise económica já se sente nas quedas das bolsas e do preço do petróleo. Nos cancelamentos de férias, com voos fechados e hotéis que estarão vazios na Páscoa e, quem sabe, no Verão. A queda do turismo será extremamente grave em Portugal. Dramática para os que apostaram no alojamento local como forma de vida. Irónica para as autarquias que, em vez de reduzirem custos, preferiram inventar taxas turísticas. As próprias projecções económicas do governo estão ultrapassadas. Até o Orçamento de Estado que Marcelo vai promulgar esta semana está caduco. Os seus números encontram-se ultrapassados pela nova realidade.

Estamos perante uma crise económica que se acentuará devido ao endividamento. Nos últimos anos, os governos viveram à custa do dinheiro fácil. Como qualquer pessoa minimamente ajuizada devia saber o dinheiro fácil tem um custo. O desta vez, e para variar, foi o aumento da dívida. Em Portugal, nos EUA, em França, Espanha e Itália. Nos últimos anos apenas a Alemanha conseguiu reduzir efectivamente a dívida pública. Se com estes níveis de endividamento um espirro entope uma economia, o que esperar de um vírus como o que o assola o mundo? Adicionemos à doença e ao endividamento uma nova pressão sobre o euro e estão reunidas as condições para uma tempestade perfeita. A dúvida é se uma União Europeia mais fraca, mais dividida e com uma população farta deste tipo de discurso, resiste a mais um embate.

Após escrever este texto no computador, fiz scroll up com o rato até ao topo da página e conclui de imediato que o título para o encimar é o que lá está e que se pode ler: o desafio das nossas vidas. Daqui a uns anos veremos se estivemos à altura.